Siderações [desengavetando textos velhos, provavelmente de 2005 ou 2006]

A Cruz e Sousa

Ela olhou as estrelas e sentiu no fundo de seu coração o aperto. Era o combinado. As estrelas estão em todos os lugares. E representam muito mais do que telefonemas ou cartas escritas sem pretensão. A saudade daquele homem vem sempre sorrateira durante a noite, por isso as estrelas. Durante o dia o quarto está iluminado e as fotos de seu irmão estão todas sob seus olhos, mas na calada da noite, não é possível ver com a nitidez do dia. Fotos e estrelas as únicas coisas que podiam acalmar aquele coração aflito. Ela pediu que ele fosse trabalhar na Argentina, mas não, ele queria emoções fortes para suas fotos e textos. "Por que, meu irmão, você foi para a guerra?", ela gritava da sacada de seu apartamento, silenciosamente, sem palavras, mas muito alto dentro do coração de seu irmão.
Um telefonema com uma única pretensão. As estrelas aproximam corações e mentes, mas não os ouvidos. Como a palavra pode ser destruidora. Cinco fonemas, cinco letras e um sentido, o sentido final. Ela gostaria que essa palavra tivesse outro significado. "É preciso buscar novamente no dicionário, deve haver outras entradas com outros sentidos, às vezes figurados...", mas não, esse sentido é fatal.
Ela caiu de joelhos, suas pernas não mais a sustentavam. O peso das palavras?
"Por que ele foi para o Iraque? Ele poderia ter ido para a beira de vulcões, mais previsíveis quem sabe, mas uma guerra... Poderia ser uma guerra contra robôs, contra palavras, contra conceitos velhos e ultrapassados, mas contra homens? Não... Pior, homens sob o calor de Marte." Astros e estrelas malditos. Ela vomitou, não se sentia bem, pôs para fora seu escatológico almoço. Vômito de ira?
Ela flagelou-se, sem cilício ou chicote, apenas pensamentos desconexos. Palavras quintessenciadas? Horas de destruição silenciosa. Hiroshima com apenas uma vítima. Nenhum outro telefonema, nem visita. Sim, ela era sozinha. Seu irmão era tudo e todos. Tão longe e presente.
Se não há consolo caloroso, há o consolo frio e vil. Três círculos sagrados onde os homens construíram a paz verdadeira, brancos e pequenos, sólidos para se desfazerem dentro do suco digestivo. Irônico, não?
Paz... Absoluta paz. Ela jogada no centro de sua sala num tapete felpudo negro, que combinava com vários objetos naquele lugar, visíveis e até invisíveis. Paz... O efeito de sua calma embalada já era quase total. Ela queria ver as estrelas mais uma vez. Abriu a porta-balcão, afastou duas cadeiras e atingiu o parapeito da sacada, olhou para o céu e blasfemou, desta vez em alto e bom som. Queria tirar satisfação com as estrelas. Por que não? Subiu no parapeito. Iria andando até elas, a decisão já estava tomada. Pôs seu pé sobre o ar sólido que aceitou sua pisada raivosa e ela caminhou até o céu. Não, o nome dela não era Ismália. Está mais para Alda.
"Por quê? Me digam!" As estrelas somente a olhavam. Sentiram penas as estrelas? Elas já viram muitas dessas coisas acontecerem....

Finas flores de pérolas e prata,
das estrelas serenas se desata
toda a caudal das ilusões insanas.

Quem sabe, pelos tempo esquecidos,
se as estrelas não são os ais perdidos
das primitivas legiões humanas?!

O olhar das estrelas era desgastante, impassível e sincero. Ela viu que não obteria sua resposta. Sua demanda apenas começara. Pelo véu negro da noite flutuou encarando todas as flores de pérolas e prata, mas nada. Nenhuma delas cederia à dor de sua visitante.
Quando ela desistiu de inquirir as estrelas um ponto brilhante se fez na Terra envolvido pela escuridão da noite. O que seria? "O brilho só pode vir do céu..." Não. Pequeno engano, ilusões criadas por mentes mesquinhas e impuras.
Ela se ateve ao brilho incomum e numa visão aproximou-se. Lá estava a terra onde tudo começara. A terra ignóbil e desnecessária. Quantas cidades não estariam ali enterradas embaixo daquelas estruturas? Quantos milênios de guerra essa cidade já não viu?
O brilho estava atrás de uma trincheira e ela se aproximou levemente, flutuava naquele ar quase sólido de sangue evaporado. Ali estava a estrela que procurava. Um homem, sua máquina fotográfica, seu cartão de autorização e um bloco de anotações jogado ao lado. O tiro foi certeiro, no meio da testa, feito por um especialista. Mas mesmo assim brilhava. A barba espessa fez com que o reconhecimento demorasse um pouco, mas sim, aquele era seu irmão.
A sua calma em pílulas não permitiu que ela tivesse um ataque naquele momento. Somente aquela tristeza e uma lágrima sincera. "Meu irmão... Acorde!" Isso não é um conto fantástico. Ele não vai acordar como num passe de mágica. Morto, ele está morto. E, exceto em sonhos, que não é este o caso, o impossível não pode acontecer.
Ela velou o irmão. O efeito calmante era tão potente que ela não se desesperou. O brilho daquele homem bem afeiçoado, pele morena e rosto quadrado, muito bem feito só disputando com Narciso, foi se tornando cada vez mais forte. Uma estrela em crescimento. Das estrelas serenas se desata toda a caudal das ilusões insanas. Uma estrela sempre está no céu, e foi para lá que se foi o que se foi.
Ela acompanhou a evolução daquela estrela até o céu, de onde acabara de chegar e toda a luz a sua volta foi se desfazendo, e um silêncio incômodo a assustou. Olhou a sua volta. A vista estava rubra de tanto sangue em derredor. Decidiu voltar, mas escutou o choro de um bebê. "Uma criança, aqui?" Quem sabe... Ela procurou em todos os lugares próximos, mas o som daquele pedido ainda sem palavras articuladas não se fez mais alto ou baixo. Até que ela percebeu que o choro vinha de dentro dela.
De seu ventre uma dor inconcebível. Mas aquele bebê não estava pronto para nascer. Mas era seu ventre que queimava. E sua dor foi tão atroz que a acordou de sua busca insana por motivos.
O telefone tocava. "Alô?" sua voz estava rouca, sua boca estava seca. "Aqui é Dorneles, o seu chefe, estou ligando para saber se vou ter que arrumar mais uma mesa para colocar os processos que estão atrasados? Pois o luto do seu irmão já passou já faz mais de uma semana!" Insensível? Não. Prático. Para ele a dor também já passou. Quando ela desligou o telefone percebeu que sua calça estava encharcada de sangue. Quanto tempo ela passou ali, jogada na própria dor? Não importa quanto tempo. O que mais importa agora é que ela finalmente pode se considerar sozinha. Sinto muito Cruz e Souza, o Mistério para os homens já acabou.