Personagem

a André Luiz

Há um personagem invisível em todas as minhas narrativas. Ele é um tanto cubista, quanto hermético. Ele só se permite descrever pelo que diz. Não ouso narrar seu corpo, sua história, seu psicológico. Ele não me permite. Aparece, diz algo e se vai. Desvanece da mesma maneira que apareceu. Ao terminar um texto, releio e ele está ali, impassível, invazável, instransponível. Junto os ângulos e nada se forma. Hermético e cubista.


Reli todos os meus textos a fim de defini-lo, achá-lo, determiná-lo, mas não consigo, sua indizível presença sempre se faz ausente no fim. Vou entendo-o, e quando penso que tenho alguma conclusão sobre, me sinto no vazio do não ser novamente. Ele vem e mais uma vez pisca, sorri aquele sorriso inconfundível que só ele tem. Mofa da minha falta narrativa. Sorri para minha incapacidade de flagrá-lo no salto que procede em minhas histórias noturnas.

Assim, vou me trucidando aos poucos, com vontade de achá-lo totalmente. Ele seria o ser a quem procuro há tanto tempo? Viajo sempre por lugares nunca antes transpostos e sempre o tive aqui, dentro de minha própria palavra, minha linguagem encenada? Ele não vai aparecer nessa narrativa, não o permito. Já tomou por demasiado meu verbo, meu destempo, meu ressentimento. Tenho raiva dele, quero vê-lo fora de toda expressão poética a que me proponho. Mas não posso. Tenho medo. No final, será que ele vai me oferecer a pérola que tanto busquei nessa viagem que procedo de norte ao sul do meu corpo? Silêncio.

É ele. Mais uma vez apareceu para me descentrar, desconcertar, desconstruir. Sorriu, entortou a cabeça daquele jeito especial e me ofereceu os braços. Me aproximo, creio que não percebe minha irritação. Abracei-o e lhe beijei o pescoço. Tinha vontade de mordê-lo. De ver seu sangue jorrando por todos os lados me banhando, e, finalmente, me mostrando o que havia de mais íntimo do seu ser impegável.

Contive-me, somente beijei seu pescoço, meus lábios se ergueram num sorriso simples. Por que não vem comigo? Não me aceita? Não se revela? Dê me um pouco do que eu preciso. Do que eu desejo. Me retire desse turbilhão enfurecido que toda a minha existência se tornou. Salva-me. Meus olhos demonstram o sentimento que expresso por palavras? Só ele poderia dizer, porém não o diz, nem mais sua voz se faz presente. Já se foi como sempre vai. Para aquele reino onde reina intocável.

Não tenho mais forças para prosseguir. As palavras me faltam, por sua falta. A raiva passou, agora, fico a espera de seu próximo retorno, de seu próximo sorriso. Só que ao invés de um abraço, forçarei um beijo na boca. Não posso ter seu sangue em meu corpo, terei pelo menos um líquido íntimo em mim. A saliva há de me revelar o que desejo? Será dividido comigo metade daquele segredo?

Fico a espera, por favor, retorne!

Na garganta do Oceano

dentro da garganta do oceano
me embalo
naquele refluxo asqueroso
do recaldo da própria ignorância
é o vício do desejo
só ele
ele me afunda cada vez mais

monstros com luzes próprias
já têm minha cabeça
dentro de suas mandíbulas
de dentes serrados
e não posso fazer nada
além de cerrar os olhos
e fingir desesperadamente
que nada aconteceu

é o vício recalcitrante
do desejo
é querer ser maior que a garganta
e ser por ela engolido
sem a menor cerimônia

agora que aqui estou
o ato é único
entrega total ao suco gástrico
do oceano
aos dentes de monstros
até mesmo dos não iluminados
não há salvação, nem própria
é o fim em autototaldesesprezo

