Diana - Tasseomancy [tradução]

Os lobos em minha cela
por minhas maçãs enegrecidas e pútridas.
Pegaram mais do que deram,
meus animais se amedrontaram e adoeceram.
Adiantem as suas colheiras,
elas apodrecerão
nesta escura estação.

Os lobos em meu altar
por estas feras que não são puras para o abate.
Pegaram mais do que deram,
a qual carne serviria este sangue e este fogo?
Adiantem as suas colheiras,
elas amadurecerão
nesta escura estação.

Mande-me teu arco, Diana
Abençoe-o com o vinho, agasalhe-o com a vinha
Temos que achá-la,
esculpi-la em pedra, Diana
enfeitada de dentes e cipreste
pelo se arco.
Os lobos...

Os lobos em minha câmara
por estes olhos não necessitarem do julgamento do carcereiro.
Pegaram mais do que deram
e a vida não se acelera para a ruína.
Adiante sua respiração,
dudo acabará no final desta escura estação.

Lá no fundo
da sala
eles gritam meu nome
suavemente
suavemente
através da boca do leão,
isto não é meu problema,
esta não é minha dúvida.

Mande-me teu arco, Diana
Abençoe-o com o vinho,
agasalhe-o com a vinha. Temos que achá-la,
esculpi-la em pedra, Diana
enfeitada de dentes e cipreste por seu arco
Mande-me teu arco, Diana
Abençoe-o com o vinho, agasalhe-o com a vinha. Temos que achá-la,
esculpi-la em pedra, Diana
enfeitada de dentes e cipreste pelo seu arco.

Pés leves - Tasseomancy [tradução]

Quando eu acordo,
temo a noite
aproximando-se com a devida violência, Eu
amaldiçoo as casas com cornetas e pele humana
Saltando de pés leves para a hesitação da tua faca

Uivar, berrar, bramir, chiar

E o refrão me diz
não seja insensato
Saltando de pés leves para a hesitação da faca
E o poeta me diz
não seja grosseiro
partes do rosto dela estão reluzindo em branco

Minha testemunha - The irrepressibles [tradução]


Enterre-me com a espada, a corrente e a dor
Viverei com as moscas, com o fogo da fogueira inquisitorial.
Esquecido num pensamento por você preparado,
moldado numa forma inata de você.

Acordarei da chuva da sua luz.
Trespasse essa faca no meu peito, viverei em você,
Ah. ah, ah minha testemunha.
Ah, ah, ah minha testemunha.

Crie a queda, ateie o fogo,
dane-se as leis, suavemente...
Pinte isso tudo com o desejo.
Molde a forma que eu vejo.

Viverei com a faca, com o amado em mim.
Sou o sustentáculo olhando para sua hipocrisia.
Ah. ah, minha testemunha.
Ah, ah, ah minha testemunha.
Pegue a ferida do céu!
Faça o amor num olho!
Pegue a ferida do céu!
Faça o amor num olho!
Pegue a ferida do céu!
Ah. ah, ah minha testemunha.
Ah, ah, ah minha testemunha.

Faça guerra de suas crenças
mais pungentes, por favor!
Faça guerra de suas crenças
mais ignorantes e desapareça!
Acordarei da chuva de sua luz.
Trespasse a faca no meu peito, viverei em você.
Ah. ah, minha testemunha.
Ah, ah, ah minha testemunha.

Pegue a ferida do céu!
Faça o amor num olho!
Pegue a ferida do céu!
Faça o amor num olho!
Pegue a ferida do céu!

Almas entrelaçadas - Björk [tradução]

