Luz pálida


para um dia sem luz e sem velas

Vivia de esperanças amanhecidas. Pretendia passar um café sentar-se na sala para ouvir um pouco de música... relaxar. É tudo o que se deseja após um dia de trabalho. Estranho, Samuel chegou e fechou-se no quarto sem ao menos dizer o costumeiro olá. Realmente não costumava chegar e relaxar, sempre atarefado com algo passava algumas horas no escritório antes de descer. Meses e meses de um olá sagrado, agora deixara de existir. Muitos outros ritos sagrados também deixaram de existir. O chão da cozinha parecia ruir mais uma vez.
A trovoada, muitas vezes, é sinal de chuva forte, como pode ser sinal de muitos outros acontecimentos. A água foi posta na cafeteira quando os pingos da chuva começaram a bater na janela, em poucos instantes a casa deveria estar infestada pelo cheiro do café novo que certamente atrairia Samuel para o convívio, não trabalharia mais algumas horas sem um café quente. O chão tornar-se-ia menos áspero. Uma, duas, três pequenas colheradas de pó de café e a energia elétrica se foi. Onde estariam as velas? Como terminaria o café feito na cafeteira elétrica? Logo logo a energia deveria retornar... mas não retornou. As velas deveriam ficar sempre num único e mesmo lugar, mas nunca estão. A não necessidade delas fazem com que fiquem no lugar mais improvável e remoto da cozinha, perdida e pouco desejadas, tornam-se rainhas na escuridão. Lá estava meia vela num pequeno prato embaixo da pia, resto da imemoriável última falta de energia elétrica. Fósforos? Nem deveriam existir pela casa, foram substituidos pelos cliques do fogão. O isqueiro do bolso era uma melhor e única opção.
Os ruídos de Samuel não cessaram sem a luz, parecia arrastar objetos por todo o quarto. Haveria velas lá? Certamente era uma de suas preocupações, o bem estar daquele que escolhera viver para sempre estava entre seus afazeres. Com a vela acessa encaminhou-se até os dijuntores, estavam todos ligados. Gritou por Samuel em vão, não sabia onde haveria outras velas. Com a chuva, não poderia ir até o quintal e verificar se o relógio estava ligado ou não, as trovoadas indicavam que era só o começo da tempestade. Não havia energia nem nos postes da rua, era o que suas janelas diziam. A única luz era a vela que já se consumia aos poucos, uma luz pálida que em pouco tempo deixaria de existir.
Samuel cessara os barulhos no quarto, finalmente, ele viria verificar os relógios e tudo ficaria bem. Sempre foi assim. Ele cuidava de Samuel e Samuel o mantinha protegido daquilo que ele mais temia. Sentou-se na cozinha à espera. E esperou até seus olhos pesarem sobre si mesmo. Só havia um pesadelo pendente na raiz dos pensamentos: o medo da solidão.
A porta de entrada da casa rangia e em seus pesadelos também. Havia muito tempo que a lide com Samuel não estava bem. Namoraram muito tempo antes de decidirem morar juntos, fizeram tudo certinho para não haver arrependimentos. Juntaram dinheiro, compraram a casa, reformaram, tudo deveria ser exatamente como no sonho de cada um, ou no sonho daquele que desejava com mais ardor. Mas a porta rangia sempre e ficava devidamente irritado todas as vezes que a abria, Samuel nem se importava. Era um problema com a instalação da porta, era um problema insolúvel.
Rangendo ou não, a porta somente ecoou em seus pesadelos, pois foi o barulho do carro saindo pela garagem que lhe arrancou do sono. A vela a sua frente estava quase se esgotando. Tremulava esgotada. A porta da frente batia e o vento forte entrou e apagou-a lentamente. Samuel? Teria saído para resolver a questão da falta de energia? Não. Não era o que parecia, no chão estava jogado o molho de chaves, chave da porta de entrada, chave da porta dos fundos, chave do portão, chaves chaves, chaves. Entradas e saídas. Samuel deixou cair as chaves na pressa... Certamente mentia para si mesmo. Pegou novamente o resto de vela que lhe sobrava, acendeu-a e seguiu para o quarto. A revolta incomum dos objetos por lá só demonstrava um único e certeiro ato. Não havia malas no guarda-roupas, nem mesmo as roupas dele, somente o vazio. Não haveria olá ou qualquer outro rito que manteria aquela casa de pé, as paredes derretiam, a vela também e a cerâmica da cozinha estourou.
A vela logo acabaria, a energia elétrica não retornaria, nem Samuel... Sentou-se na sala de estar ao pé da mesa de centro. Olhou para a vela que ainda resistia. Seus olhos refletiam uma chama efêmera. A luz em sua vida logo deixaria de existir, não haveria mais sorrisos, não haveria mais olás, ou mesmo o cheiro do café pela casa. As velas deveriam ficar num único e mesmo lugar... É o fim. Tudo era escuridão e o saco de velas estava na gaveta de talheres. Pensou em deixar ali para que dá próxima e remota vez que acabasse a luz fosse mais fácil de achar.