Uivo voraz

Doze uivos vorazes
Todos encantadoramente horrendos
Performam o medo nos indolentes
Farejam o mal dos tempos
Em campos ineficazes
Fadados a uma busca incessante
Desejam liberdade da demanda

Perderam o mais precioso
O mais belo
O mais incerto
Procuram por procurar

Onze uivos vorazes
Somente um pode terminar
O que mil começaram
Terminam por se destruírem
Ou destroem para terminar
Este um, tutano de mil
Saberá onde a demanda termina
Saberá onde cavar
Saberá onde meter o seu focinho
E encontrará
O que todos juntos não puderam achar

Não falo de lobos
Nem de homens animalizados
Falo do improvável
De indestrutível
Do escamoteado

Cinco uivos vorazes
Está perto do fim
Não há culpa
Nem prazer
Deglutir é necessário
Indivisível
Vasto

Não há filosofia
Nem criação artística
É ato de desespero total

Um uivo voraz
A demanda não terminou
Nem tudo tem começo, meio ou fim
Tudo tem caminho
E caminhar
Nada além de uivos demandados
Nada além de desejos (i)realizáveis
O último uivar é amedrontador
É faminto
A demanda o consumiu
Como se o consumir não fosse um fim

Só resta a origem
E o ato
Ou resto de atos originários
Purgaram a si mesmos
Da forma como se purga a fome
E a fome nos consome

Monstros noturnos

Acordo. É um péssimo começo. Coço os olhos, é um primeiro ato vazio. Viro-me, é o estar lá mesmo sem o querer. É como se eu pudesse ver o futuro sem o sabê-lo. Por enquanto, não há monstros noturnos que eu não consiga exorcizar. Acordar todos os dias com um monstro diferente é algo inverossímil, mas necessário. Todos os dias durmo com uma dúvida, todos os dias durmo com a incerteza. Todas as noites me consomem como se fosse a última. Não tenho esperanças de voltar a viver no outro dia. Tenho certeza que morrerei dormindo. É um monstro noturno que vai me sufocar e vai me livrar de todos os outros monstros e vai me consumir até eu não ter mais força espectral para seguir em frente e simplesmente deixar de existir, como sempre desejei.

Um deles, me perturba em especial, digo o nome porque seu nome é que o fará com que eu seja mais forte para vencê-lo. Avah-má, ele sussurra seu nome ao soprar a fricativa no meu ouvido e por mais que meus olhos estivessem abertos, a noite é obscura, não havia conseguido ver sua face. Meu corpo estremecia, mas confesso, não era medo. Não tenho medo de monstros noturnos, não há monstros noturnos que eu não consiga exorcizar. Sua voz rouca, sua textura sonsual me consome os sentidos, me arrepia os pelos do corpo, me fazem estremecer de um prazer monstruoso. Sua voz é a primeira coisa que sinto, seus dedos de unhas compridas a segunda, elas correm por minhas costas, seu corpo sonoro começa a se perfazer sobre o meu, o meu arrepio já não está mais lá. Há outra coisa, outro sentido.

Ontem resolvi enfrentá-lo. Não... não quero exorcizá-lo... não agora, por que não aproveitar esse monstro que me perturba de uma forma tão especial? Deixo existir, uma permissão permissiva. Senti o som de sua voz no meu ouvido. Sussurrou, tocou. Abri os olhos e me virei. Ele já estava sobre meu corpo arrepiado. Segurei-o pelo braço, e finalmente pude ver seu rosto, sentir as propriedades de sua pele, a sonoridade de seu coração pulsando sangue pelo corpo. Ele foi pego de surpresa, apesar de conhecer minha fama de exorcista noturno de incertezas relevantes. Arregalou seus olhos verdes, seus traços finos me assombraram. A pele não era pálida como dos outros espectros que tinham o costume de me visitar, era morena, de um teor, de um matiz, de uma sonoridade estridente.

Não tentou fugir, era audaz também, passado o primeiro susto, o primeiro arrepio, nos sentimos confortáveis a ponto de sorrirmos um para o outro e ver dentro dos olhos de cada um o desejo classificável, ele queria minhas forças, eu queria sua vontade. Pousando sobre mim, ele me permitiu sentir outras pulsações, outras texturas, outras virtudes. Sorri sem graça, há ainda alguns recalques sobre mim.