Olhos azuis

Onde está toda a sinceridade que se procedeu aqui? Meu personagem não pode olhá-la nos olhos. Ela não os tem como as nuvens. Nem as nuvens com seus magníficos e estelares olhos têm aparecido por aqui. Só chove, sinceramente chove. Ele abriu a janela tantas vezes para procurar o céu, e somente pode entender que chovia. Se enclausurou em si mesmo. Abriu um livro e outro. Abriu cinco livros e os fechou. Buscava um poema, até que ele bateu na porta. Era um poema bem acabado. Todo rimado de olhos azuis, o desejo em métrica. Sorriu, um sorriso tão escandido que corou. A surpresa de ver aqueles olhos, profundamente, o deixou inquieto. Pediu que entrasse e entrou, tirou o casaco e sentou-se no sofá. Fechada a porta, sentou na poltrona. Os olhos azuis disseram que não vieram para deixá-lo perturbado. Ele acreditou desacreditando. Somente a necessidade do olhar o desassossegava. Era assim sempre. O silêncio interrompido pelos dois ao mesmo tempo, acabou se tornando silêncio mais uma vez, queriam falar, mas gentilmente cederam a vez um para o outro, e gargalharam com o atrapalho da situação. A gargalhada formou uma nova poesia. Da poltrona para o sofá. É muito tempo sem se ver. O desejo, apesar de odioso, era maior a cada dia. Como ele teve coragem de viajar por tanto tempo? Deixando assim só a chuva, sem estrelas? Tinha necessidade. A volta que deu pelas estradas o elucidou em sinceridade. Os olhos azuis o amavam sinceramente. Ele baixou a cabeça, sem graça. Pensara tantas coisas e tantas possibilidades, até mesmo desejou a morte dos olhos, mas se entregou, em um beijo demorado. As roupas caíram, os pelos se eriçaram. O desejo cedeu lugar ao ato. Dividiram o dom. Depois abriu a janela, a chuva estava lá. O vento frio entrou, os papeis da escrivaninha voaram. Os olhos azuis passaram pelos papeis que se assentaram perto dele. É um romance? É a vida! Ele o traíra. Eram os olhos azuis que agora abaixaram. Tinha o abandonado sem deixar nenhum aviso. Mas, era o tempo que ele... É verdade, nada de avisos. Tivera o que merecia. Estava tudo acabado ou era um novo começo? Era um começo, diferente. Mas os papeis tratam da afetação em emoção da traição! Sabe que se expressa como em um romance, o amargo se torna doce, a miséria se torna produtiva. Sim, ele o sabia. Os olhos azuis na janela não apreciavam a chuva, mas a si mesmo no reflexo da janela, os pelos se eriçaram, agora pelo frio. Fechada a janela foi para a poltrona. Não havia um poema gargalhado para aquele silêncio. Só uma decisão. Imprudente? Talvez. Pensou no que é o amor, o desassossego, a miséria. Levantou-se e seguiu até a escrivaninha. Ele estava ali, recolhendo os papeis e os reorganizando-os. Abraçou-o e disse que nada mais importava, que estava de volta e não sairia jamais. O som da chuva na janela deu o ritmo jâmbico ao poema. A sinceridade fora embora pela porta principal. Abraçou os olhos azuis e disse que os amava. Sem olhar a sinceridade nos olhos, visto que ela não tinha, selou ali sua infelicidade eterna. Promessas e entregas. Desceu seus dedos pelas costas dos olhos azuis e apertou o abraço, era apertar contra o peito a miséria, o desassossego, nunca o amor. Viveu assim o amargor adocicado pela narrativa. Recolheu o último papel, e num gesto encenado rasgou-os todos. Um esquecimento que permanece na memória. O outro, ali produtivo nos papéis, também não retornaria. Miséria por miséria, escolheu a que os olhos azuis poderiam lhe oferecer. Sem sinceridade o amou. Narrou docemente todos aqueles meses. Sem sinceridade, sem nuvens a olhar. Só a chuva, chovia sinceramente.

Rosa branca (conto de aniversário)


a Izolina Moura de Souza, minha avó e Doutora em Formigas

Ela mandou-me pegar uma tesoura no pote de barro em cima da estante. Corri, como sempre corri pela casa em que cresci, abandonei e agora retornei. Posso ver-me correndo por todos os cantos, pulando, dando um salto e cortando o joelho. Olhe a cicatriz. Voltei com a tesoura. Fomos ao quintal, bem ali estava a roseira branca. Apreciava o modo como ela se curvava perante as rosas brancas, enormes a desabrochar e as cheirava. Não a imitava. Achava o ato ridículo. Ela pegou a tesoura da minha mão e me ensinou onde cortar os talos das rosas brancas que já se despetalaram pelo vento, pelos animais roçando, pela própria brevidade da vida. Só lhes restavam o miolo, envelhecido, sinal da morte. Cortou dois talos e entregou-me a tesoura. A me observar, cortei todos os outros. Me indicava onde estava aqueles escondidos os quais minha desatenção costumeira nunca iria encontrar. Nos próximos dias, cuidei de todas as roseiras de casa, a tesoura havia se mudado de sua casa para a minha. Era o artefato mágico, com o qual daria mais vida a todas aquelas roseiras pelo corte mortal que procedia. Até o dia em que já não alcançava as rosas de cima. Estavam altas para uma pequena criança que só veio a ter a altura que tenho depois da adolescência.

