Dor

O som é algo difícil de ser explorado. É preciso muita atenção. Detalhes pequenos não são percebidos por nossas orelhas destreinadas de atenção. Somente o fone-de-ouvido pode resolver meu problema de surdez desconcentrada e mostrar para mim o mundo completo dos sons musicados. O novo cd é sempre melhor que o velho. Novas experiências, novas ousadias. Virtudes insanas daqueles que buscam no som eletrificado a única e última salvação para aquela dor que fica no peito reticente e latente. Vou até a sala escura, somente há o domínio da falta. A falta completa o ambiente, será o ambiente preenchido por ela? Mas uma luz começa a piscar mostrando que há várias pessoas reunidas. Pela falta? Pode ser. Ela se torna frenética, o som do novo cd embala todos. Malade et ballade. A sintonia não é complementar. Num piscar vejo a outra. Pernas perfeitas enredadas por um vestido de seda paranóico subindo e descendo, deixando o desejo transparecer vivo, quase é possível tocá-lo, embala-a junto com a música. Toca-lhe as pernas com as pontas dos dedos e desce sinceramente até o calcanhar e retorna até o embalo desfazê-lo e seguir até a próxima piscadela da luz. Outro: pura força em formas bélicas são agora hirtas pelo som inovador, movimentos secos mas leves e permitidos somente em situação especial de som escuro piscante. Outros também (não) estão lá: embalam-se embelezam-se desejam-se invejam-se cruzam-se desvirtuam-se. O que um novo som não faz aos meus ouvidos... Visto que a inocência não me permite ir até eles. Minha vontade os trazem. Todos estão aqui e vislumbram o meu desejo: o único real e presente. Como me toca. Como me evoca a insanidade de um arrastar de pele sobre pele. Meus pelos se arrepiam e torno-me uma única e só vontade: desejo. É uma pena que a música não dure para sempre. Como dez minutos poderiam ser a eternidade e assim esse momento único de felicidade solitária poderia ser o paraíso de anjos e bosques bucólicos barrocos. Mas entre um som e outro há um terceiro irritante, nunca deveria haver pausa para as trocas de faixas. Pois é entre as faixas que esse som irritante passa por cima jorrando toneladas de gás intoxicante aos ouvidos. A janela deveria manter o som fora fora e o som de dentro dentro... Melhor, não deveria haver janela... pois se ela contivesse não seria janela, seria uma outra parede. Deveriam ser todas paredes-janelas como para fantasmas que não são barrados por elas. Não se vão! A próxima música só está começando! Eu prometo ficar de olhos fechados. O som novamente se inicia e vislumbra linhas verdes fluorescentes, todos reanimam-se e dançam, perfectíveis em sua razão e virtude bela somente. Fecho os olhos e sinceramente sinto. É quase como a pele sobre a pele. É sentimento sobre sentimento. Tocando-se, retribuindo-se. Abro os olhos e espio por milésimos de segundos e vejo o invisível. Estranho. Sigo de olhos fechados. Sinto o som e prossigo. Porém a vontade de entender o ocorrido me fez abrir os olhos novamente e lá vejo o indizível. Fecho os olhos de susto. Com tanta força que crio rugas onde os sons rebatem e criam uma batida diferente. O toque do improvável desfaz todo sentimento sobre qualquer sentimento e endureço meu corpo antes leve pelo embalo. Os olhos mais enrugados até tudo parar... momentos invencíveis. A mesma eternidade da felicidade só que desta vez realmente eterna, pois só o medo e a dor podem o ser. Ao abrir vagarosamente neste momento de eternidade os olhos, reconheço o tom da pele, os pelos longos do braço, os dedos longos, os dedos feridos, as unhas comidas pela ânsia do nada. Subo os olhos e vejo a voz invadir os meus ouvidos. (Onde estão meus fones?) É como escutar um gravador reproduzindo os mesmo timbres azucrinantes de somente escutar a minha voz por mais de um dia. E ver aquela pinta no pescoço e ver o sangue pululando pela jugular da mesma maneira que sempre o senti subir e descer. A barba por fazer irritantemente perturbadora, pois coça. A bochecha saltada de tanto sorrir da desgraça. E os olhos castanhos onde pude me aprofundar-me na imensidão hipnótica de mim mesmo. É a dor de reconhecer-me ali ao meu lado por falta de companhia melhor. Não é só porque minha história é sobre o desgosto de ser eu mesmo. Mas ter de me enfrentar, no momento em que apago meu ego, é doloso. É doloso entender que não sou. Reticências preenchíveis por toda a falta. É só escolher. Fecho os olhos... mas abro as mãos em concha e seguro as pálpebras para me manter sob aquele signo de dor que sou eu mesmo. Olhos novamente profundamente nos meus olhos e vejo o passado rebuscado de desesperança. Por que eu fui estudar tanto? Deveria ter aproveitado tudo e todos. As letras não me preenchem como o som. Só a poesia, eu confesso, aquela que é reconhecida depois da vigésima leitura e finalmente decifrada e devorada pelo decifrador. As letras não me preencheram, só os poucos sentidos perdidos entre as linhas. Ainda posso escutar o som. Resgata-me. Rex tremendae majestatis Salva me Salva me Salva me. É som é pedido. Por mais que eu não acredite nesse rei, um outro qualquer pode me salvar. Os dedos doem pelo esforço auto-dolorido. A pressão de ser eu mesmo verdadeiramente por poucos segundos é excludente que preciso sair de mim e viver. Voltem fantasmas-desejos outra música já já vai começar.