Uma memória

Alfredo sentia-se um pouco ansioso pela noite, havia algumas semanas que não saia de casa com os amigos. Sua mãe podara suas saídas noturnas, vexames alcoólicos. Certamente alguém perguntaria porque ele havia sumido... A memória das pessoas é fraca, se não é visto não é lembrado, se não é lembrado torna-se uma espécie que corre o risco de desaparecimento, era o que pensava enquanto entrava no carro de Gilberto. Seu amigo fazia questão de ser lembrado a todos os momentos, cumprimentava e mantinha-se a vista de todos, sua alma dependia do cerco dos amigos, conhecidos e desconhecidos, tanto que seu carro estava lotados deles e dos pseudos. Sereno centro das atenções não precisa de muito para chamar a atenção, rodeado de intenções qualquer que fosse sentia-se visível.
Sua chegada sempre apoteótica fazia dos que o rodeavam o seleto grupo da noite o qual muitos desejavam participar e integrar. Sua entrada era anunciada antes de se aproximar da porta, por vozes, murmúrios e assovios, olhares, desejos e apreciação. Não precisavam enfrentar qualquer tipo de fila... entravam pela porta aberta pela comunicação bem elaborada, pelos contatos e favores intencionais trocados ou a serem trocados. Alfredo não gostava muito desse despudorado glamour que envolvia a pessoa de Gilberto, mas não tinha outra opção, fora para ele que Gilberto havia ligado em primeiro lugar. Alfredo era o único que entendia e sabia da grande carência afetiva que este centralizador de atenções vivia. Decepções acumuladas pelas diversas pessoas que o rodeavam, somente Alfredo, que não exigia nada e nada fazia decepcionar, era mais que um amigo, era um ombro onde sua cabeça poderia recostar naquelas horas que nem toda a multidão do mundo pode serenar.
Entretanto, Alfredo percebeu uma presença esvanecida, quase em extinção. Ele estava alí, segurando uma lata de cerveja em uma das mãos e na outra estava um cigarro pela metade. Era um homem de tamanho médio, magro, pele branca e pêlos e cabelos muito negros. Chamava a atenção por ser atraente, mas não estava rodeado de amigos ou apreciadores, estava sozinho... Como alguém pode estar sozinho em uma festa? A festa não existe para reunir, celebrar e preencher o vazio que está nas pessoas? Ele provavelmente deveria estar alcoolizado. Sozinho e bebendo, já deveria estar alto e pronto para dar algum vexame, lembrava de si mesmo semanas atrás.
Observador e curioso, Alfredo que não o conhecia, apontou-o perguntando ao amigo quem era. Gilberto começou a descrevê-lo: "Antônio era uma pessoa única, inteligente e sagaz... Os comentários que ele fazia eram mordazes, mas mesmo assim simpáticos. Era uma pessoa incrível!" Alfredo continuou perguntando e obtendo mais e mais informações (im)precisas sobre aquele por quem havia se interessado numa multidão bela e alcoolizada. Todas as perguntas era respondidas como se Antônio não estivesse ali. Perguntou a Gilberto se não iria cumprimentá-lo que prontamente respondeu não, provavelmente porque não gostava muito da inteligência perturbadora de Antônio. Deve ter se ofendido com o simpatia mordaz, amenizou Alfredo. Ele, entretanto, não desistiu, continuava a observá-lo de longe, quem sabe seus olhos não se cruzassem. Viu que alguns se aproximavam, perguntavam algo, apertavam suas mãos, trocavam mais duas palavras e logo iam embora. A cada uma dessas aproximações seu coração se apertava. Era medo de perdê-lo, mesmo sem conhecê-lo. Jaqueline tapou os olhos de Alfredo pelas costas para que advinhasse quem era. Depois de algumas gargalhadas, logo descobriu a amiga. Ele prontamente perguntou se ela conhecia Antônio: "Um menino dos cabelos negros?" Óbvio, só faltava Alfredo apontá-lo, "Acho que vi ele numa dessas redes sociais estes dias, não lembro qual!" Como poderia lembrar? Eram tantas e com tantos objetivos e outras até mesmo sem objetivos na busca de associar os homens sem os associá-los. Com uma leve irritação ele apontou o rapaz de cabelos negros com o dedo-não-é-aquele-ali, e ela se chocou, "Como Antônio era gente boa... Sempre estava rodeado de amigos e todos estavam sempre rindo de alguma tirada espirituosa. Ele não mudou nadinha!" O passado utilizado para com Antônio começou a perturbá-lo. Ele não estava ali? Era como se as pessoas só lembrassem dele, como se ele estivesse morto. Depois do completo desaparecimento, da extinção de sua espécie somente restaria o fantasma da espécie, sua memória. Seria Antônio um fantasma que somente Alfredo poderia apreciar? Seria sua carência que criara um espectro para poder ilustrar a noite? Convidou a amiga para cumprimentá-lo e ela, tímida, aceitou: "Você não é Antônio?" Ele respondeu sim meneando a cabeça, ela estendeu a mão e ele também, chacoalharam-nas como desconhecidos. Ela só esquecera do fato de apresentar Alfredo e se virou dirigindo-se para o bar dizendo: "Como ele era interessante!"
