Soprador de Espectros

Soprar espectros não é um hábito comum. Somente aqueles que atingiram uma pequena visão sobre a miséria humana podem fazer com certa precisão. Não há rituais, nem livros sobre. É algo que se aprende com a sabedoria de lamber cadáveres, num ângulo não imaginado, numa postura antirrespeitosa com a memória do defunto. Que defunto tem memória? A não ser seu próprio corpo jogado ao relento? E ele só lambia defuntos que estavam ali, sem esperança. Entretanto, não é difícil de achá-los.

Para ele, caminhar pelo parque é como caminhar num cemitério depois de um dilúvio, os corpos ficam jogados pelo caminho como flores desaguadas, pernas para fora da terra, dedos apontando um desejo para o céu, um céu tenebroso cheio de nuvens negras sem olhos a piscarem a mínima esperança. Ele olhou cada um dos corpos com ardor, sua mente fervilhava sua única possibilidade de existência, a de soprador de espectros. Alguns corpos já tinham seus donos, imitadores que buscavam o mesmo insano prazer, porém aquele prazer só pertencia a ele. Lamber cadáveres é uma ciência rara, revelada a poucos egípcios. Um mistério ainda não decifrado pelos homens cadavéricos. Andou e olhou mais um pouco, e com o gosto do sangue coagulado em sua boca previu de longe aquele que seria a sua vítima do dia.

A aproximação não tinha nenhuma afobação. Não precisava. Aquele cadáver não poderia ser possuído por mais ninguém além dele, os seus destinos estavam já ligados pelo profundo desejo, misteriosamente, todos sabiam que não poderiam ter aquele mais precioso resto humano exposto no ato do descuido.

O parque havia se tornado uma luxuriosa tentação, mortos sendo insabiamente absorvidos, mas a grande performance estava por acontecer, todos sabiam, e esperavam a imponência do ato. Seus passos eram lentos, como parte de um leve caminhar, que só tornava o desejo mais e mais ardoroso. Todos já estavam seduzidos por aqueles passos sinceros em direção do corpo mais cobiçados de todos. Toda aquela inveja alimentava mais e mais o ato. Transformando o único no inadmissível. Há poucos passos do objetivo, já não havia mais barulho nenhum ao redor, era o respeito pela magnanimidade do ocorrido.

Seus lábios não salivavam, estavam secos pela sede do espectro que ali jazia. Seus lábios carnudos lentamente se abriram e todos os assistentes também abriam seus próprios lábios a compartilhar de uma forma improvável somente o desejo de possuir. O cadáver moribundo deitado na grama nem suspeitou de seu implacável destino, não sabia o que iria acontecer, não previa seu futuro, como não possuía memória.

Suas mãos, de dedos atrofiados, quase que abraçaram o corpo já gélido, já alvo, já insereno. Erguendo lentamente o corpo, ele nem precisou se abaixar, seus braços longilíneos faziam o serviço de aproximar o umbigo do cadáver dos seus lábios. Sua língua pela primeira vez roçou seus lábios, como a preparar a arma para o bote. O silêncio local tornou-se mais inesperado com todos segurando suas respirações pelo gozo final do ato.

O beijo inapropriado no umbigo, leve e de olhar vazio, possuiu o corpo de algo menos provável que a vida, mais insaciável que a morte. Há fantasmas e há espectros. E o espectro é único, cheio de nada e presente em nossa desvairada visão. Soprar espectros era um ato invasável.

Muitos nem conseguiam olhar para o beijo completo, sentiam-se tão menores, tão desejosos de serem a próxima sua vítima, como se ele fosse um libertador, como se fosse um salvador. Era e não era, tornar-se espectro é entrar em um estado único, diferente do nirvana, da ascensão, da compreensão da divindade, da verdade, é estar no entre-lugar na inecessidade. Onde não há misericórdia, onde não há paixão, onde só há espectralidade.

