A literatura, uma ciência francesa

Ele finalmente terminara de organizar e limpar todos os livros de sua biblioteca. Estava tomado de um êxtase fatal: o tédio. Andava de um lado para o outro. Pensava em fazer duas listas de todos os seus livros: uma com livros que ali estavam e outra com todos os que lembrava que estavam emprestados. Não havia nenhuma novidade na sua biblioteca, esperava por quinze volumes que encomendou, seria sua salvação para o próximo período de tédio que se seguiria: trinta dias em casa, dois deles passaria na casa dos pais no interior, os quais leria pelo menos quatro dos grossos volumes com muito sossego, encostado em alguma árvore do quintal onde crescera, deveria ser uma árvore frutífera com uma copa que lhe fornecesse sombra o suficiente para a tarde toda. Exatamente como fazia com os livros que seu pai possuía na biblioteca imunda e desorganizada, que com certeza ainda estava lá do mesmo modo que na sua infância, só que mais inchada de muitos volumes desnecessários. Leu tantas bobeiras paternas na sua infância e adolescência que nem sequer se lembrava dos seus conteúdos, lembrava somente dos títulos e das capas que era exatamente o que mais o agradava, pomposos e bem editados. Ele não lia os livros de seu pai, mas a promessa que eles eram. Foi realmente entender o que era ler quando os títulos se uniram com os textos ali contidos, deixaram de ser pomposos para realmente o atingir direto na consciência. A biblioteca de seu pai fazia menos sentido à medida que lia mais e mais livros da grande literatura. Os livros da casa do interior mataram seu pai. Perseguiu tanto uma ideia única que o levou para um país esfomeado que quando voltou morreu de uma doença qualquer que contraiu na África, a qual os seus livros não o haviam imunizado contra. Sua mãe queria esquecer-se da biblioteca, porém passava o tempo todo na cozinha criticando os livros por acumularem poeira, mas não conseguia se desfazer da única lembrança do marido ausênte. Estavam lá pelo que representavam, não pelo que continham, pensava ele.

Só organizara sua própria biblioteca porque terminou de escrever mais um livro: A literatura, uma ciência francesa. Em sua última palestra havia dito que a literatura era uma ciência que só poderia ter sido produzida na França, não o país, mas o valor. Achara a frase tão pitoresca que resolveu elaborar a hipótese como se defendesse seu último suspiro. Não poderia morrer sem deixar aquela frase, que agora intitulava o escrito que acabara de revisar, explicada. Entretanto, revisar era um gesto de sofreguidão. Sabia que depois de terminado, entraria no mais profundo tédio que poderia sentir. Não havia mais nada a ser feito. Demoraria meses para ver o título nas prateleiras, os quais eram seguidos pelas críticas, elogios e teses. Gostava do efeito de suas obras? Nem um pouco... gostava de estar ocupado com suas consequências. Seus amigos, seus inimigos, seus admiradores e seus alunos o ocupavam seriamente com cada parágrafo como se desvendassem mais uma pedra de Roseta. Ele se divertia. Mas o hiato que havia entre o fim de um livro e a diversão era mortal. Não sabia esperar, ansioso por ver o efeito de suas reflexões, sofria por antecipação. Esse hiato era impregnado pelo que tinha acabado de fazer e pelas possibilidades do que iria fazer. Um não momento. Sentia que seria consumido pela sua própria angústia. Por isso se amontoava com tarefas desnecessárias.

Havia três dias que trabalhava em sua biblioteca, começara a organizá-la no exato momento em que mandou seu livro para o editor. Seu livro tinha sido aprovado pelo Conselho Editorial antes mesmo de sua finalização. A capa já estava pronta, era uma fusão do rosto de Flaubert com o de Baudelaire, ao fundo reinava Rimbaud. Ele não gostara da capa, mas estava ocupado demais tentando comprovar sua hipótese. Sabia que seus críticos, seus colegas e seus amigos jamais o entenderiam, era sua preocupação maior.