Remisturo as placas tectônicas de meu peito

Você sabe, doei-me por completo
na tentativa de ligar nossos continentes,
de mudar as intempéries da estações,
de entrelaçar as almas.
Tão rápido quanto suas unhas crescem,
as rugas do Atlântico erram
para dizimar a distância.
Você sabe, doei-me por completo.
Consegue ouvir o esforço da contenda magnética?
Mistura de colunas
para entrelaçar as almas?
Esta erupção desfaz a estagnação.
Você não sabia que ela estava em mim.
Reteve seu amor, uma cápsula inesgotável,
Eu não sabia que ele estava em você...
Você foi capaz de esconder a chave de nossa continuidade,
Eu não sabia que ela estava em você.
Esta erupção desfaz a estagnação.
Você não sabia... você não sabia...
No que resiste persiste, detalhes aquecem
para dizimar a distância.
Eu sei, doou-se por completo,
ofereceu-me a harmonia em troca de tudo ser do seu jeito.
Minha placa eurasiana contida,
moldando o entrelaçamento das almas.
Esta erupção desfaz a estagnação.
Você não sabia que ela estava em mim.
Reteve seu amor, uma cápsula inesgotável,
Eu não sabia que ele estava em você...
Esta erupção desfaz a estagnação.
Você não sabia que ela estava em mim.
Esta erupção desfaz a estagnação.
Você não sabia... você não sabia...

Trovão inesperado - Björk [tradução]


Inspiragitando nos abismos aquáticos
fria espumafrivola em meus ramos
é minha mente em turbilhão
um passeio em torno do desejo

Poderia? Conseguiria ou teria tudo isso tão frequentemente?
Suspirando milagres.
Poderia? Conseguiria ou teria tudo isso tão frequentemente agora?
Suspirando milagres.
Suspirando milagres.

Ninguém imagina o choque luminoso que eu preciso
o qual eu nunca terei
das quais as mãos profundamente humilhou,
perigosos dons da mesma maneira veem a mim.

Poderia? Deveria ou teria tudo isso tão frequentemente?
Suspirando milagres.
Poderia? Conseguiria ou teria tudo isso tão frequentemente?
Suspirando milagres.
Suspirando milagres.

Meu gene romântico é dominante
e sente gana pela união,
intimidade universal,
tudo entrelaçado.

Poderia? Deveria ou teria tudo isso tão frequentemente?
Suspirando milagres.
Poderia? Conseguiria ou teria tudo isso tão frequentemente?
Suspirando milagres.
Suspirando...

As ondas desconexas batendo
ventopopa em minha face,
uma tempestade se aproxima.
Arranque cuidadosamente este aziar de mim!

Poderia? Poderia ou deveria tudo isso tão frequentemente?
Suspirando milagres.
Poderia ou deveria ou teria tudo isso tão frequentemente?

Todo meu corpo é um só
assim que os raios atingem minha espinha
faiscante
a origem perpassa-me,
reviva o meu desejo
inviolável.

Poderia? Conseguiria ou teria tudo isso tão frequentemente?
Suspirando milagres.
Poderia? Conseguiria? Deveria ou teria tudo isso tão frequentemente?
Suspiro por milagres...

Laura - Bat for Lashes [tradução]


Disse-me que todos te deixaram para trás,
teu coração se quebrou e morreu em parte.

Vista teus braços suavemente em torno de mim e diga:
podemos dançar sobre as mesas de novo?
Quando você sorri é tão vasto e
teus saltos são tão altos.
Você não consegue chorar... prossiga em teus trapos felizes
e vamos cantar sozinhos
esta canção solitária.

Você é o trem que descarrilhou em meu coração,
você é o brilho na escuridão,
ah, Laura, você é mais do que uma estrela.
E neste show de horrores
tenho que lhe dizer:
ah, Laura, você é mais do que uma estrela.

Dizem que você está soterrada neste pálido sonho azul
e tuas lágrimas derramam-se quentes nos meus lençóis.

Vista teus braços suavemente em torno de mim e diga:
podemos dançar sobre as mesas de novo?
Quando você sorri é tão vasto e
teus saltos são tão altos.
Você não consegue chorar... prossiga em teus trapos felizes
e vamos cantar sozinhos
esta canção solitária.

Você é o trem que descarrilhou em meu coração,
você é o brilho na escuridão,
ah, Laura, você é mais do que uma estrela.
Você será reconhecida por mais tempo do que eles,
teu nome será tatuado na pele de cada garoto.
Ah, Laura, você é mais do que uma estrela,
você é o trem que descarrilhou em meu coração,
você é o brilho na escuridão.
Ah, Laura, você é mais do que uma estrela.

E neste antigo show de horrores,
eu preciso te contar:
ah, Laura, você é mais do que uma estrela.