O beijo não dura muito. É um ato feito com desleixo. Ele sabia como fazê-lo, e não via ali nenhuma admiração. Somente saciava sua fome, e entregava de presente ao mundo mais um espectro. Terminou o beijo e o tempo voltou a correr. Seus olhos ainda vazios, ao olhar ao redor não viu nada além do parque, ninguém ali o olhava. A nudez do seu ato era solitária como ele.

Algo ali se transformou profundamente dentro do seu ser. Sua garganta se contorcia como se algo quisesse sair, sua barriga flácida se agitava como se alguém ali estivesse se debatendo em desespero inútil. Seus olhos se avermelharam como se seus órgãos internos tivessem se rompido. Sua boca se abre como que automaticamente e de lá, algo presente-ausente saiu. Rompendo a própria lógica da existência. Mais um espectro, a própria impropriedade da vida, existia ao não existir. E ele? Ele continuava seu caminhar, leve e inviável até o próximo cadáver, que poderia estar ali mesmo, ou distante, fator que não faria diferença alguma, nada poderia deter seu caminhar, sua existência também era a própria espectralidade.



Temperança

a Fabiana


O emaranhado de sentidos que eu represento é desconcertante. Muitas vezes me dá dor de cabeça em ser como sou, pensar como penso, sentir o que sinto, imaginar o que imagino. Muitas vezes deito em minha cama, a janela aberta permitindo que a ilusão solar entre e faça dos meus olhos embaçados. Deitado em minha cama com uma dor insuportável na parte detrás da minha cabeça, fecho os olhos para parar de ver e ilusão e começar a imaginá-la. O vento momentaneamente estagnou, o mormaço definitavamente subiu e uma gota de suor desceu riscando minha testa, escorrendo pelo meu nariz até dar a volta pela minha boca e saltar pelo meu queixo.
Ao abrir os olhos, ela estava ali, flutuando em minha frente, vestido vermelho, uma flor no cabelo, os cabelos lisos e negros completavam o conjunto que não me impressiou. Dos seios fartos retirou um tarot ao qual misturou as cartas cuidadosamente, mesmo sem olhar para suas mãos, visto que seus olhos fitavam os meus. Tento lembrar o que se passou em minha mente naquele momento, mas a certeza é que nada se passou, tudo parecia tão natural que não fiquei chocado ou mesmo ansioso. Era somente uma cigana flutuando em minha frente, embaralhando seu tarot. Nada de mais, nada com que eu não pudesse lidar.
A cigana depois de um longo embaralhar e de um longo olhar me ofereceu o baralho em leque, seus olhos requeriam que eu retirasse uma carta, sem palavras. Entrei no jogo, apesar de não acreditar em nenhum rito advinhatório. Lembro do desenho da carta, uma cigana com dois jarros um transmitindo água para o outro. Lembro também do número, XIV. A cigana tocou minha testa e se foi. A dor momentaneamente passou, visto que é incurável.
Por muito tempo esqueci o fato, até ter a primeira oportunidade de ver um baralho de tarot. Foi um leão que o trouxe até mim. Primeiro entrou o leão pela minha sala, sem cerimônia, a anunciar a presença de sua protegida. A campanhia tocou e ela entrou com o baralho em mãos. Eu não podia tocá-lo, estava limpo. Só pude apreciar cada uma das cartas a distância. Até chegar ao número XIV, e me extasiar com o fato de o desenho bater exatamente com o número, mesmo nunca vendo um tarot antes. Como saberia qual o desenho da carta? Como eu saberia quantas cartas tem um tarot? O fato é que a carta se chama Temperança. Pedi ajuda para entender a carta, alguns fatos se conectaram pela força do discurso. Não acreditei no começo. Mas o tempo age morto. E mortalmente a carta e seu conselho se provou necessário. Porém, eu sou teimoso, fiz o reverso para provar o verso. Muitos versos ainda estão por compor essas breves narrativas, somente não sei se esse emaranhado de sentidos que sou, vão se enovelar cuidadosamente e tecer um filigrama precioso.