Ele me mostrou sua mão, colocou entre nossos rostos, girou-a no eixo como a me mostrar a palma e as costas do seu objetivo. Olhei sinceramente para seus dedos, suas articulações, sua maestria manual. Colocou a palma de sua mão sobre meu peito. Coloquei minha mão nas costas das suas. Palma e costas unidas. Avah-má era mais esperto que eu. Era o desejo por sua pessoa que o fazia especial, e ele sabia disso. Deslizou sua mão sobre meu peito, e no amontoado de pelos do lado esquerdo, cravou suas unhas grossas, metalizadas. Não senti dor, somente um prazer inenarrável, estava enredado em seu objetivo, e gostava disso. Quanto mais encrava suas garras em meu peito, mais eu sentia meu coração pulsar. O sangue quente escorria pelo meu peito, a me reconfortar, caia em meus lençóis, encharcando meu ninho. Não reagi, mas mesmo assim, entrelaçou minhas pernas com as suas, novas texturas, novas pulsações, velhas virtudes. Seu abraço violento, me tirou o ar do peito. O sorriso em sua face era de satisfação. No cume de sua aniquilação ele não pode perceber meus dedos permeando sua barriga, a procurar seu umbigo. Meu dedo ali penetrou, e ele não sentiu o meu domínio sobre seu prazer. Só percebeu que já não possuía vontade, quando sua mão não conseguiu se fechar sobre meu coração. Piscou duas vezes a se aperceber do ocorrido, seu sorriso malicioso se desfez em espanto. Não há mostro noturnos que eu não consiga exorcizar, por enquanto. Meu domínio é ser dominado, e ao ser dominado, dou a falsa impressão de domínio. Sua vontade escorria por entre meus dedos. Ele muito sério, tentou soltar meu coração, mas minha pulsividade segurava cada dedo, cada articulação, cada sentido. Sorri, não de prazer, mas de domínio dominado.

Avah-má merecia outra noite comigo, retirei meu dedo de seu umbigo, de seu centro, e cordis larguei sua mão. A expressão de alívio foi sonora ao falar meu nome de forma cansada. Marcus. (In)felizmente não se exorciza os vivos, e enquanto eu permanecer aqui, com o mínimo de sangue sendo bombeado por meu coração amassado, eu ouvirei meu nome sendo pronunciado de muitas formas, desejosas ou não. Joguei Avah-má da cama, caiu no chão e pronunciei o velho encantamento, ele correu de volta para as sombras de onde saiu. Monstros noturnos me servem de mote vital. Viral. Sempre durmo com uma incerteza, e acordo como um péssimo começo, porque só gosto da noite, só gozo no exorcismo total. Me espere.





Nirvana

A hora da minha morte chegou, um momento esperado como qualquer outro. Mas como eu poderia saber? Muitos se perguntariam... É um momento, é único, nem todos possuem o mesmo direito sobre si próprio. É como se tudo parasse de fazer sentido para fazer nirvana. É sentar-se em torno de si mesmo e saber, profundamente saber que este é o momento aprazado. Não li tudo, não conheci todas as pessoas que gostaria, não vivi todos os momentos que imaginei viver. O momento simplesmente chegou. O completo que sou se tornou insuportável e a necessidade de deixar de existir é a única saída. Não é se matar, é aceitar a morte como um fato natural, incessantemente invariável. Não tenho medo, não tenho ansiedade. É nirvana incompreensível. A morte só espera a entrega, mas nos negamos a nos prover esse instante único, imponderável. Por isso não é para todos, é somente para aquele que possui direito sobre si próprio. Eu o tenhoo, de tudo que li, conheci e vivi, me outorguei esse direito. Desde já, declaro, a morte me pertence e ela está para me arrebatar. Estou pronto para de agora em diante escrever postumamente. Ao desligar o computador, o som, ouço o silêncio e ainda escuto uma única música que ainda se repete, uma música tão serena quanto a morte nos performa ser, mas ao mesmo tempo destruidora, capaz de arrancar violentamente a mais sincera lágrima do último bruto insensível. Escuto um bater suave na minha porta. É a Morte, tenho certeza! E tenho uma visão: ela está cercada de nuvens negras, com olhos de estrelas a me julgarem nesse último momento. Abrir a porta é selar aquele contrato de entrega sereno com o meu destino. Morrer é saber que cumpri aquilo que me propus. É saber que por mais que não tenha lido, conhecido ou vivido tudo, li, conheci e vivi o suficiente para este momento, e que a entrega será sincera acima de qualquer coisa. Não me esperem, vou atender a porta. Os próximos relatos serão de depois do caixão. Não chorem, não praguejem, não se perturbem, só aceitem, é meu último e verdadeiro pedido. Não chorei, não praguejei ou me perturbei, simplesmente aceitei o último e verdadeiro pedido da vida: a morte.