A máquina de sonhos

La morte di amore - Roberto Ferri
“As coisas não podem ser assim...”, a manhã tinha aparecido em minha janela, como todos os dias, despertando-me sem necessitar de avisos cantantes, era somente o sol bater e o dia já estava anunciado, a janela em si olhava para mim e dizia sem muitas palavras que era hora de sonhar. Não, eu não sonho dormindo, sonho acordado da hora do despertar até a hora em que vou me deitar, quando o sol deixa de se projetar através da janela do quarto, as cores dos móveis tornam-se menos, não há lâmpada alguma que devolvesse o brilho. Era a vida sob o sol a encher a casa de cores cintilantes, dormir não era sonhar, era ter pesadelos com os acontecimentos cotidianos, era se tornar real pelos pequenos medos diários. Ele foi muito sincero em suas palavras, não era a primeira discussão sobre o futuro, ou o desejo ou mesmo os sonhos acordados. Infelizmente, sou uma máquina de sonhos, de projeção, de desejos, de seguir em frente porque há um segundo seguinte e mesmo o amanhã, só há o que ainda não aconteceu. 

O presente todo se desfez em desonho, as paredes suaves e claras do desejo se evanesceram e todo o brilho se foi mesmo com sol. O fim da era do sonho tinha sido determinado, o momento de sua fala, engasgada há muito tempo na garganta, era sua determinação, os raios solares não eram menos intensos na janela, só não produziam sentido, não deixavam de anunciar o dia, somente tinham deixado de abrir a possibilidade para o sonhar. Aquela colcha de retalhos sobre a cama não tinha aquela cor de quando acordei, era agora acinzentada, vazia, cada um daqueles quadrados tinha um sonho, era somente tocá-los e eles vinham despertar um pensamento, todo o futuro estava engavetado neles, uma vontade de ir para algum lugar desconhecido, tirar uma foto do pôr do sol, tomar um vinho caro ou mesmo tomar um chá na sacada ao som de conversas desimportantes. 

Ele não entendia, quando me negou o sonho, negou-me por inteiro, sou somente feito deles e são eles a moverem os músculos dos meus braços, a realizarem as conexões entre os meus neurônios. Era só me dispensar na lixeira, não tinha mais nada aqui, somente um ser vazio. É certo, não se sonha sobre o vazio, não se sonha sem possibilidades, não se sonha diante de uma negativa, é egoísmo de minha parte, eu sei, mas bastava não me negar a possibilidade, nem que seja para não ser realizado, sonhos não se realizam, se sonham e somente. Não pedi para ter sonhos realizados, pedi somente para sonhar. Não custa nada... 

“Você está me ouvindo?” É claro, e puxou-me pelo braço, chacoalhou um pouco, juro, não estava perdido em meus pensamento, só não tive vontade de me mover, aquela colcha era daquela cor mesmo? Entendi tudo o que me disse e concordo, quem sabe pode ser possível para daqui alguns anos, não tem problema algum. Todos os problemas estavam resolvidos, não havia mais nada com o que se preocupar, tudo eram palavras envenenando minhas veias, nada de mais, minha pele também perdeu seu brilho sob a janela, enrijecia e craquelava como um açude seco. Sua água era um tanto doce, alimentada por nutrientes provenientes da terra e fermentados ao sol. “Podemos ir agora?” Claro, vou me vestir...

cargas - iamamiwhoami [tradução]


Ha!

Eu venho levar, podemos ver que nós causamos tua partida da terra decadente.
Eu venho entregar e envolvi tudo em minha plangente ligação.

Eu lhe trouxe minha história e espero teu terno abraço me envolver,
ofereça o amor e pense em mim.
Estas são as cartas de uma composição
seladas e guardadas por uma novidade.

Onde lançamos as premissas tão profundamente
o tempo finalmete me agarrou
moldado numa imagem de um fugitivo apavorado.

Não duvide do brincalhão.
Diga suas saudações com um adeus.
Sua xícara já está transbordando.
O silencio afunda com um sorriso...

Agora nos esquecemos,
uma pequena, pequena jogada
muda o que foi dado para decidir justamente o motivo disso tudo.

Não espere escutar de mim
da mesma maneira que tenho alimentado bocas famintas.
Realmente gosto da sua companhia,
mas precisamos trabalhar para te manter contente.

Vejo o erro e o pior em mim.
Eu lancei as premissas tão profundamente,
a coragem finalmente me pegou
moldada numa imagem de um fugitivo apavorado.