Da merda exposta

Quando acordei me achei numa caixa de vidro. Nu, sinceramente despido de qualquer pudor, necessariamente indiscreto em cada detalhe. Primeiramente me achei sozinho, mas foi na percepção dos vermes a minha volta, das bactérias, dos vírus e dos espectros que começei a perceber os outros. Insinceramente, necessariamente me olhavam, exposto.
Não me lembro exatamente do dia em que me expuseram, é como se algo tivesse sido apagado da minha memória, para que aquela situação se tornasse tão atípica e perigosamente suplementar a ponto de me fazer pensar que eu me expuz, eu me levei até aquela situação. Como se eu quisesse me mostrar, mostrar para o mundo quem eu realmente sou, quais os meus desejos, minhas necessidades, meus medos. Minha merda estava alí apodrecendo ao ar livre para que todos pudessem apreciar o embrião de minha própria destruição. Eu não me expuz... não construi essa caixa de vidro com minhas próprias mãos, construíram para mim, me enformaram ali, envasado cresci ali, em busca de sol... em busca de exposição a luz do dia... Aos olhos de todos, ao nariz de todos, aos ouvidos de todos. Eu juro que não me expuz. Foram eles, eles que me colocaram ali, me despiram, me fizeram cagar ao ar livre e não poder esconder o que há de mais íntimo, nem eu mesmo olhava para o que restava de mim no vaso, baixava a tampa ao me levantar sem olhar e apertava a descarga com um gosto supremo de controle total sobre a baixeza do mundo mundo escatológico.
De dentro da caixa eu não conseguia ouvir os viventes que falavam, mas seus gestos, suas expressões me demostravam desprezo, nojo, admiração ou pena. Mostravam para minha mente, pois não podia ouví-los e ter a certeza do que realmente diziam. Nunca saberei a verdade, sua mão poderia conter o vômito que pretendia sair de sua boca, mas sua mente poderia estar saltitante de curiosidade sobre a minha merda exposta.
Me matei da maneira mais corajosa, utilizei a mais vil de todas as armas: as palavras. Gritei palavrões ao remexer minha genitália para os incautos. Mordi meus próprios dedos até sangrarem e escrevi o nome de cada um que me observava nas paredes da caixa de vidro, mas tenho certeza que via seus nomes de dentro da caixa, mas eles viam meus nomes de fora. As palavras e os atos expostos, todos foram me matando conscientemente, e não morri, demorri em vegetal exposto em busca de sol, envasado em minha própria condição humana animalizada pela insurdecedora praticidade de ser eu, inteiramente um ato exposto total.

Obra póstuma

Hoje eu acordei morto. E de agora em diante, tudo o que escrevo é póstumo. Uma retrovisão do futuro presente. De tantos acidentes enigmáticos que reaconteceram em minha mísera existência que acabou neste instante não posso me tornar machadiano e dar em negativas a avaliação de minha vida. Devo ter feito diferença a uma borboleta negra em qualquer estação. De todos os amores que tive, de todas as sombras que me envolveram, de tudo o que deixei por fazer, nada me compromete mais do que a necessidade da (in)existência de mim mesmo. Re(volto) para mim, neste último instante eterno que se prolongará. Infelizmente terão que aturá-lo, indefinitivamente. Morte em conceito total. Que os alemães não estejam aqui para me escutar e ver seus castelos de areia desmoronando com a onda que próprio me tornei. Contar minha morte é revelar todos os meus segredos, é impor a ti tudo o que estava escondido entredito interdito em tudo o que escrevi, durante todos esses anos. Portanto, minha morte há de permanecer vazia. Sem velório, sem choro. Estou aqui ainda, espectro, presente e ausente na mesma (des)proporção. Viajei entre as nuvens, vendo seus olhos, fui carregado por anjos, cantores cantaram ao pé do meu ouvido, me entreguei severamente e cegamente em amores desnecessários, desvirtuados. Chorei pouco, confesso, mas chorei sinceramente. Colhi rosas brancas, me tornei o próprio demônio de mim mesmo a derreter no inferno de mim mesmo. Fui analisado pesadamente até a última célula e nada descobriram, ainda falta a parte do meu segredo que permaneceu e permanece ainda aqui. Poucos tolos a conhecem e não reconhecerão seu significado. Desvirtuose ascensão intencional. De tanta vontade de reconhecer as misérias humanas, acabo me reconhecendo como A Pequena Miséria Humana. Segundos antes do fato mortífero que atacou, vi o filme de minha vida. Meus pais, minha avó, meus amores e meus desamores. Vi a ti. Heroísmos, falsidades, borrões. Meu filme não me comoveu, como tudo o que escrevi não fez diferença para ninguém, exceto para aquela borboleta de estação desconhecida. Entrego a ti, somente meu testamento, sem nenhuma alteração, é só vir e buscar as partes que te interessam. Estou. Estado insano virtual. Nada mais me interessa, muito menos o humano. Me desumanizo em função de minha própria espectralidade.

