Inocência irônica


Les Carabiniers, França, 80min, 1963, preto e branco

Um filme postal poderia arriscar. Ulisses e Miguel Ângelo são iludidos pelos encantos da guerra, nenhuma guerra específica visto que todas as guerra parecem uma única guerra, a que move os homens pelo desejo de conquista e de vitória, e inocentemente eles aceitaram ser carabineiros para poder conquistar aquilo que não tinham: pequenos objetos que sua miséria não poderia comprar. Cleópatra e Vênus até montaram sua lista de objetos os quais gostariam que eles pilhassem, visto que na guerra tudo é permitido, até matar inocentes, principalmente. Partindo para o combate, eles mantém contato com seus familiares por meio de postais contendo suas impressões sobre a guerra e seus atos. Entretanto, as suas impressões que não são tão inocentes quanto eles aparentam ser, são palavras ferozes e capazes de nos fazer refletir o que significa a guerra, e volto a frisar, não uma guerra específica e porque não as pequenas guerras que travamos todos os dias: "il n'y a pas de victoire, il n'y a que des drapeux et les hommes qui tombent" ou "não existem vitórias, apenas bandeiras e homens que caem", esta é a mais vigorosa impressão postal que lemos nos diversos cartões que nos foram entregue durante o filme. De ambos os lados caem os homens e as bandeiras. Uma jovem garota comunista, interpretada por Odile Geoffroy, com o dedo em riste repete o discurso de Lenin e ao ser executada tem seu rosto coberto por um pano branco e grita por seu irmão, o que comove os carabineiros que permitem que ela tenha um último desejo antes de morrer atendido. E ela simplesmente deseja recitar um poema: Admirável Fábula de Maiakovski:


Isso não pode ser a morte
Por que iria ela rondar o forte? 
Não tendes vergonha de acreditar numa fábula?
Simplesmente alguém, para sua festa, ordenou este carnaval
Inventou esses tiros enquanto ele pisca os olhos 
Como é encantador o baixo do anfitrião, 
parece um canhão
E a máscara não é de gás, simples brinquedo farsante
Vejam! 
Em sua corrida, o foguete mede o céu! 
A morte teria essa graça ao deslizar pelo salão do céu? 
Ah, não diga: “O sangue de uma ferida”
É odioso
Simplesmente, para honrar os heróis, 
eles foram ornados de cravos
Claro! 
O cérebro não quer compreender, nem pode
A nuca dos canhões, não fosse para um beijo 
por que seria enlaçada pelos braços das trincheiras? 
Ninguém foi morto 
Simplesmente, não podendo mais estar de pé, 
deitaram-se do Sena ao Reno 
pois floresce e inebria a gangrena nos canteiros dos mortos 
Quem disse mortos? 
Não! Não!
Todos se erguerão
Assim, simplesmente, voltarão 
e dirão sorrindo às suas mulheres: “Que brincalhão, 
que fenômeno era seu anfitrião”
Eles dirão: “Não houve nem granadas nem explosivos”
É claro que não havia um forte
Alguém inventou para a festa 
um mundo de admiráveis fábulas

O desejo de não morrer faz com que o significado do poema transcenda, sabendo que logo morreria, a jovem ironiza com a ideia da morte ser uma admirável fábula e que ainda permaneceria viva como num sonho, "todos se erguerão, assim, simplesmente, voltarão e dirão sorrindo às suas mulheres: que brincalhão [...]", ela também voltaria, os diversos tiros que leva não a matam por completo, caída no chão move o braço, o que faz o capitão atirar mais uma vez e outra e outra e outra. Homens e bandeiras caem de todos os lados: morre a jovem comunista, morre metaforicamente o carabineiro em sua violência. Morremos todos nós diante do horror de qualquer guerra. E as conquistas, ou a vitória, são todas ilusórias. Postais e mais postais se acumulam, à guisa de títulos de propriedade. Ulisses e Miguel Ângelo levam para casa os monumentos, os meios de transporte, as mulheres, dentre outras coisas. Fotografias e postais de tudo o que viram e que inocentemente não sabiam que já eram de cada um deles: tudo estava ali, eles não se reconhecem herdeiros dos bens da humanidade. Cleópatra até diz que dará o Pharteton para um familiar qualquer, visto que está velho e precisava de uma reforma.

Por fim, depois de uma longa cena enumerando cada um dos bens que logo entrarão em posse real, assim que a guerra acabar, há a divisão de tudo entre os quatro personagens, eles se encantam com cada uma de suas conquistas, escolhem, brigam, soam inocentes, mas não, o sorriso de mofa no rosto de cada um deles só nos mostra a genialidade de Jean-Luc Godard, eles são irônicos: não há vitória, só quedas. E sentimo-nos quedar diante da nossa inocência perante o mundo. E a lição permanece: por que não sermos igualmente inocentes irônicos também?