Morte

Para Junior

Em tempos esquecidos, Manonos, dedicado servo de Lug, o habilidoso, sentou-se em uma árvore de um bosque qualquer. Lá os pensamentos se postaram pesadamente em sua cabeça, sentiu o peso da responsabilidade de tudo o que aprendera em tão longo tempo de esforço em ser o diferencial em sua tribo. Passou pelo velho treinamento de todo e qualquer carvalho, cantou as canções, decorou as historietas, viu o passado, vaticinou o futuro, e finalmente foi iniciado na arte da morte. Cortou cabeças em válidos rituais insanos, banhados de um sangue sagrado, cortou sua própria garganta, e a viu secar em poucos minutos ao ser sugado por seus asseclas. Sem sangue sobreviveu durante vários dias e noites secretas. Até retornar a sua tribo e ser ovacionado como um pequeno herói, igual a todos aqueles que sobrevivem ao velho ritual da ascensão da consciência total.

Consciente de seu futuro, foi chamado a guerra, aquela guerra tão bem descritas pelo Cezar e seus historiadores. Presenciou o futuro, e não viu nada. Lembrou-se da morte. Não temeu. Colheu sua última plantação. Juntou os grãos, beijou sua esposa, seus filhos, olhou uma última vez para seu amante. Emprestou muitos fardos para seu sogro, com a promessa de devolução nesta ou em outra vida. Não tinha nada a temer. Morreria somente para os homens, e voltaria a viver para os homens. Tinha consciência total de seu futuro.

Na guerra, lutou ferozmente, não temia um só inimigo. Com os olhos vidrados cortou gargantas como no ritual sagrado, sem divindades. Vislumbrou as penas vermelhas da morte, lutou porque tinha que lutar. Seus companheiros de guerra recuaram. Excetos aqueles que receberam os mesmo trato que ele nos bosques esquecidos. E eles lutaram contra uma centúria completa. General por general, Manonos teve seu coração perfurado pelas lanças da águia. Não trazia gibão consigo, não precisava. Lug lhe deu toda a habilidade necessária, se não tivesse toda a habilidade para aquela batalha seria ali que morreria. E morreu.

Os campos funerários em que hoje estou, não se encheram de nenhuma tristeza. Manonos recebeu o título de o Inconsequente. Certamente sorriu, a batalha não foi perdida. Sua morte foi celebrada, como se celebra a vida.

Aprendo com o túmulo de Manonos que eu sou ele. E ele é eu. Sempre acreditei na vida eterna, cheia de compromissos e verdades. Somente temia a dor da morte. Mas Manonos não a temia. Meu sogro, hoje um amigo, não me devolveu nenhum fardo de seu empréstimo, espero o quanto for necessário. Lug se tornou todos os meus estudos e todas as habilidades que tenho, ainda sou de muitas formas devoto a ele. Fiel a causa de ser tudo o que posso ser, sou diferencial em diferência. A dor também se apagou, ao presenciar o passado sob meus pés. Aberto o túmulo vi ali uma carta entregue em minhas mãos. Hieróglifos traduzidos pela morte. Uma última instância em vida.

Tudo que é trazido a mim pelos meus ouvidos não me perturbam mais. O que me perturba é minha consciência total e o pouco respeito por aqueles que não a possuem. Verdades a parte, pois não existem. Vivo a cada momento, presentificando passado e futuro num mesmo instante espacial. Assusto a qualquer mortal com a fome de destruição que aprendi a me felicitar. Choro em gozo voraz. Querem saber da minha morte? Posso lhe dizer que acontece todos os dias em que sento num bosque qualquer, debaixo ou em cima de qualquer árvore e sinto aquele peso sobre minha cabeça. Inconsequentemente vivo a morte.