Viver

Sentado à mesa do café-da-manhã, divagava com a faca sobre a margarina. Lembrava do sonho daquela noite. Um homem olhava-o profundamente em seus olhos, sorria e levantava dois palitos de fósforo longos e com a cabeça vermelha. Seus olhos passaram a faiscar como se fosse cometer um crime. A faca passeava sobre o pão enquanto sua mãe se aproximava. Ela nunca chegava de um único lance, ia aproximando-se vagarosamente. Abria a geladeira, pegava uma jarra. Ia até o armário, retirava um copo. Puxava a cadeira, sentava-se e a água lentamente caía dentro do copo. As divagações não cessaram até sua mãe abrir a boca, o desgrudar dos lábios fez um leve barulho que logo fora interrompido pela entrada da empregada bufando. A mãe olhou para ela com os olhos apertados, controlando via o medo os gestos desnecessários da empregada. Sorrisos de satisfação, pela manutenção violenta da tranquilidade na ambiência do café-da-manhã. A empregada saiu, sem nenhum barulho. O ritual novamente começara. As mãos tocaram o copo, enquanto a jarra era colocada sobre a mesa. Levada o copo até a boca, enquanto sua mão passeava sobre o crochê que enfeitava a mesa. Sorria, enquanto abria a boca. O filho ainda passando a faca serenamente sobre o pão, olhou para os olhos da mãe. Disse alguma coisa sobre o pai não estar muito satisfeito com comportamento do filho. Enunciou sua idade mais de quatro vezes e lhe exigia que fizesse algo de sua vida. Ele sorria ao pronunciar sua sentença sobre o julgamento do pai, já fazia algo, algo aliás muito importante: viver. Não havia ocupação mais interessante do que esta. Sua mãe desmoronou em si mesma. Levantou-se, dirigiu-se ao filho e passou a mão em sua cabeça. Mostrou o tamanho da casa com um gesto largo que abrangia a cozinha de um canto ao outro e afirmou que aquilo não duraria para sempre, que o pai um dia iria morrer e todo o conforto iria com ele, visto que o filho não se interessava pelos negócios da família. Negócios do pai da família, retorquiu severamente. A mãe abaixou a cabeça concordando. Exigiu que procurasse seu próprio sustento, já que aqueles negócios não o interessavam. Negócio nenhum o interessava, tinha outras espécies de negócios a tratar. E seguindo para a biblioteca, cuidaria do seu primeiro afazer do dia. Cuidaria, se houvesse encontrado algum livro sobre as prateleiras. Somente restava o pó, que estava disposto de acordo com a grossura de cada volume. Esperava por aquilo, só não tinha condições de mensurar exatamente quando aquilo iria acontecer. A empregada entrou exasperada. Ele a olhou e sorriu. Ela tentava explicar que seu pai havia mandado retirar todos os livros da biblioteca e que foram levados não sei para onde. Ela estava tristíssima perguntando o que sua criança iria fazer naquele momento. Saiu sem um aperto no peito, subiu ao seu quarto, trocou de roupas e pegou sua carteira. O celular brilhava a luz do sol matutino que lhe invadia pela janela, não tocou nele, como nunca o havia tocado. Sua face transmitia tranquilidade, os olhos da mãe ao observá-lo atravessar o sala de estar não conseguia acreditar naquilo. Ganhou  o jardim, e o motorista lhe perguntou onde deveria levá-lo. Um único gesto com a mão indicara que iria passear sem o carro. As ruas não faziam sentido para ele, andava sem destino, lembrou da mãe requerindo-lhe uma ocupação. O comércio da cidade estava abrindo suas portas. Entrou numa loja de antiguidades, observou cada móvel em seus detalhes. Um recamier o interessou-lhe particularmente. Sentou-se, tocou o tecido, passeou com os dedos pelos detalhes talhados na madeira. O vendedor vestido com terno e gravata perguntou se havia gostado da peça, os detalhes eram talhados por uma história qualquer a qual não prestou atenção, os detalhes explicavam a si mesmo sem história alguma. Deu o endereço onde deveria entregar o móvel, não perguntou o preço e ofereceu o cartão de débito ao caixa. O caixa ofereceu uma promoção qualquer que rejeitou ao questionar se havia alguma livraria ali por perto. O cartão havia sido rejeitado. Saldo insuficiente. Tirou algumas notas da carteira e pediu que o caixa guardasse o troco.  