O julgamento de Capitu ou "ler com" e "ler para"




Ezra Pound em seu ABC of reading me ensinou duas lições preciosas: ler com e ler para. Ele me convidou a assumir essa tarefa como professor de Língua Portuguesa, ou como professor simplesmente. Ler com os alunos é uma atitude encantatória: cria-se um momento propício para a leitura e neste momento os alunos ao me verem lendo ficam curiosos, querem saber, querem entender, quem imitar aquele ato. Levo grossos volumes para a sala de aula, e aqueles mais audaciosos que me veem arrancar o livro da mão para lerem o título do livro e o nome do autor, nomes aos quais muitas vezes não conseguem nem pronunciar, ficam com os olhos arregalados e tentados a quererem mais, dias desses Pride and Prejudice de Jane Austen estava circulando pela sala. E a lição mais preciosa: ler para os alunos. Sempre que estou a ler faço questão de iniciar a aula com o trecho ensaístico de algum romance ou uma poesia chocante ou sensual, quero mostrar-lhes o gozo que há na leitura. E sempre discutimos... questões relacionadas à gramática? Não, questões relacionadas ao existir. A literatura tem um pacto com a vida e não com a gramática. Propus-me, então um desafio: ler Dom Casmurro de Machado de Assis com os meus alunos no 9º Ano. "Este livro é chato", "tem palavras difíceis", "você não vai conseguir" foram alguns dos muitos argumentos (diria preconceitos) que tive que ouvir. Entretanto, não dei ouvidos, só somos uma grande orelha quando o que temos que escutar realmente tem sentido. Procedi a leitura lentamente, lendo performaticamente para cada um deles e ouvindo-os ler, tropeçando em palavras fora de uso (ou que foram esquecidas pelo uso demasiado prático da língua), esquecendo vírgulas, acentos, enfrentando a vergonha de ler para os colegas ou de ler sem fluência, mas também vi leitores vorazes que queriam ler a descrição de Escobar para poder apreciar em sua imaginação a singular beleza da personagem, ou mesmo rapazes que secretamente se apaixonaram por Capitu, por seus olhos, por sua sagacidade, alunos que escondiam os livros dentro da mochila para terminar aquela parte em casa ou saber o que viria a acontecer, que se impacientaram esperando o tão necessário beijo entre um penteado e outro, ou esperam o momento da duvidosa traição. Foram meses de trabalho, os alunos leram o livro sob os meus olhos, os que faltavam queriam saber o que perderam, exigiam-me um relatório dos últimos acontecimentos. Os preconceitos? Não sei onde foram parar, as palavras difíceis foram vencidas com perguntas ou com o dicionário, a chatice do livro é própria de um casmurro a tornar vivas as suas memórias. Lido o livro, convidei os alunos para o mais óbvia de todas as atividades: julgar Capitu. Seria ela inocente ou culpada das acusações? Não me importa, julgar Capitu era uma expressão que tinha o sentido deslocado em minha cabeça, significava: como este livro marcou aqueles muitos momentos em que estivemos lendo juntos, quais significados foram explorados, o que eles absorveram para si da experiência do outro. Não tinha necessidade de revelar meus segredos, minhas segundas intenções para os alunos ao propor a atividade. Por duas semanas a sala se dividiu como em uma guerra: os acusadores e os defensores. Folheavam o livro, procurando aquele trecho que construiria sua argumentação para o grande dia. Fizeram pesquisas na internet. Esconderam um dos outros o que estavam construindo. Para finalmente realizar uma acusação totalmente baseada no texto com seus argumentos mais contundentes ou uma defesa emocional apelando para os sentimentos mais íntimos dos jurados. Jamais esquecerei, ou não quero esquecer: os trechos lidos pela acusação ou as perguntas certeiras da defesa. Desta feita, a emoção ganhou da razão e Capitu foi inocentada. Desta feita, o "você não vai conseguir" se desfez como um castelo sobre a areia. Consegui conquistar todos os para a leitura? Não! a multiplicidade dos gostos não pode ser satisfeita, mas dos muitos que consegui agradar certamente marquei sua história de leitura. Não, minto. Machado de Assis conseguiu marcar sua história de leitura, da mesma forma que marcou a minha com Memórias Póstumas de Brás Cubas