Morte

Para Junior

Em tempos esquecidos, Manonos, dedicado servo de Lug, o habilidoso, sentou-se em uma árvore de um bosque qualquer. Lá os pensamentos se postaram pesadamente em sua cabeça, sentiu o peso da responsabilidade de tudo o que aprendera em tão longo tempo de esforço em ser o diferencial em sua tribo. Passou pelo velho treinamento de todo e qualquer carvalho, cantou as canções, decorou as historietas, viu o passado, vaticinou o futuro, e finalmente foi iniciado na arte da morte. Cortou cabeças em válidos rituais insanos, banhados de um sangue sagrado, cortou sua própria garganta, e a viu secar em poucos minutos ao ser sugado por seus asseclas. Sem sangue sobreviveu durante vários dias e noites secretas. Até retornar a sua tribo e ser ovacionado como um pequeno herói, igual a todos aqueles que sobrevivem ao velho ritual da ascensão da consciência total.

Consciente de seu futuro, foi chamado a guerra, aquela guerra tão bem descritas pelo Cezar e seus historiadores. Presenciou o futuro, e não viu nada. Lembrou-se da morte. Não temeu. Colheu sua última plantação. Juntou os grãos, beijou sua esposa, seus filhos, olhou uma última vez para seu amante. Emprestou muitos fardos para seu sogro, com a promessa de devolução nesta ou em outra vida. Não tinha nada a temer. Morreria somente para os homens, e voltaria a viver para os homens. Tinha consciência total de seu futuro.

Na guerra, lutou ferozmente, não temia um só inimigo. Com os olhos vidrados cortou gargantas como no ritual sagrado, sem divindades. Vislumbrou as penas vermelhas da morte, lutou porque tinha que lutar. Seus companheiros de guerra recuaram. Excetos aqueles que receberam os mesmo trato que ele nos bosques esquecidos. E eles lutaram contra uma centúria completa. General por general, Manonos teve seu coração perfurado pelas lanças da águia. Não trazia gibão consigo, não precisava. Lug lhe deu toda a habilidade necessária, se não tivesse toda a habilidade para aquela batalha seria ali que morreria. E morreu.

Os campos funerários em que hoje estou, não se encheram de nenhuma tristeza. Manonos recebeu o título de o Inconsequente. Certamente sorriu, a batalha não foi perdida. Sua morte foi celebrada, como se celebra a vida.

Aprendo com o túmulo de Manonos que eu sou ele. E ele é eu. Sempre acreditei na vida eterna, cheia de compromissos e verdades. Somente temia a dor da morte. Mas Manonos não a temia. Meu sogro, hoje um amigo, não me devolveu nenhum fardo de seu empréstimo, espero o quanto for necessário. Lug se tornou todos os meus estudos e todas as habilidades que tenho, ainda sou de muitas formas devoto a ele. Fiel a causa de ser tudo o que posso ser, sou diferencial em diferência. A dor também se apagou, ao presenciar o passado sob meus pés. Aberto o túmulo vi ali uma carta entregue em minhas mãos. Hieróglifos traduzidos pela morte. Uma última instância em vida.