Agora nos esquecemos,
uma pequena, pequena jogada
muda o que foi dado para decidir justamente o motivo disso tudo.



Não duvide do brincalhão.
Diga suas saudações com um adeus.
Sua xícara já está transbordando.
O silencio afunda com um sorriso...

matança - iamamiwhoami [tradução]



Rasteiro, paltitante, impacto do amor, direto para o canto
tentando partir teus sussurros de gritos repetidos.
Esta vontade está ardente e me fazendo voar alto...

Qual é teu desejo? Me ver feliz?

Venha e mate, exigência e opiniões,
toda essa comoção é sem sentido,
venha e mate, mais uma vez,
uma era está acabando com nossos sorrisos e gargalhadas.

Dou um passo para frente, você me seguraria na queda?
Uma vez que o fiz, sei que que desejará mais (de mim).
Tem me arranhado, me feito falar da dor.
(venha e mate, venha)
Qual o teu desejo? Carreguar-me em teus braços?
(venha e mate, venha)

Venha, e mate, exigência e opiniões,
toda essa comoção é sem sentido,
venha e mate, mais uma vez,
uma era está acabando com nossos sorrisos e gargalhadas.

Jeca Tatu c'est moi


[revisado em agosto de 2013]


A maneira com que facilmente nos identificarmos com os problemas universais do ser humano é a demonstração do nosso comodismo perante a formação do pensamento nacional e das diferenças entre a produção literária entre as nações. Sermos Emmas Bovary em todos os lugares e condoermo-nos com as grandes tragédias tornou-se, muitas vezes, lugar-comum para alguns que acreditam absorver a obra literária em sua totalidade sem a reflexão necessária, mesmo para nós, brasileiros, incapazes de ler a literatura produzida no Brasil, por seu tropicalismo, simplesmente porque uma tradição estabelecida e importada resolveu que estes são os problemas a serem debatidos e representados universalmente. Mas quando uma verdade indesejável nos cospe na cara? Seriamos capazes de identificarmo-nos com Jeca Tatu e o problema de sua raça, o caboclo? Ou entenderíamos que ele seria a melhor representação cultural para a forma com que o brasileiro entende e produz a cultura. Ou seria melhor continuarmos a afirmar que Emma Bovary continua sendo nós? E negarmos o fato de que a tradição nos serve apenas de cabresto a limitar uma possibilidade de construção cultural orgânica sem ser endógena.

Passemos ao problema, o caboclo, tenha ele qualquer nome, e aqui representado na figura de Jeca Tatu do conto “Urupês” de Monteiro Lobato, é um devastador selvagem, apropria-se indevidamente da terra e a utiliza até a exaustão. Não conhece nenhuma técnica que o faria fixar-se no lugar em que escolheu (sobre)viver, é a priori um nômade supersticioso. Assim, "o caboclo é uma quantidade negativa", como conclui o narrador de "Urupês" ao descrever Jeca Tatu e seu modo de vida, seria, dessa forma, o oposto do ato civilizador e não teria com ele nenhuma relação. 

O que seria esta sensação de civilização que falta no caboclo? O que o torna tão diferente de qualquer um de nós ou mesmo de Lobato? Aparentemente parece ser um rancor econômico da parte do narrador que ao ironizar minuciosamente as atitudes de Jeca Tatu esquece-se de olhar para dentro de si e de sua própria história. Só porque ele possui em livros e em conversas pontuais de café: a política ou a ciência ou por (re)conhecer alguns nomes de uma outra tradição, o que permite perpetrar, a partir daí, algumas relações, mesmo que desnecessárias, ele se torna o homem civilizado. É porque devasta de forma regrada e sua superstição tem caráter de religião, amparada na teologia, que o caboclo seria o mais baixo de todos os homens. É porque não tendo domínio da linguagem, "de pé ou sentado as ideias se lhe entramam, a língua emperra e não há de dizer coisa com coisa", que se mantém abaixo de todos os outros na escala da importância humana, a partir do ponto de vista logocêntrico de que a linguagem constrói essa escala. Porém, a pergunta ainda permanece e sem resposta: o quão diferente ele é do devastador selvagem? Deixou de ser humano?