Por segundos, duvidou da inteligência da amiga, mas não havia desistido, permaneceu ali, acendeu um cigarro e novamente observou Antônio, ele ainda segurava sua latinha de cerveja e o cigarro dele pela metade na outra mão, desta vez observou os óculos de grau modernos que ele usava e imaginou o que se passava em sua cabeça, ele olhava vagamente para as pessoas que também estavam ali fumando. Alfredo acreditou que não estava relembrando as pessoas, mas que estava extasiado em pensamentos próprios, uma lembrança pessoal quem sabe.
Mais uma pessoa se aproximou dizendo seu nome em forma de pergunta. Ele prontamente respondeu dizendo o nome do  interlocutor que se assustou com sua memória, por segundos de silêncio ousou fazer uma pergunta e não ir embora como os outros: "Por onde andou?" Explicou que estava viajando, e fora interrompido quando provavelmente iria falar por onde esteve, o lugar não interessava, queria saber exatamente quanto tempo ficou fora: dois anos, a resposta foi rápida. Para onde poderia ter ido? Para o exterior? Para São Paulo? Ou Rio? Fazer o quê? Um curso? Passear? Conhecer a Europa? Ou mesmo a África.. Será que viu as Pirâmides? Já poderia ser um assunto em comum entre os dois. Levou no rosto a brisa marítima da história? O interlocutor não havia perguntado mais nada, despedirasse alegando que os amigos o estavam esperando no bar. Despediram-se.
Ali Antônio permaneceu, bebeu mais um gole, deu um longo trago no seu cigarro pela metade. Alfredo hesitou por um momento e suspirou voltando para o lado de Gilberto e contou o que havia descoberto sobre o rapaz. Ele não se interessou muito, certamente achou que estava perdendo sua atenção costumeira para o fantasma encostado num canto da área de fumantes, e pediu que lhe buscasse mais uma dose de vodka, já estava ficando são demais para o ambiente. Pela simples motivação de atravessar o local resolveu atender ao pedido e olhou profundamente nos olhos de Antônio, castanhos claros, pareciam que poderiam matar somente com o olhar, mas estes olhos não fitaram Alfredo nem por um instante, ainda estavam vagos e envoltos na fumaça da própria metade de cigarro. Comprada a bebida de Gilberto retornou e olhou para o canto em que deveria estar Antônio e não o encontrou. "Você viu o Antônio?", Gilberto balançou a cabeça como se seu amigo estivesse falando de um estranho. Alfredo entregou-lhe a vodka olhando-o com desprezo e resolveu dar uma volta pela festa para ver se encontrava aqueles os olhos castanhos, estava decidido a falar com ele.
Todos falavam tão bem dele e de sua sagacidade, e isso justamente o encantava, definitivamente queria conhecê-lo e o faria por si mesmo. Rodou e procurou por todos os cantos. Não, ele não estava mais lá. Como todos poderiam gostar tanto dele? Não, não gostavam dele, gostavam da memória dele, só se referiam no passado. E por que todos insistiam em falar "era" ou  "foi"? Ele estava ali! Deveriam tratá-lo utilizando o presente: é. Mas não usavam ou porque ele mudara ou porque realmente não estava presente, o passado pertence aos mortos, pensava Alfredo. "Ele deveria ser realmente uma pessoa interessante de se conversar", chacoalhou a cabeça afastando estes pensamentos. Era óbvio que estava ali, o vira e quase chegou a cumprimentá-lo se não fosse a falta de tato de Jaqueline. Parou e erregalou os olhos ao perceber que já estava se referindo a ele no passado, abaixou a cabeça, cometia uma injustiça dupla, não o conhecera e nem tivera mesmo a oportunidade de torná-lo uma memória.