Corvo

Muitas vezes não consigo distinguir o sonho da realidade. Fatos tão verossímeis são sonhados e os incríveis são vividos. Passei há alguns anos a conceber a vida como o improvável e a não distinção entre o sonho e a realidade é consequência voraz dessa atitude. Tudo o que conto, é sonho ou realidade? Quero deslocar essa pergunta: é realmente importante? Tudo é parte da minha vivência em improbabilidade insensata do ser. Acordei de um sonho vívido. Meus pés ainda formigavam, meus dedos da mão se moveram, meus olhos se abriram. Teto, armário, ruído do ventilador. Acho que era a realidade.

Virei meu rosto e meu quarto estava ali, inteiro, os livros como que dependurados nas prateleiras, alguns filósofos segurando outros por páginas riscadas ou com as orelhas dobradas, velhos hábitos de leitura. Alguns livros, a maioria presentes, intocados, as pessoas não sabem o que eu leio ou querem que eu não leia a morbidez da vida, ficam como mortos, defuntos desalmados, sonolentos, sem movimento. Minha escrivaninha entulhada de papeis, escritos pela metade, livros por ler, meu computador ainda ligado, algumas janelas abertas das aventuras noturnas pela virtualidade, e eu ainda fico na dúvida qual a pergunta mais importante: sonho ou realidade? Ou isto é realmente importante? Ficar de pé pela primeira vez no dia é o meu ato de agradecimento. Não preciso me ajoelhar ou mesmo fechar os olhos. Me levantar é a vitória da desnecessidade sobre impossibilidade de existir.

Tudo estava no lugar, não havia nenhuma salamandra ou sombras fantasmáticas andando pelo quarto. Acho que é a realidade. Apesar de que ontem eu vi duas larvas subindo pela minha janela, vai começar a temporada de salamandras novamente.

Café da manhã, hábito sagrado, sem ele o dia não começa. E sagradamente, ele sempre está sobre a mesa. Sair do meu quarto é invadir território inimigo, é deixar-se ser julgado por todos, pelos mínimos atos, é abandonar o refúgio e expor-se ao perigo. A mesa do café não estava posta, que horas seriam? Ao invés do usual pão integral, leite desnatado e manteiga light, havia uma gaiola. Ainda acho que era a realidade. Dentro dela um corvo negro me olhando. Antes da minha entrada claudicante pela sala, ele estava sereno, me olhou profundamente nos olhos por poucos segundos e depois começou a se debater como eu fosse seu algoz. Uma tesoura prateada estava ali ao lado da gaiola. E como se eu soubesse o que havia de ser feito, me aproximei, colocando meus dedos no cabo da tesoura enquanto minha outra mão abria o fecho da gaiola. O corvo cessou e me olhou mais uma vez. Desta vez mais profundamente, desta vez me inserenando. Testei o corte da tesoura no ar, o corvo saia da gaiola como a ir para seu fatídico destino. Minha mão segurou seu pescoço de uma forma delicada, não tentou nenhuma vez me bicar. Ainda era a realidade? A tesoura guiou-se sozinha até uma das asas do corvo que se abria como parte de um ritual que estava por se realizar. Cortei de uma só vez as penas. Este corvo não voaria mais. A outra asa se entregou, e a tesoura ainda derrubando as penas picadas iniciou o corte das outras penas. Tirei a mão do pescoço do corvo e ele bateu as duas asas a ensaiar um voo. Obviamente não conseguiu. Me olhou mais uma vez, com e sem serenidade. Uma lágrima verteu-se... Só não posso contar de que olhos, se dos meus ou dos do corvo.

Aquele pássaro não voaria mais, eu não saberia mais a diferença entre a realidade e o sonho. Um símbolo, ou a metade de um segredo me foi entregue naquele momento. Fica, agora, somente a busca insana pelo seu significado, pela sua outra metade. E eu estava ali, entregue ao olhar do corvo. Acho que era um sonho. Acho que era a realidade.

As peles do sonho

Gostava de sonhar com o realizável. Grande mentira, como muitas outras coisas eram mentiras. Sonhava, e muito, da mesma forma que mentia. Desejava ardentemente tudo o que havia de mais recôndito nele, porém certos sonhos são um tanto impossíveis, começou a sonhar somente com o realizável, como uma maneira de se conformar. Nova mentira, como tantas outras. Seu sonho mais secreto que no começo era o mais revelador sobre sua personalidade, foi soterrado por peles e peles de realidade, uma que é brutal, que o podava, que o tornava cada vez menor, mesmo sendo quem fosse... mas a realidade não é a mesma raiz de realizável? Era exatamente o que ele pensava, ou se fez pensar.