Tudo que é trazido a mim pelos meus ouvidos não me perturbam mais. O que me perturba é minha consciência total e o pouco respeito por aqueles que não a possuem. Verdades a parte, pois não existem. Vivo a cada momento, presentificando passado e futuro num mesmo instante espacial. Assusto a qualquer mortal com a fome de destruição que aprendi a me felicitar. Choro em gozo voraz. Querem saber da minha morte? Posso lhe dizer que acontece todos os dias em que sento num bosque qualquer, debaixo ou em cima de qualquer árvore e sinto aquele peso sobre minha cabeça. Inconsequentemente vivo a morte.

Medos


Acendo o isqueiro. O cigarro está do lado errado. Isso que dá fumar no escuro da minha varanda. Quase acendo o cigarro pelo filtro. Viro o cigarro e o acendo. O primeiro trago é o melhor. É aquela sensação de caubói nas pradarias americanas. Pena que ele morre de câncer muitos anos depois. Pena que não tenho medo da morte.


Fumar no escuro é uma arte que venho desenvolvendo há alguns meses. A escuridão da minha varanda tem se tornado cada dia mais interessante. O poste da frente de casa não funciona mais, ligar para a empresa de energia elétrica? De maneira alguma. A luz urbana estraga minha visão das estrelas. Agora fumo deitado na varando com o rosto a procura das Três Marias, cintura do centauro. Vejo a ponta de seu arco, sua cabeça e suas patas. Sua seta aponta para a Ursa Menor, ou será outra estrela? Vou conferir no Google.

Engraçado havia uma estrela a mais no centauro. Não, essa estrela se movimentava, e não era o efeito das nuvens carregadas pelo vento. Meus olhos se arregalam. Acompanho a estrela que se movimenta com rapidez. Ela cruza o céu. A perco de vista com a enorme quantidade de prédios que há no nobre bairro que moro. Estrela-disco-voador? Estrela-avião-internacional? Que importa? O efeito na imaginação é o que importa.

Há um barulho estranho no escuro. Olho para o provável local da estranheza. Está escuro, não tem como ver nada. Mas ao olhar escuto novamente o barulho que se tornou regular, era a torneira do tanque que nunca se fechou completamente. O efeito da imaginação é o que importa.

Sinto algo felpudo roçar no meu pé. Não me assusto de imediato, penso logo em formigas. Mas desta vez não era. Era a gatinha que buscava insetos no jardim que no cio adora roçar por todos e por todas as coisas. Gargalho controladamente, todos dormem. Somente eu funciono no escuro. O efeito da imaginação é o que importa.

Ao pingo da torneira e ao pular da gatinha na grama é adicionado um novo e estalado som. Dessa vez tem que ser o ladrão, que sempre espero. Não. Não era. Era o velho estalar da madeira do velho telhado ao efeito do frio que se esquentou durante o dia. O efeito da imaginação é o que importa.

Finalmente, sinto um toque gélido e ósseo em meu ombro. Será a morte? Além do tétrico toque, também sinto o fio de algo cortante em minha garganta. Sorrio, infelizmente não acredito na morte. A morte é um conjunto de acasos. E o acaso é o nada. E o nada não existe. Desacredito. O corte da foice força minha garganta. O líquido viscoso que insiste em correr em minhas veias corre pelo meu peito até o chão. A morte está a brincar comigo? Acredito desacreditando. O cigarro já está no fim, sei pela experiência de sentir o calor pelo filtro. Bato a última cinza e arremesso a bituca o mais longe possível. Ah! Sim! A morte? Aprofundou o fio de sua foice em minha garganta. Mas infelizmente não acredito. Depois da morte, vem uma morte pior. O esquecimento. E alguém como eu será facilmente esquecido. Tenho um leve medo por um segundo, não consegui publicar meus contos e poemas. Legarei a lembrança para um público inexistente. Não é medo, é decepção. Pego em sua mão gelada e digo: “Vamos?” Ela me olha com desdém, prefere o medo nos olhos do que a aceitação. Peço desculpas, também se decepciona. Olhamos um nos olhos do outro. E gargalhamos, todos dormem e não me importo. É o preço que se paga pela imaginação. E o efeito da imaginação é o que importa.


