Corvo

Muitas vezes não consigo distinguir o sonho da realidade. Fatos tão verossímeis são sonhados e os incríveis são vividos. Passei há alguns anos a conceber a vida como o improvável e a não distinção entre o sonho e a realidade é consequência voraz dessa atitude. Tudo o que conto, é sonho ou realidade? Quero deslocar essa pergunta: é realmente importante? Tudo é parte da minha vivência em improbabilidade insensata do ser. Acordei de um sonho vívido. Meus pés ainda formigavam, meus dedos da mão se moveram, meus olhos se abriram. Teto, armário, ruído do ventilador. Acho que era a realidade.

Virei meu rosto e meu quarto estava ali, inteiro, os livros como que dependurados nas prateleiras, alguns filósofos segurando outros por páginas riscadas ou com as orelhas dobradas, velhos hábitos de leitura. Alguns livros, a maioria presentes, intocados, as pessoas não sabem o que eu leio ou querem que eu não leia a morbidez da vida, ficam como mortos, defuntos desalmados, sonolentos, sem movimento. Minha escrivaninha entulhada de papeis, escritos pela metade, livros por ler, meu computador ainda ligado, algumas janelas abertas das aventuras noturnas pela virtualidade, e eu ainda fico na dúvida qual a pergunta mais importante: sonho ou realidade? Ou isto é realmente importante? Ficar de pé pela primeira vez no dia é o meu ato de agradecimento. Não preciso me ajoelhar ou mesmo fechar os olhos. Me levantar é a vitória da desnecessidade sobre impossibilidade de existir.

Tudo estava no lugar, não havia nenhuma salamandra ou sombras fantasmáticas andando pelo quarto. Acho que é a realidade. Apesar de que ontem eu vi duas larvas subindo pela minha janela, vai começar a temporada de salamandras novamente.

Café da manhã, hábito sagrado, sem ele o dia não começa. E sagradamente, ele sempre está sobre a mesa. Sair do meu quarto é invadir território inimigo, é deixar-se ser julgado por todos, pelos mínimos atos, é abandonar o refúgio e expor-se ao perigo. A mesa do café não estava posta, que horas seriam? Ao invés do usual pão integral, leite desnatado e manteiga light, havia uma gaiola. Ainda acho que era a realidade. Dentro dela um corvo negro me olhando. Antes da minha entrada claudicante pela sala, ele estava sereno, me olhou profundamente nos olhos por poucos segundos e depois começou a se debater como eu fosse seu algoz. Uma tesoura prateada estava ali ao lado da gaiola. E como se eu soubesse o que havia de ser feito, me aproximei, colocando meus dedos no cabo da tesoura enquanto minha outra mão abria o fecho da gaiola. O corvo cessou e me olhou mais uma vez. Desta vez mais profundamente, desta vez me inserenando. Testei o corte da tesoura no ar, o corvo saia da gaiola como a ir para seu fatídico destino. Minha mão segurou seu pescoço de uma forma delicada, não tentou nenhuma vez me bicar. Ainda era a realidade? A tesoura guiou-se sozinha até uma das asas do corvo que se abria como parte de um ritual que estava por se realizar. Cortei de uma só vez as penas. Este corvo não voaria mais. A outra asa se entregou, e a tesoura ainda derrubando as penas picadas iniciou o corte das outras penas. Tirei a mão do pescoço do corvo e ele bateu as duas asas a ensaiar um voo. Obviamente não conseguiu. Me olhou mais uma vez, com e sem serenidade. Uma lágrima verteu-se... Só não posso contar de que olhos, se dos meus ou dos do corvo.

Aquele pássaro não voaria mais, eu não saberia mais a diferença entre a realidade e o sonho. Um símbolo, ou a metade de um segredo me foi entregue naquele momento. Fica, agora, somente a busca insana pelo seu significado, pela sua outra metade. E eu estava ali, entregue ao olhar do corvo. Acho que era um sonho. Acho que era a realidade.