A máquina de sonhos

La morte di amore - Roberto Ferri
“As coisas não podem ser assim...”, a manhã tinha aparecido em minha janela, como todos os dias, despertando-me sem necessitar de avisos cantantes, era somente o sol bater e o dia já estava anunciado, a janela em si olhava para mim e dizia sem muitas palavras que era hora de sonhar. Não, eu não sonho dormindo, sonho acordado da hora do despertar até a hora em que vou me deitar, quando o sol deixa de se projetar através da janela do quarto, as cores dos móveis tornam-se menos, não há lâmpada alguma que devolvesse o brilho. Era a vida sob o sol a encher a casa de cores cintilantes, dormir não era sonhar, era ter pesadelos com os acontecimentos cotidianos, era se tornar real pelos pequenos medos diários. Ele foi muito sincero em suas palavras, não era a primeira discussão sobre o futuro, ou o desejo ou mesmo os sonhos acordados. Infelizmente, sou uma máquina de sonhos, de projeção, de desejos, de seguir em frente porque há um segundo seguinte e mesmo o amanhã, só há o que ainda não aconteceu. 

O presente todo se desfez em desonho, as paredes suaves e claras do desejo se evanesceram e todo o brilho se foi mesmo com sol. O fim da era do sonho tinha sido determinado, o momento de sua fala, engasgada há muito tempo na garganta, era sua determinação, os raios solares não eram menos intensos na janela, só não produziam sentido, não deixavam de anunciar o dia, somente tinham deixado de abrir a possibilidade para o sonhar. Aquela colcha de retalhos sobre a cama não tinha aquela cor de quando acordei, era agora acinzentada, vazia, cada um daqueles quadrados tinha um sonho, era somente tocá-los e eles vinham despertar um pensamento, todo o futuro estava engavetado neles, uma vontade de ir para algum lugar desconhecido, tirar uma foto do pôr do sol, tomar um vinho caro ou mesmo tomar um chá na sacada ao som de conversas desimportantes. 

Ele não entendia, quando me negou o sonho, negou-me por inteiro, sou somente feito deles e são eles a moverem os músculos dos meus braços, a realizarem as conexões entre os meus neurônios. Era só me dispensar na lixeira, não tinha mais nada aqui, somente um ser vazio. É certo, não se sonha sobre o vazio, não se sonha sem possibilidades, não se sonha diante de uma negativa, é egoísmo de minha parte, eu sei, mas bastava não me negar a possibilidade, nem que seja para não ser realizado, sonhos não se realizam, se sonham e somente. Não pedi para ter sonhos realizados, pedi somente para sonhar. Não custa nada... 

“Você está me ouvindo?” É claro, e puxou-me pelo braço, chacoalhou um pouco, juro, não estava perdido em meus pensamento, só não tive vontade de me mover, aquela colcha era daquela cor mesmo? Entendi tudo o que me disse e concordo, quem sabe pode ser possível para daqui alguns anos, não tem problema algum. Todos os problemas estavam resolvidos, não havia mais nada com o que se preocupar, tudo eram palavras envenenando minhas veias, nada de mais, minha pele também perdeu seu brilho sob a janela, enrijecia e craquelava como um açude seco. Sua água era um tanto doce, alimentada por nutrientes provenientes da terra e fermentados ao sol. “Podemos ir agora?” Claro, vou me vestir...