Salamandra

Senti minha cama pegar fogo. Era um calor tremendo. Não entendi o porquê. Tirei as cobertas, liguei o ventilador que rangia e o calor somente aumentava. Tirei todas as minhas roupas, peça por peça, até sobrar somente eu, inteiro, intacto. Fervendo. Olhei ao redor, o quarto estava até vermelho, era como se eu pudesse imaginar como seria dentro de um forno elétrico. Resolvi levantar. Angustiado. Vermelho. Olhei embaixo da cama, havia um casulo. da cor de sangue. Não me importei.
No outro dia, o quarto estava mais quente. E quando olhei para a parede da única janela que há aqui, vi uma larva vermelha com todas as suas centenas de pés. Subiu e o calor fervilhava. A larva rubra subiu, e subiu. E parou na divisa entre o teto e a parede. Sua cabeça era horripilante... eu sabia que poderia cuspir fogo a qualquer momento. Não ousei tocá-la. Novamente  conferi embaixo da cama e o casulo ainda estava lá.
Dormi transpirando. Estava mais calor. Sem roupas eu respirava ofegante. Abri a janela, o vento que estava frio ao entrar queimava meu rosto. Minha cama tremeu. Olhei era o casulo que se mexia. E a larva vermelha se dependurou no meu teto feito acrobata num número em chamas.
Quando acordei, olhei para minha mesa logo abaixo da ígnea janela. Lá estava uma cabeça monstruosa, era a cabeça da larva que havia caído. Minha cama tremeu. O casulo se movia. Olhei para o teto e um casulo alaranjado havia se formado.
A cabeça evaporou-se de minha mesa como cinzas que ficaram espalhadas pelo chão que queimava meus pés, como numa panela ao fogo. Dancei um tango escaldante. Me assoprei e me abanei. Não adiantava, o ar estava quente. Olhei no espelho e meu rosto estava todo vermelho, meus lábios ressecados, feridas se abrindo e sangrando. Em volta dos meus olhos cascas de feridas se espalharam, pústulas ofegantes se anunciavam. Toquei no casulo com o objetivo de arrancá-lo de baixo da minha cama, mas queimei meus dedos, bolhas enormes se formaram. Mal pude fechar a mão.
Minha cama tremeu, mais uma vez. E por outra vez o casulo se movimentava.

Havia me acostumado ao tom vermelho de meu quarto ou era meus olhos que sangravam? Não saberia diferenciar. O inferno proeminente que me encontrava se tornou até um céu de calmaria, minhas garras já resistiam mais ao fervor. A cama tremeu e ouvi um baque. Tremi. Não dançavam mais aquele tango flamejante porque havia uma grossa casca em meus pés. Olhei para debaixo da cama e tudo ficou claro: do casulo saiu uma salamandra. E ela me olhou terna, um bebê-salamandra. Sorri, meus dentes agora crescidos assustavam a qualquer mortal, mas não a ela. Meu teto tremeu. O novo casulo se mexia.
Na outra noite, não senti o calor, mas meus livros pegaram fogo, meus aparelhos eletrônicos estavam todos retorcidos. As roupas já não me cabiam, devido às asas que cresceram nas minhas costas. A salamandra saiu debaixo da cama e se enroscou no meu pé. Seu calor não me incomodava mais. Sorri.
No espelho só havia um demônio com uma salamandra enrolado na coxa. Eu havia sumido há alguns dias. Saí incólume de toda aquela situação. Acariciei o outro casulo e ele se movia, não havia mais necessidade de arrancá-lo e atravessá-lo pela janela. Juntei as cinzas de sua cabeça e sorvi pelo nariz a me drogar com todo aquele fervor.
O teto tremeu, e o casulo se rompeu. Segurei a nova salamandra na queda. Ela me olhou agradecida. Sorri outra vez... percebi que minhas garras estavam maiores, quase a machuquei. Ela se enrolou imediatamente em meu braço.
Já não precisa de mais nada que havia no meu quarto, minha cama agora era carvão, minha mesa se desfez e todos os quadros havia se desfigurados. Meu autorretrato? Agora era uma bolha irreconhecível.
Sorri mais uma vez, meus dentes roçaram em meus lábios, mas minha pele era tão dura que nem senti seu espetar. Sentei, as duas salamandras se acomodaram melhor em meus membros. Estava nu e era como se fosse daquela forma singela o tempo todo. A verdade se revelou sob a forma de derretimento. Senti-me profundamente eu. Quebrei o espelho porque ele mentiu cruelmente para mim todos estes anos.


