O caminhante


O homem é composto de repressões e faltas. Somente. E a ele somente cabe um único e grande título, o caminhante. Ele abre os olhos e a presença se faz. Ele dá o primeiro passo, e o passado lhe sobrevêm, a lhe mostrar tudo o que não foi, tudo o que desejou, tudo o que sentiu e se envergonha, como a qualquer um. Ao primeiro passo, vê o futuro e chora, como todos os dias, numa repetição interminável de nadas.

Narrar um dia é narrar todos, posso contá-lo no tempo presente, no passado ou no futuro que não haveria diferença ou mesmo despropósito. Não haveria erro gramatical, muito menos falta de coerência. Seu trabalho recalcitrante, o mantinha em desvida. Fazê-lo era apagar-se, não fazê-lo era sobrevivê-lo. As poucas horas que passava por lá, corriam lentamente, cada minuto preenchido por um pequeno documento, uma repetida grampeação, um desvirtual clipamento. Chegar e sair, sem ser percebido, era só uma questão de realizá-lo de maneira usual, e era o que fazia, e o fazia muito bem. Todos os documentos em seu devido lugar, grampeados e nos clipes. Seu chefe só precisa assinar e devolver. A única coisa que o desassossegava era de(re)volução que o obrigava a sair de sua sala e passar pela secretária e pedir a chave do arquivo. Muito simpática, muito servil, muito interessada. Feliz, por assim dizer. Porém, sua felicidade não cabia no caminhar, seu bom dia irritante era decretar a morte da vida inteira, e mostrar tudo o que lhe falta. E essa falta é a ignorância para considerar que a felicidade possa existir e ser expressa num simples bom dia. A busca da felicidade era o que mantinham as pessoas vivas, e a existência da felicidade era que o mantinha amargo. Além disso, o arquivo era a lembrança desesperada de que existe um passado e que ele está ali todo documentado, encaixotado e finamente datado. Todos os seus doze anos quatro meses e 22 dias de serviço estavam ali bem exibidos e limpos, por um fantasma qualquer da limpeza. Ele se exigia para não exigirem dele.

Seu almoço solitário se restringia ao que lhe ordenavam comer, regrado pela nutricionista corada e de sorriso fácil, não precisa emagrecer... mas escolher o que comer não lhe tinha serventia, comia porque sabia que tinha que comer. A inanição não poderia lhe matar, outra morte lhe pertence, lhe merece. Com seus dedos ágeis cortava cada porção exata de tudo que lhe alimentava, mastigava carinhosamente cada uma das proteínas, dos carboidratos, sentia a leveza de cada vitamina... uma pequena sensação de preenchimento, que logo se esvazia pelo suco gástrico, pela absorção do organismo, para eliminar tudo aquilo que já não presta, mas que lhe dava uma única oportunidade, mesmo que metafórica, do prazer de expulsar o inválido. O dinheiro sempre estava minuciosamente contado na carteira, não que lhe faltasse, pelo contrário, lhe sobrava, não sabia ao certo quanto tinha em sua conta bancária, só sabia que recebia mais do que precisava, deveria já se amontoar aos milhares, o banco ligava todas as semanas propondo-lhe um investimento, uma conta exclusiva. Exclusividade que não lhe acariciava o ego, visto que ser importante para outrem, mesmo que bancariamente, era o vil e desnecessário modo de existir.

O mesmo ônibus, o mesmo horário, o gesto de puxar a cordinha, os mesmo olhares, os mesmos transeuntes, o mesmo sol, a mesma chuva, o mesmo porteiro, o mesmo bom dia, o mesmo olhar, o mesmo resmungo, o mesmo desprezar. Suas chaves já giravam sozinhas na porta, aprenderam por aprender e abriam-lhe a repressão. Uma, duas ou três correspondências por baixo da porta. Algumas vezes um bilhete, era a vizinha sempre a lhe convidar para algum jantar. Uma vez desculpou-se dizendo que não comia carboidratos depois das 18h. Comia outra coisa. Sua boca se enchia de outro sentido, um sentido advindo de um outro quarto que não era o de dormir. Dos cômodos de sua casa, o que mais lhe pré-ocupava, o que mais lhe oprimia era o outro quarto: estantes, poltrona, milhares de livros e uma luminária. Depois de seu lanche noturno, somente lhe cabia uma única tarefa: ler. Entrar em um mundo que só lhe pertencia quando um livro era aberto e que se desfazia a cada fechar. Do oriente, do ocidente, do meridiano ou do setentrional, em português, em inglês, em espanhol, em alemão, em italiano, não lhe importava, tudo era deglutido com o mesmo gesto, o passar das páginas e a sensualização dos olhos nas letras. Não eram somente mundos narrativos, mas também mundos filosóficos, sociológicos, tanatológicos, legais e medicinais. Não era engolir personagens, era tirar deles todo o proveito. Os únicos que poderiam ser felizes, pois tinham morte certa, era só fechar o livro. E só eram felizes porque inteiros, mesmo que pela metade, preenchiam a filosofia, a sociologia, a tanatologia, o direito e a medicina. Um era suplemento do outro, estavam todos ali ligados por uma tradição não divisível pela metade do globo.

Meia-noite. Respirava duas vezes, profundamente a sorver, provavelmente, seu último oxigênio, e dormia. No outro dia tinha que caminhar novamente. Ao menos, não precisaria ir ao arquivo.