A literatura é patrimônio cultural humano, não há dúvida. E ao propor a desterritorialização da França, não quero acabar com uma nacionalidade ou mesmo elevar uma nacionalidade como exemplar para a criação literária, quero analisar um valor. O francês é um significado que sustentaria todo o fazer literário, toda a escrita, toda a leitura. O gesto político que proponho não diminui a literatura não francesa, recria todos os valores, pois a nacionalidade não faria mais sentido, a não ser pela ideia que denominei francês, que (in)felizmente é homônimo ao adjetivo pátrio. A literatura não começa na frança, todavia somente tem sentido a partir dela. Minha argumentação começou com os próprios franceses defendendo o valor de sua língua, entretanto percebemos que não defendiam a língua, mas a instituição que o francês representa. Portanto, reformulo a frase que iniciou o parágrafo: a literatura é patrimônio cultural humano francês.
Queria esquecer que não seria entendido, por isso organizava os livros havia três dias. Paradoxalmente, resolveu separar os livros por assunto e os literários por nacionalidade. Colocou os franceses todos juntos. Ocupavam uma única estante. Eram pomposos, em edições bilíngues, ou mesmo em edições francesas da Galimard, comprados em tantas viagens pela França. Sabia que essa estante tinha os parafusos já falseando em seus buracos. Sabia que um movimento brusco poderia fazê-la ceder e que o barulho no apartamento de baixo poderia causar algumas dores de cabeça, visto que eles sempre reclamavam de sua inquietação diante da biblioteca. O interfone mesmo já havia tocado duas ou três vezes nesses três dias. Não atendeu, é claro, tinha uma tarefa a cumprir. Será que o peso daquela estante e todos os seus livros poderia matá-lo? Hesitou. Testou a estante e seu falseamento. Seu sorriso no canto da boca era irônico. Poderia realmente matá-lo ou o levaria para o hospital? A dúvida era perversa. Gargalhou. A estante poderia cair mesmo se não a puxasse. Poderia cair a qualquer momento. Poderia estar no meio de uma palestra sobre a frança, assim mesmo sem letra maiúscula, por não mais representar um país, e ouvir o estrondo, o eco de sua estante caindo e acordando os vizinhos, não só os do andar de baixo, mas toda a vizinhança, da frente, dos fundos, do outro lado do hemisfério. Sorriu mais uma vez. Prostrou-se exatamente no meio daquela estante cambaleante e puxou-a com uma leveza que a fez ceder lentamente por cima dele enquanto os livros se desarticulavam sob o peso desnecessário da gravidade.

O caminhante


O homem é composto de repressões e faltas. Somente. E a ele somente cabe um único e grande título, o caminhante. Ele abre os olhos e a presença se faz. Ele dá o primeiro passo, e o passado lhe sobrevêm, a lhe mostrar tudo o que não foi, tudo o que desejou, tudo o que sentiu e se envergonha, como a qualquer um. Ao primeiro passo, vê o futuro e chora, como todos os dias, numa repetição interminável de nadas.

Narrar um dia é narrar todos, posso contá-lo no tempo presente, no passado ou no futuro que não haveria diferença ou mesmo despropósito. Não haveria erro gramatical, muito menos falta de coerência. Seu trabalho recalcitrante, o mantinha em desvida. Fazê-lo era apagar-se, não fazê-lo era sobrevivê-lo. As poucas horas que passava por lá, corriam lentamente, cada minuto preenchido por um pequeno documento, uma repetida grampeação, um desvirtual clipamento. Chegar e sair, sem ser percebido, era só uma questão de realizá-lo de maneira usual, e era o que fazia, e o fazia muito bem. Todos os documentos em seu devido lugar, grampeados e nos clipes. Seu chefe só precisa assinar e devolver. A única coisa que o desassossegava era de(re)volução que o obrigava a sair de sua sala e passar pela secretária e pedir a chave do arquivo. Muito simpática, muito servil, muito interessada. Feliz, por assim dizer. Porém, sua felicidade não cabia no caminhar, seu bom dia irritante era decretar a morte da vida inteira, e mostrar tudo o que lhe falta. E essa falta é a ignorância para considerar que a felicidade possa existir e ser expressa num simples bom dia. A busca da felicidade era o que mantinham as pessoas vivas, e a existência da felicidade era que o mantinha amargo. Além disso, o arquivo era a lembrança desesperada de que existe um passado e que ele está ali todo documentado, encaixotado e finamente datado. Todos os seus doze anos quatro meses e 22 dias de serviço estavam ali bem exibidos e limpos, por um fantasma qualquer da limpeza. Ele se exigia para não exigirem dele.