Ao bisturi, vamos vazar uma das peles desse sonho, casado há mais de cinco anos, sem muitas esperanças ou mesmo gozos, sentou em sua poltrona e abriu um dos livros em pilhas sobre o aparador que ali descansavam dos seus olhos vorazes. Os livros que lia ultimamente o convidavam para um inegável juízo sobre a invalidade da vida. Mas não, ele não poderia se matar, um sonho realizável era o de se separar, ou mesmo matar sua abastada e insossa esposa, uma realidade realizável. A faca já esteve em sua mão. Três vezes, minto também, muito mais vezes do que posso contar, como numa rápida valsa que os iniciantes tocam no piano a faca foi e voltou tantas vezes quanto foram necessárias, mas esta valsa ainda não havia terminado, o grande final que esperamos dela era o assassínio, mas ele não aconteceu, ficou como um gozo interrompido. 

Outra pele e muito sangue, ao se separar sonhara com uma vida um tanto mais tranqüila, somente ele e seus livros, sem as desnecessárias soirées no meio social em que teve que aprender a (con)viver. Abastado de champagna, queria pinga. Abastado de virtudes, queria os vícios. Por vezes, com alguma sorte encontrava um marido parecido consigo, marido desejável neste mundo de futilidades, e se atrevia a uma troca de sentidos absurdos até mesmo impensáveis naqueles ambientes. Aproximou-se dele sem muito o que falar, pegou um canapé e abriu a boca, “Você é marido de quem?” O nomes sonoros quase impronunciáveis da esposa impunham respeito, somente aquele necessário, ainda mais com a boca cheia de canapés. A mesma pergunta foi feita por ele, e o nome da esposa dele, também impronunciável, demonstrou que estavam na mesma situação, nem acima nem abaixo um do outro, gêmeos siameses separados na maternidade. Finalmente seus nomes próprios poderiam ser ditos, poderiam fazer algum sentido, mesmo que absurdo, nenhum estava abaixo um do outro, ou mesmo do lado, estavam sobre-escritos, Jean. Riram da coincidência e se fartaram de canapés. Discutiram filosofia e mofavam do estado em que suas vidas se encontravam. Gostavam do tempo que tinham para si, mas odiavam a falta de si-mesmidade que almejavam. Jean olhou profundamente nos olhos de Jean. Jean sorriu e Jean corou. Selaram ali mesmo na absurdidade, na miséria de si mesmos, um acordo, um acordo impensável para aquele ambiente. “No jardim em dez minutos”, essa sentença não precisou ser enunciada, estava escrita nos olhos e nas maçãs dos rostos corados. Correram até suas esposas, falsamente risonhas ao tentarem lembrar-se das amigas menos importantes e de seus respectivos e desimportantes maridos. Eles socializaram alguns sorrisos, como a dizer que estavam acostumados àquela (sobre)vivência. E se despediram. “Vou até o jardim”, esta sentença, sim, foi pronunciada em alto e bom som, suas esposas não sabiam ler sorrisos ou bochechas coradas... Eis que aqui temos o órgão que estávamos procurando, ele ainda pulsa, mas está fraco. Infelizmente, podemos fechar e costurar os pontos.

Sentado em sua poltrona, matou mais um livro. Matou mais um sonho. Não permitiu se matar, por mais uma vez. Pelo simples prazer do caos, um pequeno gosto(so), empurrou a pilha de livros do aparador. Viu todos caírem lentamente, abrirem-se, estragarem-se, as páginas de uma raridade da década de 40 até se soltaram soltando um pó guardado ali, liberando o fantasma pestilento dos seus sentidos. Quantos sonhos não realizados aquelas páginas já não alimentaram? Quantos maridos insonháveis ele não viu passar os olhos sobre suas páginas? Evidência sobre evidência, tudo era o mesmo pó, fantasmático sinal da mesmice(dade). Guardados ali, sob a custa de muitas noites de infelicidade.

