Castelos nas dunas

a Tânia

Sobre as dunas, ergo castelos de areia.
Se vão, não me importa,
construo-os interminavelmente.
São eles minhas reais ilusões.

Sonhava vago. Subia picos, atravessava cerrados e entrava por florestas tropicais. E ali permanecia. Viver só com seus pensamentos e seu desejo de integrar-se a terra por onde passava. Queria ali permanecer, mas não conseguia, um hora hora ou outra o dia amanhece e alguém há de buscá-lo: "Jorge, está na hora de acordar". Muitas vezes eram conhecidos com quem tinha conversado naquele mesmo dia ou mesmo fantasmas do passado. Acordava com um gosto amargo na boca, meio decepção meio bactéria que só se reproduzem em sonhos distantes. Não era o relógio que o despertava, não precisava deles, suas ocupações só começavam depois do almoço se estivesse com vontade de se ocupar-se delas. Estudou e praticou tanto para isso, para não se preocupar com chefes ou horários. Era dono de si e não permitia influências alheias em sua pacata vida.
Levantou-se e dirigiu-se para a cozinha de seu apartamento, precisava de um café para começar o dia. A água esquentou com um cigarro acesso em sua boca, enquanto colocava o pó no filtro, apagou a bituca para despejar a água sobre o pó. Os elementos se misturavam para formar aquele líquido que o permitiam acordar por completo, que retiravam de seus pés o barro que carregava de seus sonhos. Abriu a agenda e consultou seus afazeres, adiou dois deles para a próxima semana para poder ter tempo para ir a livraria, precisava de dois livros que ouvira falar na noite anterior para terminar o texto em que estava trabalhando.
O banho matutino era um ritual completo de higiene pessoal e contemplação física. Cuidava tanto de sua pele e de seu rosto que pareciam jovens apesar da idade que já tinha. Escolheu a roupa para o dia e partiu para o centro da cidade para tomar o café-da-manhã. Parou um instante diante da sua porta de entrada, viu que por baixo da porta branca lisa havia um envelope. Virou e revirou o envelope e não havia um remetente. Abriu-o e retirou um papel com o seguinte inscrito: Unruhe. Riu-se, deveria ser a menina do bloco ao lado com quem conversara em alemão dias atrás e saiu.
Sentou-se do lado de fora do café costumeiro, o garçom já sabia o que trazer, apenas confirmava com um olhar para saber se haveria alguma mudança no pedido, mas nunca houve, nem haveria. Enquanto colocava a xícara de café na boca, viu um menino de rua correndo, roupas rasgadas e curtas para o tempo ameno que fazia, logo foi seguido por um jovem bem vestido e esbaforido que o perseguia. As pessoas que se sentavam no mesmo ambiente curiosas com o fato acompanharam o ocorrido com um pequeno gosto pelo o que os tiram de sua rotina lobotomizadora. Jorge não se moveu, estava mais interessado no pão de queijo a sua frente.
Comprava o jornal na banca ao lado do café e ali mesmo lia a primeira página com desinteresse. Mais uma notícia sobre os estragos provocados pela chuva dos últimos dias. Não entendia porque as pessoas poderiam construir casas em locais que certamente eram inapropriados. Colocou o jornal dentro da sua mochila e subiu a rua. Quatro quadras acima entrou no primeiro prédio comercial e escolheu o terceiro andar no elevador. Duas outras pessoas entraram logo depois de escolhido seu andar. Elas falavam da enchente que derrubou uma ponte que deixou ilhada algumas centenas de pessoas no interior do estado. Olhou para dentro de si: viu-se andando por um cerrado, sorriu. Disfarçou imediatamente ao perceber que os dois o olhavam com estranheza. Pedindo licença, saiu do elevador e seguiu para a recepção. Trocou algumas palavras com a secretária e entrou na sala principal do escritório.
Olavo recebeu-o com um abraço demorado. As palavras sobre a saudade não comoviam Jorge que logo se livrou do abraço e sentou-se no sofá a frente da mesa e abriu o jornal enquanto esperavam a secretária trazer o café. "Não entendo porque ainda compra jornal", Jorge fechou o jornal e olhou para Olavo. "Você não se importa com quantas pessoas morreram nas chuvas do último dia!" Pegou a xícara de café da bandeja que lhe foi oferecida. "Sempre viveu nesse seu mundinho separado de toda a realidade". Mexeu o café com a colherzinha e a deitou no pires. "Ontem, recebi uma proposta de traduzir as notícias de um jornal brasileiro para o inglês, acredito que deva aceitá-la". Jorge negou, alegando que os livros literários ocupavam demasiadamente seu tempo. "O pagamento é melhor, recebe por notícia traduzida..." Negou novamente, dizendo que assim ficaria pobre, visto que somente traduziria as notícias da tarde, se desse vontade, é claro. "Deveria se importar com um pagamento melhor! O que recebe nem dá para trocar de carro ou comprar um apartamento maior!" Sentiu-se ofendido, olhou para seu apartamento de dois quartos, um deles transformado em biblioteca repleta de dicionários e gramáticas e pensou em quanto estava satisfeito, lembrou de seu carro estacionado há dez quadras do prédio em que se encontrava e pensou em quanto não precisava dele, visto que só o utilizava para ir ao