Personagem

a André Luiz

Há um personagem invisível em todas as minhas narrativas. Ele é um tanto cubista, quanto hermético. Ele só se permite descrever pelo que diz. Não ouso narrar seu corpo, sua história, seu psicológico. Ele não me permite. Aparece, diz algo e se vai. Desvanece da mesma maneira que apareceu. Ao terminar um texto, releio e ele está ali, impassível, invazável, instransponível. Junto os ângulos e nada se forma. Hermético e cubista.


Reli todos os meus textos a fim de defini-lo, achá-lo, determiná-lo, mas não consigo, sua indizível presença sempre se faz ausente no fim. Vou entendo-o, e quando penso que tenho alguma conclusão sobre, me sinto no vazio do não ser novamente. Ele vem e mais uma vez pisca, sorri aquele sorriso inconfundível que só ele tem. Mofa da minha falta narrativa. Sorri para minha incapacidade de flagrá-lo no salto que procede em minhas histórias noturnas.

Assim, vou me trucidando aos poucos, com vontade de achá-lo totalmente. Ele seria o ser a quem procuro há tanto tempo? Viajo sempre por lugares nunca antes transpostos e sempre o tive aqui, dentro de minha própria palavra, minha linguagem encenada? Ele não vai aparecer nessa narrativa, não o permito. Já tomou por demasiado meu verbo, meu destempo, meu ressentimento. Tenho raiva dele, quero vê-lo fora de toda expressão poética a que me proponho. Mas não posso. Tenho medo. No final, será que ele vai me oferecer a pérola que tanto busquei nessa viagem que procedo de norte ao sul do meu corpo? Silêncio.

É ele. Mais uma vez apareceu para me descentrar, desconcertar, desconstruir. Sorriu, entortou a cabeça daquele jeito especial e me ofereceu os braços. Me aproximo, creio que não percebe minha irritação. Abracei-o e lhe beijei o pescoço. Tinha vontade de mordê-lo. De ver seu sangue jorrando por todos os lados me banhando, e, finalmente, me mostrando o que havia de mais íntimo do seu ser impegável.

Contive-me, somente beijei seu pescoço, meus lábios se ergueram num sorriso simples. Por que não vem comigo? Não me aceita? Não se revela? Dê me um pouco do que eu preciso. Do que eu desejo. Me retire desse turbilhão enfurecido que toda a minha existência se tornou. Salva-me. Meus olhos demonstram o sentimento que expresso por palavras? Só ele poderia dizer, porém não o diz, nem mais sua voz se faz presente. Já se foi como sempre vai. Para aquele reino onde reina intocável.

Não tenho mais forças para prosseguir. As palavras me faltam, por sua falta. A raiva passou, agora, fico a espera de seu próximo retorno, de seu próximo sorriso. Só que ao invés de um abraço, forçarei um beijo na boca. Não posso ter seu sangue em meu corpo, terei pelo menos um líquido íntimo em mim. A saliva há de me revelar o que desejo? Será dividido comigo metade daquele segredo?

Fico a espera, por favor, retorne!

Na garganta do Oceano

dentro da garganta do oceano
me embalo
naquele refluxo asqueroso
do recaldo da própria ignorância
é o vício do desejo
só ele
ele me afunda cada vez mais

monstros com luzes próprias
já têm minha cabeça
dentro de suas mandíbulas
de dentes serrados
e não posso fazer nada
além de cerrar os olhos
e fingir desesperadamente
que nada aconteceu

é o vício recalcitrante
do desejo
é querer ser maior que a garganta
e ser por ela engolido
sem a menor cerimônia

agora que aqui estou
o ato é único
entrega total ao suco gástrico
do oceano
aos dentes de monstros
até mesmo dos não iluminados
não há salvação, nem própria
é o fim em autototaldesesprezo