Um dia, quando ela mesma percebeu que já não as alcançavam, tomou o facão e decepou todas as roseiras, deixando só uma parte de seus galhos verdes. Pensei que ela não as queira mais. Havia tratado mal as roseiras e a punição foi a morte de todas. Era a morte total. A morte que não tinha mais volta. Senti-me totalmente culpado. Porém, era mais uma lição que me mostrava. Não perguntei absolutamente nada, ela apareceu como pela própria experiência que só muito depois vim a entender. Dos galhos verdes nasceram outros galhos menores e em pouco tempo mais rosas e mais saudáveis. Continuei a podá-las até entender o dia em que deveria novamente decepá-las até não sobrar flor ou folha.

Ela tinha Doutorado em Formigas cuja base na filosofia alemã era tão íntima e profunda que não tivera necessidade de abrir um livro de Heidegger sequer. Nietzsche? Nenhuma linha. Nestes pequenos gestos de um doutorado bem feito, aprendi todas as lições. Mas como em todo e qualquer estudo em Formigas, não dei valor a lição no momento do aprendizado. Todo o entendimento é a posteriori. As lições somente tornam-se vivas pela memória.

Ela morreu. E todas as roseiras foram com ela. Não dei o valor necessário as suas palavras sobre rosas ou formigas. Não chorei sua morte. Porém, como a roseira decepada, sem folhas ou rosas, ela nasceu em galho e perguntou: “Você acha que eu não te amo?” O que fazer a não ser chorar? Pela primeira vez na minha vida, já com mais de duas décadas de vida, chorei. O interdito se desfez e pela primeira vez, também, entendi o que era o sentimento. Não me doutorei em formigas. Não poderia. Somente guardo suas lições, para rememorá-las e flagelar-me com a minha cega desatenção costumeira. Hoje me curvo perante rosas brancas e as cheiro, no gesto mais ridículo de todos os tempos.


O mundo destruído (desengavetando poemas velhos - data? desconhecida)

Não que eu seja apocalíptico
Mas que está.
Está!

Emputecido (desengavetando poemas velhos - data? desconhecida)

Poetaeaquelequetemboamemóriaoupapelecanetanamãopoetaeaquelequetemboamemóriaoupapelecanetanamãopoetaeaquelequetemboamemóriaoupapelecanetanamãopoetaeaquelequetemboamemóriaoupapelecanetanamãopoetaeaquelequetemboamemóriaoupapelecanetanamãopoetaeaquelequetemboamemóriaoupapelecanetanamãopoetaeaquelequetemboamemóriaoupapelecanetanamãopoetaeaquelequetemboamemóriaoupapelecanetanamãopoetaeaquelequetemboamemóriaoupapelecanetanamãopoetaeaquelequetemboamemóriaoupapelecanetanamãopoetaeaquelequetemboamemóriaoupapelecanetanamãopoetaeaquelequetemboamemóriaoupapelecanetanamãopoetaeaquelequetemboamemóriaoupapelecanetanamãopoetaeaquelequetemboamemóriaoupapelecanetanamãopoetaeaquelequetemboamemóriaoupapelecanetanamãopoetaeaquelequetemboamemóriaoupapelecanetanamãopoetaeaquelequetemboamemóriaoupapelecanetanamãopoetaeaquelequetemboamemóriaoupapelecanetanamãopoetaeaquelequetemboamemóriaoupapelecanetanamãopoetaeaquelequetemboamemóriaoupapelecanetanamãpoetaeaquelequetemboamemóriaoupapelecanetanamão

UFA!

Poetaeaquelequetemboamemóriaoupapelecanetanamão

Revisando...