Sim, havia uma livraria há duas quadras na direção da praça. Seguiu para lá, viu a livraria que era ladeada por um sebo, preferiu a loja de livros usados. Ao ser prontamente atendido disse que iria procurar por si mesmo o livro que levaria aquela manhã. Viu muitos dos títulos da sua biblioteca desaparecida, até que encontrou um livro que não havia lido, abriu-o, leu a primeira linhas em voz alta: "Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz a sua maneira". Refletiu por um instante, não compreendia o que poderia ser uma família feliz, concluiu que se houvesse certamente era falsa, só poderia ser de plástico dentro de uma casinha de bonecas. Novamente seu cartão não funcionara, retirou mais uma vez o dinheiro da carteira. O tempo estava fresco, a praça era o local ideal para a leitura. Sentou-se embaixo de uma árvore qualquer, abriu o livro e acendeu um cigarro. Parecia que sua mãe se aproximava, mas não, era um rapaz. Parou na frente do lago, enquanto mexia na bolsa. Tirava uma máquina fotográfica, enquanto os pombos voavam com a presença de uma criança correndo. Virou a página. O rapaz virou-se, tirou uma foto na direção em que o rapaz estava. Guardou a máquina, enquanto caminhava em direção ao banco. Sentou-se colocando a bolsa ao lado abrindo a boca, o descolar dos lábios e seu som costumeiro. Não permitiu que falasse, perguntou antes se era fotografo. A negativa o fez rir. O rosto do rapaz ficou rubro perante a sua pele alva. Tentava explicar o motivo da fotografia, mas fora interrompido, não devia nenhuma explicação a ninguém... as pessoas estão acidentalmente na paisagem a qual se quer registrar. Até mesmo num retrato, não quer-se registrar a pessoa, mas o momento, o sentimento, o segredo que há ali. A pessoa aparece acidentalmente na paisagem. O rapaz riu-se da explicação, os dois começaram a discutir a fotografia até que o rapaz perguntou-lhe o nome. Giovani. O rapaz se apresentou já que ele não lhe havia feito a mesma pergunta. Leandro. Combinaram de se encontrar em um bar não longe dali depois das seis horas para terminar a discussão sobre a fotografia, visto que Leandro precisava ir para o trabalho. Continuou a leitura, os transeuntes não percebiam que ali para ele o tempo não passava, todos olhavam para o relógio e morriam oprimidos pelo ponteiros que indicavam horas cheias e seguiam sem poder parar e observar tudo o que só pode ser percebido lentamente. Almoçou em um boteco qualquer quando teve fome. Ao dirigir-se novamente para a praça, encontrou um amigo, queria somente lhe cumprimentar meneando a cabeça, mas infelizmente foi parado. Após os cumprimentos tudo bem desnecessários contou-lhe que seu pai estava furioso na empresa, sem um por quê?, continuou explicando que Giovani era o motivo da irritação, educara seu filho nas melhores escolas, mandara-o para a Europa e a América do Norte e para quê? Gritava um nada que poderia ser ouvido até mesmo na contabilidade. Todos estavam em polvorosa. Giovani não regia, parecia que estavam lhe narrando a história de uma outra pessoa que não ele. Seu pai confidenciou ao advogado, amigo de Giovani, que havia  tomado uma medida drástica. Lembrava de sua mãe pedindo que arrumasse uma ocupação. Livrou-se do amigo ao perguntar que horas entrava depois do almoço, olhando o relógio com os olhos arregalados saiu correndo. Sentado no banco esqueceu-se de tudo e sorveu cada personagem como se não os tivessem abandonado pela necessidade alimentar do corpo. Às cinco, Leandro voltava pelo mesmo caminho e estranhou que ele ainda estava sentado ali, não se aproximava. Dessa vez não foi até o lago, tirou sua câmera da bolsa e tirou a mesma fotografia sem a mesma luz do começo do dia. Giovani fechou o livro e levantou-se perguntando se aquilo era uma mania. Os dois sorriram, seguiram para o bar que deveriam se encontrar. O rapaz havia tomado a liberdade de chamar alguns amigos, ele não se sentiu incomodado visto que o bar era um local que qualquer poderia entrar, sentar e beber, rir, conversar e se apaixonar. Leandro sorriu. O bar era bem decorado, mas a sua atenção não se voltava para os enfeites pendurados no teto do local e sim para as pessoas. Analisou o cabelo, a roupa, os gestos de cada uma