Um pensamento na multidão


Caminhava a passos curtos, à maneira de todo e qualquer idoso, já tinha o compasso da vida vivida, da vida que já não tem pressa, da vida que não passa de repetição de uma outra mesma experiência... Suas pernas deveriam doer.
Era cedo. Todos se encaminhavam ao trabalho e dirigiram-se para seus respectivos ônibus, todos tinham um caminho, uma direção, uma vontade. Muitos queriam um carro, outros queriam a oportunidade de sua vida, outros queriam somente um amor, muitos nem sabiam o que realmente desejava, viviam de uma felicidade falsa, uma pedra reluzente sem valor algum, uma pedra que todos possuíam, porque barata, mas que nada representava.
Seus ouvidos percebiam o entra e sai frenético dos coletivos no terminal de transporte público. Não movia sua cabeça para acompanhar os ônibus, percebia seu movimento pelo barulho intermitente que produziam, não os olhava para não ver as pessoas olhando-na, não merecia ser olhada. Levas de ônibus despejando bandos de gentes. Todos sonolentos, ferozes e atrasados, a primeira e pequena luta corporal do dia. Porém, seu caminhar não se perturbava, é claro que nem chegava a um terço dos outros, não precisava daquela ansiedade vívida, dirigiu-se firme e calmamente até o ponto de embarque de nossa condução, estremecendo-se somente com a velocidade com que os carros articulados passaram ao seu lado e demoviam todos os que lá esperavam. Suas pernas deveriam doer. Finalmente, ela parou em minha frente e nosso "vermelhão" chegou. Ao abrir das portas do ônibus muitas pessoas foram se desacomodando e descendo, esticando-se e respirando o ar enfumaçado do terminal. Como cabem tantos em um único lugar? A necessidade explica, por vezes nem ela... Nós seriamos os próximos a experimentar essa ingerência espacial, esperávamos para subir.
Ela deveria ter pensado: "Graças a Deus, o ônibus para casa!" Mas a turba cruel a empurrara de um lado para o outro na subida. E a cada sacudida certamente se lembrava de uma infância nada fácil.
Sua mãe certamente nunca teve dinheiro para uma boneca. Uma boneca é muito importante para qualquer menina. Mais importante que seus cadernos, mais importante que sua família. É na boneca que uma menina projeta toda a sua vida, sua infância, sua juventude, seu casamento, sua velhice. Desde criança ela trabalhou e trabalhou e somente comprou feijão. Certamente a única exigência de sua mãe para aquela criança mirrada. Escondia os trocos dos poucos cruzeiros que sobravam do feijão para comprar a mais linda boneca de pano da venda. Depois de muitos meses ali estava todo o dinheiro da boneca onde poderia viver uma outra vida que não a sua... porém sua mãe descobriu e estraçalhou a boneca e todos seus sonhos. Certamente tinha medo de bonecas.
Ir para a escola foi único, ganhou cadernos, lápis e borracha da vizinha. Mas por que existe a morte? Sua mãe se foi e ela era a dona da casa, era a mãe dos incontáveis irmãos. Mais tarde seu pai também se foi dizendo que estudo não enche barriga, pois ele estudou quatro anos em oito e aquilo não foi garantia de fartura na mesa.Seus irmãos não teriam destino diferente. Desistindo da escola pelos irmãos pensou que poderia oferecer aquilo que não poderia continuar... mas não estavam interessado, a voz do pai morto ressoava pela casa e todos mineraram futuros incertos.
Já moça, deve ter conhecido Felizberto. Limpou, cozinhou, apanhou, teve quatro filhos, sorriu e chorou quarenta e cinco anos de sua vida, um pouco mais, um pouco menos... e não havia encontrado dignidade, era uma palavra que não fazia sentido em seu parco dicionário. Como as pernas doíam! Camelou muitos anos até acontecer este dia. Entrou no ônibus. Tentou pedir licença, mas sua voz quase minguou. Finalmente, estávamos todos nós dentro do ônibus, sentados, de pé, dependurados. O espaço? Continuava relativo. Ela? Apertada, segurando um saco de papel todo amassado. Seu conteúdo não me importava, poderiam ser remédios, sonhos ou mesmo feijão.
Será que somente eu a tinha visto? Porque quando rolou sua primeira lágrima ninguém se moveu. Vi de longe, queria segurar com um lenço e não pude, estava do outro lado do coletivo... Essa era a minha desculpa e a desculpa de metade deste mundo, não pude ir lá ajudar...
As lágrimas rolavam por seu rosto de terra enrrugada. Um sertão de árida esperança. Sugou o ar pelo nariz uma única vez, secou timidamente sua última lágrima, estava pronta para viver mais quarenta anos naquela condição.
Um celular tocou. Uma gargalhava a altos brados. Alguém pedia esmola. Outro falava sozinho. Um brigava por um assento sobrando. O motorista deu partida. Eu dizia "ufa!" e ela segurava firme, suas pernas deveriam doer. O rapaz a sua frente sentado, escutando seu music player, deveria ter dormido oito horas. Mas sua narrativa não me interessa. Ela estava ali, recuperara seu semblante sereno, mas a cabeça certamente numa tempestade ruidosa que não transformava em vida a aridez.