Temperança

a Fabiana


O emaranhado de sentidos que eu represento é desconcertante. Muitas vezes me dá dor de cabeça em ser como sou, pensar como penso, sentir o que sinto, imaginar o que imagino. Muitas vezes deito em minha cama, a janela aberta permitindo que a ilusão solar entre e faça dos meus olhos embaçados. Deitado em minha cama com uma dor insuportável na parte detrás da minha cabeça, fecho os olhos para parar de ver e ilusão e começar a imaginá-la. O vento momentaneamente estagnou, o mormaço definitavamente subiu e uma gota de suor desceu riscando minha testa, escorrendo pelo meu nariz até dar a volta pela minha boca e saltar pelo meu queixo.
Ao abrir os olhos, ela estava ali, flutuando em minha frente, vestido vermelho, uma flor no cabelo, os cabelos lisos e negros completavam o conjunto que não me impressiou. Dos seios fartos retirou um tarot ao qual misturou as cartas cuidadosamente, mesmo sem olhar para suas mãos, visto que seus olhos fitavam os meus. Tento lembrar o que se passou em minha mente naquele momento, mas a certeza é que nada se passou, tudo parecia tão natural que não fiquei chocado ou mesmo ansioso. Era somente uma cigana flutuando em minha frente, embaralhando seu tarot. Nada de mais, nada com que eu não pudesse lidar.
A cigana depois de um longo embaralhar e de um longo olhar me ofereceu o baralho em leque, seus olhos requeriam que eu retirasse uma carta, sem palavras. Entrei no jogo, apesar de não acreditar em nenhum rito advinhatório. Lembro do desenho da carta, uma cigana com dois jarros um transmitindo água para o outro. Lembro também do número, XIV. A cigana tocou minha testa e se foi. A dor momentaneamente passou, visto que é incurável.
Por muito tempo esqueci o fato, até ter a primeira oportunidade de ver um baralho de tarot. Foi um leão que o trouxe até mim. Primeiro entrou o leão pela minha sala, sem cerimônia, a anunciar a presença de sua protegida. A campanhia tocou e ela entrou com o baralho em mãos. Eu não podia tocá-lo, estava limpo. Só pude apreciar cada uma das cartas a distância. Até chegar ao número XIV, e me extasiar com o fato de o desenho bater exatamente com o número, mesmo nunca vendo um tarot antes. Como saberia qual o desenho da carta? Como eu saberia quantas cartas tem um tarot? O fato é que a carta se chama Temperança. Pedi ajuda para entender a carta, alguns fatos se conectaram pela força do discurso. Não acreditei no começo. Mas o tempo age morto. E mortalmente a carta e seu conselho se provou necessário. Porém, eu sou teimoso, fiz o reverso para provar o verso. Muitos versos ainda estão por compor essas breves narrativas, somente não sei se esse emaranhado de sentidos que sou, vão se enovelar cuidadosamente e tecer um filigrama precioso.