Poeta é aquele que
Tem boa memória
ou papel e caneta na mão

Ligações nada perigosas (desengaventando poemas velhos - março de 2008)

Ferreiradrummonisces
A luta corporal da rosa do povo
Quintanacamonadas
A rua dos cataventos desconcertada pelo mundo

E todas as relações vão se desfazendo
Em desconstrução em volta do mundo

São lutas
São arriscadas
São amigas

Em face de todo o desmundo das gramáticas no chão
Vejo o azul de Aires acomodados de um só desejo

A poesia de uma terra, uma única Terra
Pode o mundo fazer-se em mil
Mas todas as relações continuam nada perigosas

Braffabreuses
Cipestres mofados
Marinettiskovisk
De um cubofuturismo arriscado

O homem de barro

Essencias mistas de toda a origem
Verdadeira paixão da criação
Pura matéria primordial
Formam a disforme forma de homem de barro
Nítida, mas distorcida

Irradiam forma
Constroem virtudes defeitos vícios
Ele se in-forma
Da maneira decidida

Ele se deixa moldar
Desvirtua a paixão a origem o primórdio
Nitidademente retorcido
Longe da distorção

Sapecam fogo
Para enformar no molde desejado
Porém se esquecem
Seu coração é de pedra
Não seca, está formado

Rígido pelo ígnia despaixão
Pode ele permanecer
Porém chega um momento
Quando seu coração
Ciente de sua retorção
Distorce à forma original
Apaixonada e pura
Distorção.

Ele cansa da forma?
Não! Somente é distorcido
E nada mais.

Invazável


Olhando para céu em busca da lua, não consigo enxergá-la. A chuva é Senhora da Vida neste momento, olho e fecho os olhos pela força da água que caia diretamente em minhas pupilas. Ela faz as plantas se curvarem, a terra se desfazer e nos sentimos todos menores, frágeis.
Só há um lugar não tocado por ela, aquele lugar em que me sentei, lá meu corpo se inscreve, é um lugar todo meu, não é como o coração, até lá ela faz o sangue ficar ralo, por tanta água que ali derramou. Lá, embaixo de mim, ele dança, como se ali fosse um refúgio seguro. Seco, por vezes até árido, muitas vezes quente pelo calor do meu corpo febril. Ele dança aquela dança contemporânea cheia de espontaneidade, vivacidade voraz dos movimentos angulosos, não há suavidade ali, só beija-flor, plainando e certeiro.
Meus cabelos depois de tanta água até parecem estar molhados, senti a água gelada da chuva noturna atingir meu couro cabeludo, escorrendo envolta da minha cabeça, descendo pelo meu pescoço, meu peito, barriga e pernas, mas, ali, onde eu sentei antes da chuva começar em busca da lua, está intacto.
A dança ganha mais ritmo, mais luz, apesar da escuridão total do meu sentar. A luz é própria, estrela, como o olho de uma nuvem. As imagens não mais se desfazem, performam atividade, dançam ao ritmo de raios cadentes. Os estouros daquele raio mais forte, ecoa, é uma guerra positivo contra negativo, de nuvens que se enegreceram com o tempo.
A senhora da vida não cessa, continua se avolumando em raiva, quer atingir até o fundo intacto do meu âmago, quer borrar a dança voluptuosa. Raios mais fortes e mais constantes. Ela não percebe que isso é música aos meus ouvidos? Que é através de todos esses raios que ali me vejo refletido? Ela não me ouviu com o silêncio necessário, trovejava enquanto me elaborava. Melhor assim, ganho um inimigo inculto que não consegue me vazar, que não consegue me cindir por completo. Os olhos das nuvens perdem o brilho, se fecham e choram a vida. A dança já está próxima do fim. Tem outro ato? Quanto tempo dura esse espetáculo? Não faz diferença seu fim próximo ou muito distante, ainda ecoam a secura árida dele ao dançar aquela música macabra de ecos, rossoa, ritombada ritumbante.
A chuva cessa aos poucos, os pingos rareiam, os raios se desfalecem na terra ou nos para-raios. E eu ali permaneci sentado por horas, horas sem fim, na espera. A paciência se tornou uma virtude invencível.
O espetáculo ainda não terminou, está a espera da próxima tempestade. O próximo ato é a Senhora da Morte.