Seu almoço solitário se restringia ao que lhe ordenavam comer, regrado pela nutricionista corada e de sorriso fácil, não precisa emagrecer... mas escolher o que comer não lhe tinha serventia, comia porque sabia que tinha que comer. A inanição não poderia lhe matar, outra morte lhe pertence, lhe merece. Com seus dedos ágeis cortava cada porção exata de tudo que lhe alimentava, mastigava carinhosamente cada uma das proteínas, dos carboidratos, sentia a leveza de cada vitamina... uma pequena sensação de preenchimento, que logo se esvazia pelo suco gástrico, pela absorção do organismo, para eliminar tudo aquilo que já não presta, mas que lhe dava uma única oportunidade, mesmo que metafórica, do prazer de expulsar o inválido. O dinheiro sempre estava minuciosamente contado na carteira, não que lhe faltasse, pelo contrário, lhe sobrava, não sabia ao certo quanto tinha em sua conta bancária, só sabia que recebia mais do que precisava, deveria já se amontoar aos milhares, o banco ligava todas as semanas propondo-lhe um investimento, uma conta exclusiva. Exclusividade que não lhe acariciava o ego, visto que ser importante para outrem, mesmo que bancariamente, era o vil e desnecessário modo de existir.

O mesmo ônibus, o mesmo horário, o gesto de puxar a cordinha, os mesmo olhares, os mesmos transeuntes, o mesmo sol, a mesma chuva, o mesmo porteiro, o mesmo bom dia, o mesmo olhar, o mesmo resmungo, o mesmo desprezar. Suas chaves já giravam sozinhas na porta, aprenderam por aprender e abriam-lhe a repressão. Uma, duas ou três correspondências por baixo da porta. Algumas vezes um bilhete, era a vizinha sempre a lhe convidar para algum jantar. Uma vez desculpou-se dizendo que não comia carboidratos depois das 18h. Comia outra coisa. Sua boca se enchia de outro sentido, um sentido advindo de um outro quarto que não era o de dormir. Dos cômodos de sua casa, o que mais lhe pré-ocupava, o que mais lhe oprimia era o outro quarto: estantes, poltrona, milhares de livros e uma luminária. Depois de seu lanche noturno, somente lhe cabia uma única tarefa: ler. Entrar em um mundo que só lhe pertencia quando um livro era aberto e que se desfazia a cada fechar. Do oriente, do ocidente, do meridiano ou do setentrional, em português, em inglês, em espanhol, em alemão, em italiano, não lhe importava, tudo era deglutido com o mesmo gesto, o passar das páginas e a sensualização dos olhos nas letras. Não eram somente mundos narrativos, mas também mundos filosóficos, sociológicos, tanatológicos, legais e medicinais. Não era engolir personagens, era tirar deles todo o proveito. Os únicos que poderiam ser felizes, pois tinham morte certa, era só fechar o livro. E só eram felizes porque inteiros, mesmo que pela metade, preenchiam a filosofia, a sociologia, a tanatologia, o direito e a medicina. Um era suplemento do outro, estavam todos ali ligados por uma tradição não divisível pela metade do globo.

Meia-noite. Respirava duas vezes, profundamente a sorver, provavelmente, seu último oxigênio, e dormia. No outro dia tinha que caminhar novamente. Ao menos, não precisaria ir ao arquivo.