Olhos azuis

Onde está toda a sinceridade que se procedeu aqui? Meu personagem não pode olhá-la nos olhos. Ela não os tem como as nuvens. Nem as nuvens com seus magníficos e estelares olhos têm aparecido por aqui. Só chove, sinceramente chove. Ele abriu a janela tantas vezes para procurar o céu, e somente pode entender que chovia. Se enclausurou em si mesmo. Abriu um livro e outro. Abriu cinco livros e os fechou. Buscava um poema, até que ele bateu na porta. Era um poema bem acabado. Todo rimado de olhos azuis, o desejo em métrica. Sorriu, um sorriso tão escandido que corou. A surpresa de ver aqueles olhos, profundamente, o deixou inquieto. Pediu que entrasse e entrou, tirou o casaco e sentou-se no sofá. Fechada a porta, sentou na poltrona. Os olhos azuis disseram que não vieram para deixá-lo perturbado. Ele acreditou desacreditando. Somente a necessidade do olhar o desassossegava. Era assim sempre. O silêncio interrompido pelos dois ao mesmo tempo, acabou se tornando silêncio mais uma vez, queriam falar, mas gentilmente cederam a vez um para o outro, e gargalharam com o atrapalho da situação. A gargalhada formou uma nova poesia. Da poltrona para o sofá. É muito tempo sem se ver. O desejo, apesar de odioso, era maior a cada dia. Como ele teve coragem de viajar por tanto tempo? Deixando assim só a chuva, sem estrelas? Tinha necessidade. A volta que deu pelas estradas o elucidou em sinceridade. Os olhos azuis o amavam sinceramente. Ele baixou a cabeça, sem graça. Pensara tantas coisas e tantas possibilidades, até mesmo desejou a morte dos olhos, mas se entregou, em um beijo demorado. As roupas caíram, os pelos se eriçaram. O desejo cedeu lugar ao ato. Dividiram o dom. Depois abriu a janela, a chuva estava lá. O vento frio entrou, os papeis da escrivaninha voaram. Os olhos azuis passaram pelos papeis que se assentaram perto dele. É um romance? É a vida! Ele o traíra. Eram os olhos azuis que agora abaixaram. Tinha o abandonado sem deixar nenhum aviso. Mas, era o tempo que ele... É verdade, nada de avisos. Tivera o que merecia. Estava tudo acabado ou era um novo começo? Era um começo, diferente. Mas os papeis tratam da afetação em emoção da traição! Sabe que se expressa como em um romance, o amargo se torna doce, a miséria se torna produtiva. Sim, ele o sabia. Os olhos azuis na janela não apreciavam a chuva, mas a si mesmo no reflexo da janela, os pelos se eriçaram, agora pelo frio. Fechada a janela foi para a poltrona. Não havia um poema gargalhado para aquele silêncio. Só uma decisão. Imprudente? Talvez. Pensou no que é o amor, o desassossego, a miséria. Levantou-se e seguiu até a escrivaninha. Ele estava ali, recolhendo os papeis e os reorganizando-os. Abraçou-o e disse que nada mais importava, que estava de volta e não sairia jamais. O som da chuva na janela deu o ritmo jâmbico ao poema. A sinceridade fora embora pela porta principal. Abraçou os olhos azuis e disse que os amava. Sem olhar a sinceridade nos olhos, visto que ela não tinha, selou ali sua infelicidade eterna. Promessas e entregas. Desceu seus dedos pelas costas dos olhos azuis e apertou o abraço, era apertar contra o peito a miséria, o desassossego, nunca o amor. Viveu assim o amargor adocicado pela narrativa. Recolheu o último papel, e num gesto encenado rasgou-os todos. Um esquecimento que permanece na memória. O outro, ali produtivo nos papéis, também não retornaria. Miséria por miséria, escolheu a que os olhos azuis poderiam lhe oferecer. Sem sinceridade o amou. Narrou docemente todos aqueles meses. Sem sinceridade, sem nuvens a olhar. Só a chuva, chovia sinceramente.