Cair e voar

A Raffael

Ando viajando pelas nuvens. Subo pela sacada do meu apartamento, no parapeito, mas nunca caio. Quando coloco meu pé no ar, subo de degrau em degrau, são invisíveis. As nuvens já não me olham com aquele vigoroso e velho olhar de estrelas do passado. Elas olham e sorriem, abrem sorrisos misteriosos e flutuantes, entro no sorriso como se penetrasse o mistério dos próprios signos que as nuvens formam, formas únicas, indivisíveis, indeléveis.


Nessas viagens quase suicidas (porque não me permitem cair?) um dia, encontrei o anjo. Ele estava ali, parado, conversando com uma estrela, ouvi seu tratado secreto sobre ser a si mesmo, ele era a si e o outro era o outro, tão sereno, tão calmo, um sotaque enochiano que não conseguimos revelar os sentidos. Onde estão os sentidos? Sentimos todos eles riscados de nossas bocas, línguas e peles. Eu parei, apreciei a conversa e o anjo. Sua postura, seus lábios movendo em enochiano, que para mim não fazia sentido somente no começo, mas meus ouvidos se acostumaram, se prepararam para a língua dos anjos, signos simples mas tão plenos de significados que soam como chuva pelas nuvens. Sabia que alguma vez em minha vida, havia tomado banho de chuva de símbolos angelicais.

A estrela pelas nuvens brilhou seus olhos para mim. O anjo virou seu rosto e me viu. Logo me escondi atrás de uma nuvem. Ela sorriu e me disse que ali era como se eu estivesse nu, e não adiantaria ali me esconder, pois seria mais visível do que queria, envolto nela eu seria transparente, como ela, como tudo. Ele disfarçou que me via, era como se piscasse, fingindo que fingia não me ver. E fingiu. Fingiu tão bem que continuei minha jornada, mas com a piscadela do anjo em minha mente, e recordando o banho enochiano que havia tomado (seria um sinal de que eu encontraria aquele anjo com suas palavras sobre o eu e tu? Não poderia ser, mas foi.)

Segui em frente, mesmo assim. Queria atingir aquela nuvem que mostra a verdade, que derrama raios em minha cidade iluminada por instantes de volúpia entre as nuvens. Gostava dela porque a cada relâmpago eu aparecia de verdade, no reflexo de mim mesmo, em qualquer lugar. Era ali que me sentia inteiro. E logo ali estava ela, negra, cheia de si e do magnetismo que a fazia viva e única, especial entre as outras nuvens que transitavam quando sai pelo parapeito do meu apartamento. Aproximei-me vagarosamente, como ela sempre me pediu, “não me assuste”. Ela não tinha olhos como as outras, por isso não sabia se já tinha percebido minha presença ou não. Aprendemos juntos a vencer essa dificuldade, pois ela sempre falava o meu nome num tom sábio. Era com se encontrasse um amigo que sempre me questionava o porquê de eu ter voltado ali. Sempre busquei o mesmo conselho, a mesma palavra, a mesma voz. Não porquê não tinha entendido, mas porquê gostava de ouvi-la falar. Porém nesse dia a surpreendi, falei de anjos, não a pedir, mas a descrever, da mesma maneira que faço agora. Ela sorriu, e seu sorriso era medonho, aprendi a não temê-la, era a nuvem mais grotesca, mas a que mais me atraia. Apesar do sorriso misterioso, prossegui falando e falando, e ela abriu um sorriso maior ainda. E eu continuava a não entendê-la, até que finalmente gargalhou. E tudo brilhou pela primeira vez naquela noite e percebi que o anjo estava ali, a me observar a falar dele e dos banhos angelicais de chuva. E pela primeira vez não senti o etéreo chão sob meus pés e caí. Sabia que iria morrer, mas com serenidade me entreguei na queda.

Caí, caí e caí lentamente, minha vida não passou pelos meus olhos, mas sabia que ia morrer. Senti o chão verdadeiro se aproximando, não fechei os olhos pois queria ver a morte de olhos bem abertos. Ela não veio, quem estava ali era ele. O anjo a me segurar, seus pés firmes no chão tocaram. E eu fechei os olhos, a vergonha de ser visto por ele me cair e fez também minhas pálpebras pesarem. E ele falou comigo. Falou e falou, metade de símbolos que só eu possuo a chave para revelá-los. Quando terminou, deitou sua sentença final sobre mim. Sabia que tinha terminado. E eu somente pedi: podemos voar? E voamos.