Levantou-se da cadeira e permitiu-se a coragem de realizar esse sonho de liberdade. A separação seria a sua possibilidade de ser quem sempre almejou, e Jean, o outro, poderia estar ali fora, à porta, na possibilidade de dizer que fez o mesmo. Porém, segundos depois se sentou, catou os livros do chão antes que ela chegasse e (o)brigasse com ele pela bagunça na impecável biblioteca cheia de raridades-fantasmáticas. Por que não se permitia morrer de verdade? Entregar-se a toda aquela invivibilidade não era o mesmo que a morte? Não. Seu sonho mais secreto, aquele mais revelador, órgão pulsante mas frágil, não poderia ser realizado. A vontade de ser absolutamente nada, não era para ele. Sendo quem fosse ele está ali, a beira do realizável, dentro da realidade. Sua nulidade deveria ser plena para que este sonho se realizasse, mas nunca seria. Escrevera livros demasiadamente. Era suficientemente importante para fazer falta aos poucos acadêmicos que o liam com uma determinada paixão, fingida de respeito. Sua niilidade seria quase nula, e isso não era seu sonho. Não poderia ser nada sendo quem era. Então se oprimia com sua própria (sobre)vivência. Era uma maneira de se punir por ser quem era. Por tentar fazer o suficiente para marcar a própria realidade com a sua presença espectral. Burrice. Isso sim, verdade, sem um pingo de mentira. Sonhava com o irrealizável: anular sua própria história sem ser percebido. Jean, ele mesmo e o outro poderiam estar ali fora no jardim, vivendo sonhos impossíveis sem nenhuma pele como fantasmas, mas ele, ele mesmo, não, estava lá dentro, sendo quem era, sonhando com o impossível. 

Soprador de Espectros

Soprar espectros não é um hábito comum. Somente aqueles que atingiram uma pequena visão sobre a miséria humana podem fazer com certa precisão. Não há rituais, nem livros sobre. É algo que se aprende com a sabedoria de lamber cadáveres, num ângulo não imaginado, numa postura antirrespeitosa com a memória do defunto. Que defunto tem memória? A não ser seu próprio corpo jogado ao relento? E ele só lambia defuntos que estavam ali, sem esperança. Entretanto, não é difícil de achá-los.

Para ele, caminhar pelo parque é como caminhar num cemitério depois de um dilúvio, os corpos ficam jogados pelo caminho como flores desaguadas, pernas para fora da terra, dedos apontando um desejo para o céu, um céu tenebroso cheio de nuvens negras sem olhos a piscarem a mínima esperança. Ele olhou cada um dos corpos com ardor, sua mente fervilhava sua única possibilidade de existência, a de soprador de espectros. Alguns corpos já tinham seus donos, imitadores que buscavam o mesmo insano prazer, porém aquele prazer só pertencia a ele. Lamber cadáveres é uma ciência rara, revelada a poucos egípcios. Um mistério ainda não decifrado pelos homens cadavéricos. Andou e olhou mais um pouco, e com o gosto do sangue coagulado em sua boca previu de longe aquele que seria a sua vítima do dia.

A aproximação não tinha nenhuma afobação. Não precisava. Aquele cadáver não poderia ser possuído por mais ninguém além dele, os seus destinos estavam já ligados pelo profundo desejo, misteriosamente, todos sabiam que não poderiam ter aquele mais precioso resto humano exposto no ato do descuido.

O parque havia se tornado uma luxuriosa tentação, mortos sendo insabiamente absorvidos, mas a grande performance estava por acontecer, todos sabiam, e esperavam a imponência do ato. Seus passos eram lentos, como parte de um leve caminhar, que só tornava o desejo mais e mais ardoroso. Todos já estavam seduzidos por aqueles passos sinceros em direção do corpo mais cobiçados de todos. Toda aquela inveja alimentava mais e mais o ato. Transformando o único no inadmissível. Há poucos passos do objetivo, já não havia mais barulho nenhum ao redor, era o respeito pela magnanimidade do ocorrido.

Seus lábios não salivavam, estavam secos pela sede do espectro que ali jazia. Seus lábios carnudos lentamente se abriram e todos os assistentes também abriam seus próprios lábios a compartilhar de uma forma improvável somente o desejo de possuir. O cadáver moribundo deitado na grama nem suspeitou de seu implacável destino, não sabia o que iria acontecer, não previa seu futuro, como não possuía memória.

Suas mãos, de dedos atrofiados, quase que abraçaram o corpo já gélido, já alvo, já insereno. Erguendo lentamente o corpo, ele nem precisou se abaixar, seus braços longilíneos faziam o serviço de aproximar o umbigo do cadáver dos seus lábios. Sua língua pela primeira vez roçou seus lábios, como a preparar a arma para o bote. O silêncio local tornou-se mais inesperado com todos segurando suas respirações pelo gozo final do ato.

