Buraco


Quando a luz própria do dia míngua
os sonhos veem de dentro do buraco

Neste ocaso é que percebo as palavras
circulares, solenes, obscuras

Quando auscultadas pelos olhos aos ouvidos
só há a solidão dos sons imperceptíveis

tudo fica sem sentido

mas quando cuspo a minha própria vergonha iluminada
dentro deste buraco que vejo refletida minha imagem

é para lá que devo pastorear meus sonhos
insondáveis luzes de uma esperança imprópria

um dia vou acordar dentro do buraco
e o sonho de sumir de todos os olhos já será passado

tudo ficou sem sentido

as vestes que usei, as lágrimas que derramei
os gemidos que produzi, as bocas que calei

deixarão de ter sonhos também
minha desgraça desfaz uma ilusão

a de que os sonhos veem do buraco
sendo que é lá que precisam ser depositados