Não quero negar que exista a civilização e suas benesses, eu vivo e sobrevivo ao apoiar meu fazer diário nela. A questão em jogo é quão longe de nós está Jeca Tatu e o quê o afastamento proposto pelo narrador no conto "Urupês" em seu foco narrativo evidencia com tanto desgosto. 

Monteiro Lobato não errou ao descrever o caboclo ou ao colocar preconceitos raciais na boca de senhoras fazendeiras, ele era um homem de seu tempo e que exigia a modernização rápida e sem reflexão para finalmente colocar o Brasil entre as nações do século XX (é preciso ressaltar que o próximo passo dessa marcha foi a Semana de Arte Moderna de 1922, a qual ironicamente foi execrada por todos os modernizadores, inclusive Lobato) e Jeca Tatu era um atravanco nessa ordem civilizatória, assim como todas as outras minorias que de tão violentadas hibridizaram-se com a minoria mandante. O erro, entretanto, foi de nossa época ao tratar com tanta consideração um discurso datado, ideológico e necessário. Ao invés de olharmos para Monteiro e sua escrita como se estivéssemos olhando para o passado, acreditou-se que ele representava o pensamento corrente e que poderia ainda influenciar o pensamento atual, em que a conclusão mais sensata era: é melhor que as crianças não o leiam na escola. Ele pode sim influenciar, mas a partir de um olhar um pouco mais demorado e que deixa claro o quanto somos diferentes daquilo ou o quanto nos diferenciamos daquela época e, até mesmo, perceber aonde se chegou com aquela ideologia para, por fim, termos que nos afastar daquele caminho de destruição mais psicológica do que material. 

"O caboclo não dá pela coisa" civilizatória por sua ignorância e, pela nossa ignorância, chegamos ao século XXI e ficamos com dívidas e dúvidas históricas com dezenas de minorias que só começaram a existir dentro de si depois de muito tempo de silenciamento imposto e autoimposto. Por lhe negarem a própria existência como sujeito, sua subjetivação tornou-se tardia, enquanto um sujeito se construía sobre os escombros de outros, da mesma forma que uma civilização que não deixa de ser uma forma de subjetivação dentro da perspectiva medíocre de culturas nacionais..

Exatamente, uma civilização só se constrói sobre os escombros de outra. E uma civilização só é melhor do que outra quando está no auge do seu “processo civilizatório” e de sua influência, fazendo com que seu passado se apague e somente permaneça na lembrança o seu período de ouro, ou seja, os documentos que não interessam são simplesmente arquivados na pasta secreta do ato arquiviolítico. Mais uma vez e em diferença, uma civilização só se constrói sobre os escombros de outra quando se pode aproveitar o que sobrou das cinzas dos alicerces de outras culturas e segue-se em frente, para não errar no mesmo amontoado de tijolos. 

Finalmente, Jeca Tatu sou eu, na medida que sigo avançando de fazenda em fazenda devastando a terra sob minha superstições, simplesmente porque os civilizadores verdadeiros ainda não foram ouvidos e se o foram, somente os ecos de suas vozes chegaram-me aos ouvidos. "O caboclo é o sombrio urupê de pau podre, a modorrar silencioso no recesso das grotas" da mesma forma quando começo a habitar a árvore viçosa dos grandes pensadores e sugar dela tudo e, ao mesmo tempo, não conseguir produzir nada de duradouro. É o ato favorito do colonizado, pois na falta de um passado, tendo em vista que o passado menor está anarquivado, acaba por gozar somente do pensamento novíssimo até o surgimento de um outro, como analisou Levi-Strauss em Tristes Trópicos.

"Só ele [o caboclo], no meio de tanta vida, não vive..." Só nós, no meio de tanta vida, não conseguimos viver porque ainda criamos uma ilusão que torna o humano cada vez mais insenvível ao negar sua própria possibilidade de existência ao almejar uma felicidade que só não é duradoura por ser incompleta ao negar seu oposto e suplemento, portanto, o homem só não é feliz porque nunca soube ser infeliz.

O cabloco não está distante de nós, na verdade, ele nos representa, é preferível ser essa “quantidade negativa”, tantas vezes representada na literatura dita moderna, do que continuarmos a nos estabelecer pelos parâmetros e problemas logocêntricos. Jeca Tatu sou eu, se Lobato não teve a audácia de Flaubert, digo eu: Jeca Tatu sou eu!