num único lance de vista, reconheceu um ou dois amigos do pai, um ou dois amigos que o visitaram na Europa a pedido da mãe. Enfadou-se, estava no seleto circo fechado de sua família. Leandro percebeu logo a mudança do sorriso em desgosto. Nada estava errado, era óbvio que mentia. Sentaram-se numa mesa ao fundo. Leandro apontou alguns homens e descrevia a profissão, Giovani falava que os conhecia e Leandro se chocou. A conversa mudou de tom com a chegada de quatro amigos, dois homens e duas mulheres. Os nomes foram ditos e esquecidos da mesma maneira. O que interessava era os cabelos cacheados de uma, os olhos verdes quase transparentes da outra. A barba por fazer de um, e as entradas do outro. Leandro apresentou Giovani ao contar a história das duas fotografias, todos se interessaram. E uma chuva de perguntas bombardeou-o, atingiam o alto mar já que as respostas eram vagas e imprecisas. Após o questionário mal preenchido, logo voltaram a discutir a questão do retrato. Leandro não concordava, Giovani argumentava que o retrato de pessoas desconhecidas eram mais expressivos que o de conhecidos. Havia mais história num desconhecido do que numa celebridade. A barba e os cachos concordavam com Giovani ao enumerarem fotógrafos que possuíam maior poder expressivo. Já as entradas concordava com Leandro, o retrato de uma pessoa conhecida expressa além do  retratado toda a força política daquele indivíduo. Sóbria, os olhos verdes questionou o amigo se não havia força política num desconhecido. A mesa parou de falar por um instante. Leandro balançou a cabeça refletindo, Giovani o olhava com demora. Os amigos perceberam que ali havia uma outra história acontecendo, com ou sem força política. Muitas cervejas ilustravam mais e mais as teorias particulares sobre o retrato que logo descambou para a pintura e por fim chegou aos planos futuros, cada um jornalista, sonhava com a grande reportagem, um livro de fotografias de desconhecidos, uma cobertura de uma guerra ou mesmo uma ponta no jornal televisivo. No momento de Giovani anunciar seu plano futuro, pegou o livro e disse que gostaria muito de terminar aquele livro antes que o pai o achasse e o escondesse como os outros. Todos gargalharam. Leandro percebeu o rosto sério do novo amigo. Era tarde, as despedidas começaram, promessas de novo encontro foi feita, mas naquela semana seria impossível, cada um com sua ocupação que não batia com o horário do outro. Há quanto tempo não se encontravam? Semanas, provavelmente. A memória foi comida pelo tempo, pensou Giovani. Restou somente os dois à mesa. Leandro queria encontrá-lo novamente, assustou-se com o fato dele não lembrar-se do número de seu celular. Anotou seu número num guardanapo que fora imediatamente guardado dentro do livro. Cada um tomou seu caminho. As ruas do centro da cidade estavam iluminadas levemente e as vitrinas das lojas formavam um mosaico do desejo, Giovani parou na frente de uma ou duas e apreciou o conceito. As luzes diminuam à medida que se aproximava de sua casa. Abriu o portão e estranhou uma luminosidade incomum no jardim. Era uma fogueira, concluiu com mais dois passos. A mãe chorava ao lado do pai que jogava um por um os livros que estavam num carrinho de mão. O pai ao ver o filho ferveu voando em direção ao livro que estava embaixo de seu braço que logo foi atirado ao fogo. O pai interrogava como ele havia comprado aquele livro se todos os seus cartões estavam bloqueados e olhava furiosamente para a esposa ao adivinhar que ela nunca deixava a carteira de seu filho vazia. Um sermão sobre o trabalho e a ocupação foi seguido de muitos olhares de raiva espumante. A raiva converteu-se rapidamente em ódio ao perceber que o filho não se comovia com toda a sua ira. Lembrava-se da mãe passando a mão em sua cabeça, lembrava-se da empregada contando-lhe como os livros sumiram, lembrava-se do amigo advogado que o parara na rua, lembrava-se dos olhos verdes, dos cachos, das entradas e da barba, lembrava-se de Leandro e sua máquina fotográfica, lembrou-se de seu sonho e sorriu. Levou uma bofetada na cara. O pai repetia sem cessar que ele deveria aprender a viver e que acordaria cedo amanhã para ir ao escritório.