Obra póstuma

Hoje eu acordei morto. E de agora em diante, tudo o que escrevo é póstumo. Uma retrovisão do futuro presente. De tantos acidentes enigmáticos que reaconteceram em minha mísera existência que acabou neste instante não posso me tornar machadiano e dar em negativas a avaliação de minha vida. Devo ter feito diferença a uma borboleta negra em qualquer estação. De todos os amores que tive, de todas as sombras que me envolveram, de tudo o que deixei por fazer, nada me compromete mais do que a necessidade da (in)existência de mim mesmo. Re(volto) para mim, neste último instante eterno que se prolongará. Infelizmente terão que aturá-lo, indefinitivamente. Morte em conceito total. Que os alemães não estejam aqui para me escutar e ver seus castelos de areia desmoronando com a onda que próprio me tornei. Contar minha morte é revelar todos os meus segredos, é impor a ti tudo o que estava escondido entredito interdito em tudo o que escrevi, durante todos esses anos. Portanto, minha morte há de permanecer vazia. Sem velório, sem choro. Estou aqui ainda, espectro, presente e ausente na mesma (des)proporção. Viajei entre as nuvens, vendo seus olhos, fui carregado por anjos, cantores cantaram ao pé do meu ouvido, me entreguei severamente e cegamente em amores desnecessários, desvirtuados. Chorei pouco, confesso, mas chorei sinceramente. Colhi rosas brancas, me tornei o próprio demônio de mim mesmo a derreter no inferno de mim mesmo. Fui analisado pesadamente até a última célula e nada descobriram, ainda falta a parte do meu segredo que permaneceu e permanece ainda aqui. Poucos tolos a conhecem e não reconhecerão seu significado. Desvirtuose ascensão intencional. De tanta vontade de reconhecer as misérias humanas, acabo me reconhecendo como A Pequena Miséria Humana. Segundos antes do fato mortífero que atacou, vi o filme de minha vida. Meus pais, minha avó, meus amores e meus desamores. Vi a ti. Heroísmos, falsidades, borrões. Meu filme não me comoveu, como tudo o que escrevi não fez diferença para ninguém, exceto para aquela borboleta de estação desconhecida. Entrego a ti, somente meu testamento, sem nenhuma alteração, é só vir e buscar as partes que te interessam. Estou. Estado insano virtual. Nada mais me interessa, muito menos o humano. Me desumanizo em função de minha própria espectralidade.