O beijo inapropriado no umbigo, leve e de olhar vazio, possuiu o corpo de algo menos provável que a vida, mais insaciável que a morte. Há fantasmas e há espectros. E o espectro é único, cheio de nada e presente em nossa desvairada visão. Soprar espectros era um ato invasável.

Muitos nem conseguiam olhar para o beijo completo, sentiam-se tão menores, tão desejosos de serem a próxima sua vítima, como se ele fosse um libertador, como se fosse um salvador. Era e não era, tornar-se espectro é entrar em um estado único, diferente do nirvana, da ascensão, da compreensão da divindade, da verdade, é estar no entre-lugar na inecessidade. Onde não há misericórdia, onde não há paixão, onde só há espectralidade.

O beijo não dura muito. É um ato feito com desleixo. Ele sabia como fazê-lo, e não via ali nenhuma admiração. Somente saciava sua fome, e entregava de presente ao mundo mais um espectro. Terminou o beijo e o tempo voltou a correr. Seus olhos ainda vazios, ao olhar ao redor não viu nada além do parque, ninguém ali o olhava. A nudez do seu ato era solitária como ele.

Algo ali se transformou profundamente dentro do seu ser. Sua garganta se contorcia como se algo quisesse sair, sua barriga flácida se agitava como se alguém ali estivesse se debatendo em desespero inútil. Seus olhos se avermelharam como se seus órgãos internos tivessem se rompido. Sua boca se abre como que automaticamente e de lá, algo presente-ausente saiu. Rompendo a própria lógica da existência. Mais um espectro, a própria impropriedade da vida, existia ao não existir. E ele? Ele continuava seu caminhar, leve e inviável até o próximo cadáver, que poderia estar ali mesmo, ou distante, fator que não faria diferença alguma, nada poderia deter seu caminhar, sua existência também era a própria espectralidade.



Temperança

a Fabiana


O emaranhado de sentidos que eu represento é desconcertante. Muitas vezes me dá dor de cabeça em ser como sou, pensar como penso, sentir o que sinto, imaginar o que imagino. Muitas vezes deito em minha cama, a janela aberta permitindo que a ilusão solar entre e faça dos meus olhos embaçados. Deitado em minha cama com uma dor insuportável na parte detrás da minha cabeça, fecho os olhos para parar de ver e ilusão e começar a imaginá-la. O vento momentaneamente estagnou, o mormaço definitavamente subiu e uma gota de suor desceu riscando minha testa, escorrendo pelo meu nariz até dar a volta pela minha boca e saltar pelo meu queixo.
Ao abrir os olhos, ela estava ali, flutuando em minha frente, vestido vermelho, uma flor no cabelo, os cabelos lisos e negros completavam o conjunto que não me impressiou. Dos seios fartos retirou um tarot ao qual misturou as cartas cuidadosamente, mesmo sem olhar para suas mãos, visto que seus olhos fitavam os meus. Tento lembrar o que se passou em minha mente naquele momento, mas a certeza é que nada se passou, tudo parecia tão natural que não fiquei chocado ou mesmo ansioso. Era somente uma cigana flutuando em minha frente, embaralhando seu tarot. Nada de mais, nada com que eu não pudesse lidar.
A cigana depois de um longo embaralhar e de um longo olhar me ofereceu o baralho em leque, seus olhos requeriam que eu retirasse uma carta, sem palavras. Entrei no jogo, apesar de não acreditar em nenhum rito advinhatório. Lembro do desenho da carta, uma cigana com dois jarros um transmitindo água para o outro. Lembro também do número, XIV. A cigana tocou minha testa e se foi. A dor momentaneamente passou, visto que é incurável.
Por muito tempo esqueci o fato, até ter a primeira oportunidade de ver um baralho de tarot. Foi um leão que o trouxe até mim. Primeiro entrou o leão pela minha sala, sem cerimônia, a anunciar a presença de sua protegida. A campanhia tocou e ela entrou com o baralho em mãos. Eu não podia tocá-lo, estava limpo. Só pude apreciar cada uma das cartas a distância. Até chegar ao número XIV, e me extasiar com o fato de o desenho bater exatamente com o número, mesmo nunca vendo um tarot antes. Como saberia qual o desenho da carta? Como eu saberia quantas cartas tem um tarot? O fato é que a carta se chama Temperança. Pedi ajuda para entender a carta, alguns fatos se conectaram pela força do discurso. Não acreditei no começo. Mas o tempo age morto. E mortalmente a carta e seu conselho se provou necessário. Porém, eu sou teimoso, fiz o reverso para provar o verso. Muitos versos ainda estão por compor essas breves narrativas, somente não sei se esse emaranhado de sentidos que sou, vão se enovelar cuidadosamente e tecer um filigrama precioso.

