Permita-me uma morte, por favor!

Ele ainda não voltou. Meu apartamento continua vazio e um som ecoa dentro dele ribombando serenações. Está quinze minutos atrasado! O atraso nunca me incomodou, só que tem me dado ideias recalcitrantes nesses últimos dias. Como ele se atreve a fazer isso comigo? Quando eu penso em me atrasar, em viver mais um pouco a liberdade condicional que me foi (auto)concedida, seja por mais cinco míseros minutos, ele fica louco, insandesse em ligações telefônicas até a desestruturação passiva de mim mesmo pela culpa de ser um pouco feliz fora do antro familiar que se constituiu pelo desejo insano da segurança e solidez. Ele quer ouvir a minha culpa pedindo desculpas, nesse jogo incessante de prefixos e sufixos. Começo a imaginar: será que sofreu um acidente de carro? Logo meu celular vai tocar, é minha esperança, e será um policial: "Estou ligando pra falar que ele morreu, precisamos que você venha reconhecer o corpo!" Eu pensarei que o farei urgentemente, mas fingirei como sempre fingi: o triste, o impossível sensível. E irei felizcontido, seria minha liberdade total, contenção de felicidade para explodir no futuro livre do dom(ínio). Mato morrendo para renascer no círculo mais feliz de mim mesmo, vidas dentro de vidas, vidas em dobras e desdobras, sendo um novo ser desdobrado me redobrando no futuro. Tudo seria novo! (Olha minha imaginação trabalhando) Eu seria diferente, poderia usar a roupa que sempre quis, os óculos que sempre sonhei, fazer com que minha mão se movimente daquela maneira única que sempre quis que ela se movimentasse e sempre recalcou, no ato inseguro de segurar uma mão na outra. Viajaria, conheceria os recantos mais ilusórios da própria terra, entraria em vulcões (ato até o momento poeticamente irrealizável), no fundo dos oceanos e voaria nos limbos serenos gelados e sentiria a verdade, próxima e impossível, ao mesmo tempo. Tudo isso por um derrapar inconteste das rodas. A liberdade seria me concedida pelo acaso, mesmo não acreditando nele, mas por um pequeno gesto de confiança, sentiria um pouco de culpa, mas só um pouco, só no começo, porque teria (me) matado pelo pensamento, mas como eu sou esquecido essa dor logo seria cicatriz e assim seria somente mais um borrão na minha memória. Sim eu seria feliz! E se não fosse, inventaria uma felicidade-novo-conceito, aquela que só é para mim a fim de me sentir naquela zona de conforto únicoabsurdo. Já faz trinta minutos de atraso, meu sonho já é quase realidade, só mais um pouco desejo: as cores das paredes mudam, agora são brancas, os móveis se desfazem, são todos de madeira com almofadas pretas peludas, e só resta um risco vermelho nas paredes e  no chão um único tapete felpudo e uma pequena escultura rustica ao canto, seria assim, até que a maçaneta moveu, o trinco da porta se agitou pela presença da chave, das chaves porque ele nunca soube de primeira qual era a chave do apartamento, penetrando seu segredo, e revelando/abrindo a porta/passagem. Era ele. Abro o sorriso indecidível e digo: "você demorou!" e penso: quase fui feliz! Preciso me matar mais um pouco.