escritório duas vezes por semana. Visita desnecessária, visto que a fazia mais pela amizade que nutria pelo seu amigo e "chefe". "Como não precisa de um carro novo? O seu já deve ter problemas!" Os dois irritados um com o outro, fecharam-se cada um em seu café. Jorge quebrou o silêncio oferecendo um cigarro, que ambos fumaram na sacada do escritório. "Me preocupo com você, sabe disso! Esse seu jeito de viver me incomoda! Penso que um dia ficarei duas semanas sem te ver, e quando eu for até seu apartamento vou encontrá-lo pendurado numa corda. Não entendo como não se sensibiliza com os livros que traduz!" Batia as cinzas. "Choro com cada um dos livros que tenho em minhas mãos... E foi você que ajudou a provocar esse sentimento em mim!" Gargalhou e olhou para o amigo: "Meu trabalho é ler e verter, não é sentir! Se eu fosse chorar a cada parágrafo profundo eu demoraria o dobro do tempo para fazer o meu trabalho, assim quem não poderia comprar um carro novo seria você!" Olavo virou-se de costas e entrou para dentro do escritório. Minutos depois Jorge entrou, enquanto Olavo pegava seu paletó e sentenciava que almoçariam juntos.
O sermão continuou, e Jorge bocejava diante das palavras do amigo. Percebendo que dali não conseguiria nenhuma mudança de atitude, voltou aos assuntos profissionais, enquanto degustava a sobremesa: "Dois livros alemães de poesia chegaram hoje pela manhã, e o editor novamente pediu para que traduzisse. Vai negar?" O rosto de Jorge empalideceu, nunca traduzira nada do alemão, apesar da insistência do editor. "Eu te conheci no curso de alemão, quantos anos nós tinhamos? Dezessete? Sim! Você falava alemão melhor que a professora, nunca entendi sua dedicação extrema a essa língua! Esqueceu a língua de Nietzsche?" Jorge, irritado, bateu com força o garfo sobre o prato e olhou para o amigo, as pessoas ao redor olharam disfarçadamente: "Já disse mil vezes que não traduzo do alemão. Esta é a sua parte do serviço, foi assim que combinamos e assim que vai ser!" Olavo resolveu se calar e terminaram em silêncio a sobremesa que logo foi seguida do café e um cigarro na calçada do restaurante. "Pense na questão de tradução das notícias. Posso organizar um grupo de tradutores e te passar algumas notícias quando estiver afim de ganhar um dinheiro extra. Sei que fará isso de olhos fechados!" Os dois se abraçaram, desta vez Jorge apertou o amigo com sinceridade. Desceu a rua e em frente ao café uma multidão se aglomerava em volta de dois carros da polícia. Teve que dar a volta na multidão e viu o perseguidor do menino de rua encostado no carro sendo algemado e recebendo voz de prisão, o menino estava no chão coberto por uma manta branca que não cobria a poça de sangue de sua cabeça. Desceu mais algumas ruas e finalmente encontrou seu carro.
Chegando no apartamento parou o carro próximo da portaria, abriu a porta do carro e sentiu-se tonto ao colocar o pé esquerdo para fora. Se concentrou por alguns segundos e a vertigem passou. Foi até a portaria e pegou sua correspondência, ignorando o comentário do porteiro de que estava pálido. Voltou ao carro e estacionou em sua vaga logo a frente de seu bloco. Abriu a porta com cuidado, mas não se sentiu tonto novamente, pegou suas coisas no banco de trás e subiu os dois lances de escada que davam em sua porta. Novamente teve uma tontura, olhou para a porta envernizada e talhada com um cavalo, bateu com as mãos nos bolsos para procurar a chave não encontrou nenhuma, olhou para si mesmo e se viu rapaz, sabia que a porta estava destrancada, sua mãe jamais passaria a chave no trinco enquanto um filho estivesse fora de casa.  Abriu a porta e olhou para a ampla sala de estar branca e viu sua mãe deitada no chão, dos seus pulsos corriam sangue e a seu lado estavam um livro e uma carta. Chacoalhou a mãe, mas ela não respondia. Não sentiu o mesmo desespero de quando jovem, era a primeira vez que teve que entender o que significava a morte, sentou-se ao lado do corpo e pegou o livro e leu o título: Jenseits von Gut und Böse: Vorspiel einer Philosophie der Zukunft, depois recolheu a carta e a abriu, não entendia alemão. A vertigem logo passou quando percebeu-se sentado no sofá de seu apartamento. A mochila estava jogada num canto e as correspondências espalhadas ao seu lado. Lembrou-se que somente aprendera alemão para poder ler a carta que sua mãe havia deixado, ninguém sabia da sua existência, escondeu o livro e a carta  enquanto seus familiares levaram sua mãe para o hospital. Dedicou vários anos no aprendizado daquela língua e somente teve coragem de ler o livro e reabrir a carta depois de receber o diploma do curso de línguas. Leu o livro em uma noite e pela manhã tinha em suas mãos a carta traduzida. Sua primeira e última tradução do alemão. Foi naquele momento que havia decido construir seu primeiro castelo de areia sobre as dunas. Intermitentemente construído, seus castelos não se desfazem como uma ilusão, somente se movem ao sabor do vento. Nenhum sentimentalismo poderia atingi-lo, era dono de si e não permitiria que nenhum ser humano atrapalhasse sua vida pacata.