Olhos azuis

Onde está toda a sinceridade que se procedeu aqui? Meu personagem não pode olhá-la nos olhos. Ela não os tem como as nuvens. Nem as nuvens com seus magníficos e estelares olhos têm aparecido por aqui. Só chove, sinceramente chove. Ele abriu a janela tantas vezes para procurar o céu, e somente pode entender que chovia. Se enclausurou em si mesmo. Abriu um livro e outro. Abriu cinco livros e os fechou. Buscava um poema, até que ele bateu na porta. Era um poema bem acabado. Todo rimado de olhos azuis, o desejo em métrica. Sorriu, um sorriso tão escandido que corou. A surpresa de ver aqueles olhos, profundamente, o deixou inquieto. Pediu que entrasse e entrou, tirou o casaco e sentou-se no sofá. Fechada a porta, sentou na poltrona. Os olhos azuis disseram que não vieram para deixá-lo perturbado. Ele acreditou desacreditando. Somente a necessidade do olhar o desassossegava. Era assim sempre. O silêncio interrompido pelos dois ao mesmo tempo, acabou se tornando silêncio mais uma vez, queriam falar, mas gentilmente cederam a vez um para o outro, e gargalharam com o atrapalho da situação. A gargalhada formou uma nova poesia. Da poltrona para o sofá. É muito tempo sem se ver. O desejo, apesar de odioso, era maior a cada dia. Como ele teve coragem de viajar por tanto tempo? Deixando assim só a chuva, sem estrelas? Tinha necessidade. A volta que deu pelas estradas o elucidou em sinceridade. Os olhos azuis o amavam sinceramente. Ele baixou a cabeça, sem graça. Pensara tantas coisas e tantas possibilidades, até mesmo desejou a morte dos olhos, mas se entregou, em um beijo demorado. As roupas caíram, os pelos se eriçaram. O desejo cedeu lugar ao ato. Dividiram o dom. Depois abriu a janela, a chuva estava lá. O vento frio entrou, os papeis da escrivaninha voaram. Os olhos azuis passaram pelos papeis que se assentaram perto dele. É um romance? É a vida! Ele o traíra. Eram os olhos azuis que agora abaixaram. Tinha o abandonado sem deixar nenhum aviso. Mas, era o tempo que ele... É verdade, nada de avisos. Tivera o que merecia. Estava tudo acabado ou era um novo começo? Era um começo, diferente. Mas os papeis tratam da afetação em emoção da traição! Sabe que se expressa como em um romance, o amargo se torna doce, a miséria se torna produtiva. Sim, ele o sabia. Os olhos azuis na janela não apreciavam a chuva, mas a si mesmo no reflexo da janela, os pelos se eriçaram, agora pelo frio. Fechada a janela foi para a poltrona. Não havia um poema gargalhado para aquele silêncio. Só uma decisão. Imprudente? Talvez. Pensou no que é o amor, o desassossego, a miséria. Levantou-se e seguiu até a escrivaninha. Ele estava ali, recolhendo os papeis e os reorganizando-os. Abraçou-o e disse que nada mais importava, que estava de volta e não sairia jamais. O som da chuva na janela deu o ritmo jâmbico ao poema. A sinceridade fora embora pela porta principal. Abraçou os olhos azuis e disse que os amava. Sem olhar a sinceridade nos olhos, visto que ela não tinha, selou ali sua infelicidade eterna. Promessas e entregas. Desceu seus dedos pelas costas dos olhos azuis e apertou o abraço, era apertar contra o peito a miséria, o desassossego, nunca o amor. Viveu assim o amargor adocicado pela narrativa. Recolheu o último papel, e num gesto encenado rasgou-os todos. Um esquecimento que permanece na memória. O outro, ali produtivo nos papéis, também não retornaria. Miséria por miséria, escolheu a que os olhos azuis poderiam lhe oferecer. Sem sinceridade o amou. Narrou docemente todos aqueles meses. Sem sinceridade, sem nuvens a olhar. Só a chuva, chovia sinceramente.