Sonoramente inerte

De sonhos estranhos para a realidade brutal, fui arrancado dos braços da morte para minha cama, como se acordar fosse uma salvação. O relógio piscava três da manhã ao me dizer que de agora em diante não há mais sono. Descansa um, enquanto o outro perece. Levantei e peguei o cachecol. Chaves e um papel. Abri a porta cuidadosamente para não acordar demônios piores que geralmente encontro pelas ruas. O portão sempre rangia, e rangeu tão lenta e furiosamente naquele silêncio que dois olhos de gato se abriram na noite. Era meu acompanhante, não tinha outra opção. Ganhei a esquina de minha casa, não havia mais ninguém, somente os roncos, os gemidos e os poucos prazeres da noite. Desci a rua calmamente, era toda minha e das estrelas que de uma forma fantasmática davam vida as poucas nuvens que ousavam cruzar o céu tão vagarosamente que parecia que eu não estava a andar. Me acompanharam por quadras até a única luz acesa. Um velório pela madrugada, tão comum quanto a vida que só tem sentido pela morte. Passei pelo outro lado da rua, o caixão estava à vista... mas não havia ninguém a chorar pelo defunto. Olhei mais uma vez... nem mesmos os funcionários da funerária estavam lá. Os olhos brilharam. Eu entrei. Um caixão, nenhuma coroa de flores, um violino sobre o morto, ninguém. Era somente o morto, a morte e eu. Serenamente vidrado meus olhos se apossaram da inércia mortificada. Pele lisa, cabelos bem penteados, rosto quadrado, nariz perfeitamente pontudo, lábios finos. Tenho certeza que seus olhos eram profundamente verdes. Uma das mãos delicadas seguravam suavemente o violino e a outra debilmente o arco. Os dedos finos demonstravam habilidade, as unhas perfeitamente aparadas. Um corpo esguio, poderia vê-lo tocando, mas meu acompanhante via mais. Seus olhos, agora em fenda devido à luz, mesmo que fraca da funerária, incomodados, pois estão acostumados com a noite, me convidavam para um mundo passado. Acreditava-o músico de renome, mas não. Tocava violino em funerais como aquele que estava solitariamente presente. Engano meu. Tocava em funerais mortificantes, cheios de intenções e mofa. Todos de preto, muitos ternos, muitas joias, muito brilho fúnebre, muita gente mais interessada na vida que sobrou do que no morto. Heranças, lembranças, novos olhares, novos contatos. “Este é o pai do nosso querido amigo, dono das indústrias que lhe falei...”, “Minhas condolências, este é meu cartão!” Sua música jamais desafinou, nunca faltou ao emprego, viu todos os vereadores, grandes chefões do tráfico, atores globais, escritores de best-sellers serem enterrados ali sob suas notas mais tristes entre risos contidos pela forma aguda de suas cordas. Viu esposas chorarem enquanto procuravam os telefones dos advogados... mas também viu vexames, desconhecidos chorarem sinceramente pelo morto, viu coisas estranhas, viu até mesmo um enterro faraônico onde seu violino era mais um entre trinta. Os olhos fendados gargalharam, olhou ao redor e só viu a mim e não escutou nenhum violino, nem música triste ou acordes fúnebres. Só havia minha respiração oscilante e o chiado da lâmpada quase por se esgotar. Toquei sua mão, sua morte deve ter sido muito tranquila feita de nadas sobre o vazio, os olhos a me reprovar... Tocaria violino se eu soubesse, mas disse palavras desconexas rapidamente rabiscadas no papel, nem para me condoer pelo distante eu era capaz. Tudo era fingimento, falsidade. Morre-se todos os dias, todas as horas, todos os segundos, entrega-se a terra nada mais que o velho gasto corpo perecível para que seja reaproveitado para reanimar a grama que irá esverdear sua lápide. Os olhos se fecharam, eu subi a rua solitário, nem as estrelas a me acompanhar, já amanhecia e as primeiras lutas já se desdobravam, o carro da funerária subiu lentamente passando por mim. Seguia em direção ao cemitério municipal. Não era indigente, eu sabia seu nome, Frederico Andrade (1985-2010), enterrado em vida por animar a morte. Invisível como qualquer outro fantasma. Silencioso porque não tocou nenhum coração com suas vibrações musicais. Sonoramente inerte. Mais um belo instrumento musical desperdiçado.