Da merda exposta

Quando acordei me achei numa caixa de vidro. Nu, sinceramente despido de qualquer pudor, necessariamente indiscreto em cada detalhe. Primeiramente me achei sozinho, mas foi na percepção dos vermes a minha volta, das bactérias, dos vírus e dos espectros que começei a perceber os outros. Insinceramente, necessariamente me olhavam, exposto.
Não me lembro exatamente do dia em que me expuseram, é como se algo tivesse sido apagado da minha memória, para que aquela situação se tornasse tão atípica e perigosamente suplementar a ponto de me fazer pensar que eu me expuz, eu me levei até aquela situação. Como se eu quisesse me mostrar, mostrar para o mundo quem eu realmente sou, quais os meus desejos, minhas necessidades, meus medos. Minha merda estava alí apodrecendo ao ar livre para que todos pudessem apreciar o embrião de minha própria destruição. Eu não me expuz... não construi essa caixa de vidro com minhas próprias mãos, construíram para mim, me enformaram ali, envasado cresci ali, em busca de sol... em busca de exposição a luz do dia... Aos olhos de todos, ao nariz de todos, aos ouvidos de todos. Eu juro que não me expuz. Foram eles, eles que me colocaram ali, me despiram, me fizeram cagar ao ar livre e não poder esconder o que há de mais íntimo, nem eu mesmo olhava para o que restava de mim no vaso, baixava a tampa ao me levantar sem olhar e apertava a descarga com um gosto supremo de controle total sobre a baixeza do mundo mundo escatológico.
De dentro da caixa eu não conseguia ouvir os viventes que falavam, mas seus gestos, suas expressões me demostravam desprezo, nojo, admiração ou pena. Mostravam para minha mente, pois não podia ouví-los e ter a certeza do que realmente diziam. Nunca saberei a verdade, sua mão poderia conter o vômito que pretendia sair de sua boca, mas sua mente poderia estar saltitante de curiosidade sobre a minha merda exposta.
Me matei da maneira mais corajosa, utilizei a mais vil de todas as armas: as palavras. Gritei palavrões ao remexer minha genitália para os incautos. Mordi meus próprios dedos até sangrarem e escrevi o nome de cada um que me observava nas paredes da caixa de vidro, mas tenho certeza que via seus nomes de dentro da caixa, mas eles viam meus nomes de fora. As palavras e os atos expostos, todos foram me matando conscientemente, e não morri, demorri em vegetal exposto em busca de sol, envasado em minha própria condição humana animalizada pela insurdecedora praticidade de ser eu, inteiramente um ato exposto total.

Obra póstuma

Hoje eu acordei morto. E de agora em diante, tudo o que escrevo é póstumo. Uma retrovisão do futuro presente. De tantos acidentes enigmáticos que reaconteceram em minha mísera existência que acabou neste instante não posso me tornar machadiano e dar em negativas a avaliação de minha vida. Devo ter feito diferença a uma borboleta negra em qualquer estação. De todos os amores que tive, de todas as sombras que me envolveram, de tudo o que deixei por fazer, nada me compromete mais do que a necessidade da (in)existência de mim mesmo. Re(volto) para mim, neste último instante eterno que se prolongará. Infelizmente terão que aturá-lo, indefinitivamente. Morte em conceito total. Que os alemães não estejam aqui para me escutar e ver seus castelos de areia desmoronando com a onda que próprio me tornei. Contar minha morte é revelar todos os meus segredos, é impor a ti tudo o que estava escondido entredito interdito em tudo o que escrevi, durante todos esses anos. Portanto, minha morte há de permanecer vazia. Sem velório, sem choro. Estou aqui ainda, espectro, presente e ausente na mesma (des)proporção. Viajei entre as nuvens, vendo seus olhos, fui carregado por anjos, cantores cantaram ao pé do meu ouvido, me entreguei severamente e cegamente em amores desnecessários, desvirtuados. Chorei pouco, confesso, mas chorei sinceramente. Colhi rosas brancas, me tornei o próprio demônio de mim mesmo a derreter no inferno de mim mesmo. Fui analisado pesadamente até a última célula e nada descobriram, ainda falta a parte do meu segredo que permaneceu e permanece ainda aqui. Poucos tolos a conhecem e não reconhecerão seu significado. Desvirtuose ascensão intencional. De tanta vontade de reconhecer as misérias humanas, acabo me reconhecendo como A Pequena Miséria Humana. Segundos antes do fato mortífero que atacou, vi o filme de minha vida. Meus pais, minha avó, meus amores e meus desamores. Vi a ti. Heroísmos, falsidades, borrões. Meu filme não me comoveu, como tudo o que escrevi não fez diferença para ninguém, exceto para aquela borboleta de estação desconhecida. Entrego a ti, somente meu testamento, sem nenhuma alteração, é só vir e buscar as partes que te interessam. Estou. Estado insano virtual. Nada mais me interessa, muito menos o humano. Me desumanizo em função de minha própria espectralidade.

Morte

Para Junior

Em tempos esquecidos, Manonos, dedicado servo de Lug, o habilidoso, sentou-se em uma árvore de um bosque qualquer. Lá os pensamentos se postaram pesadamente em sua cabeça, sentiu o peso da responsabilidade de tudo o que aprendera em tão longo tempo de esforço em ser o diferencial em sua tribo. Passou pelo velho treinamento de todo e qualquer carvalho, cantou as canções, decorou as historietas, viu o passado, vaticinou o futuro, e finalmente foi iniciado na arte da morte. Cortou cabeças em válidos rituais insanos, banhados de um sangue sagrado, cortou sua própria garganta, e a viu secar em poucos minutos ao ser sugado por seus asseclas. Sem sangue sobreviveu durante vários dias e noites secretas. Até retornar a sua tribo e ser ovacionado como um pequeno herói, igual a todos aqueles que sobrevivem ao velho ritual da ascensão da consciência total.

Consciente de seu futuro, foi chamado a guerra, aquela guerra tão bem descritas pelo Cezar e seus historiadores. Presenciou o futuro, e não viu nada. Lembrou-se da morte. Não temeu. Colheu sua última plantação. Juntou os grãos, beijou sua esposa, seus filhos, olhou uma última vez para seu amante. Emprestou muitos fardos para seu sogro, com a promessa de devolução nesta ou em outra vida. Não tinha nada a temer. Morreria somente para os homens, e voltaria a viver para os homens. Tinha consciência total de seu futuro.

Na guerra, lutou ferozmente, não temia um só inimigo. Com os olhos vidrados cortou gargantas como no ritual sagrado, sem divindades. Vislumbrou as penas vermelhas da morte, lutou porque tinha que lutar. Seus companheiros de guerra recuaram. Excetos aqueles que receberam os mesmo trato que ele nos bosques esquecidos. E eles lutaram contra uma centúria completa. General por general, Manonos teve seu coração perfurado pelas lanças da águia. Não trazia gibão consigo, não precisava. Lug lhe deu toda a habilidade necessária, se não tivesse toda a habilidade para aquela batalha seria ali que morreria. E morreu.

Os campos funerários em que hoje estou, não se encheram de nenhuma tristeza. Manonos recebeu o título de o Inconsequente. Certamente sorriu, a batalha não foi perdida. Sua morte foi celebrada, como se celebra a vida.

Aprendo com o túmulo de Manonos que eu sou ele. E ele é eu. Sempre acreditei na vida eterna, cheia de compromissos e verdades. Somente temia a dor da morte. Mas Manonos não a temia. Meu sogro, hoje um amigo, não me devolveu nenhum fardo de seu empréstimo, espero o quanto for necessário. Lug se tornou todos os meus estudos e todas as habilidades que tenho, ainda sou de muitas formas devoto a ele. Fiel a causa de ser tudo o que posso ser, sou diferencial em diferência. A dor também se apagou, ao presenciar o passado sob meus pés. Aberto o túmulo vi ali uma carta entregue em minhas mãos. Hieróglifos traduzidos pela morte. Uma última instância em vida.

Tudo que é trazido a mim pelos meus ouvidos não me perturbam mais. O que me perturba é minha consciência total e o pouco respeito por aqueles que não a possuem. Verdades a parte, pois não existem. Vivo a cada momento, presentificando passado e futuro num mesmo instante espacial. Assusto a qualquer mortal com a fome de destruição que aprendi a me felicitar. Choro em gozo voraz. Querem saber da minha morte? Posso lhe dizer que acontece todos os dias em que sento num bosque qualquer, debaixo ou em cima de qualquer árvore e sinto aquele peso sobre minha cabeça. Inconsequentemente vivo a morte.