Símbolo-segredo

A Wellingnton Furtado Ramos

simbolo consiste no exercício de poder que permite à pessoa que detém um determinado segredo quebrar um objeto qualquer em duas metades, guardar uma das partes e confiar a outra a alguém que deverá guardá-la para atestar a sua autenticidade. (Eneira Maria de Souza)



Quero te entregar metade do meu símbolo. Quero te mostrar e testar ao mesmo tempo a validade do meu segredo. Porém, o meu segredo muitas vezes está mais que partido pela metade, está reduzido ao pó-estelar de muitos desejos, mas continua segredo-símbolo. Um segredo só pode ser compartilhado entre duas pessoas? Porque não com todas? Mas meu símbolo é tão secreto que às vezes até aqueles que possuem seus estilhaços nem saibam o que portam, recalcam a ignorância, o esquecimento, ou a audácia de simplesmente querer não saber do que se trata. Quer dividir meu símbolo? Quer compartilhar o meu segredo? É só pedir, é só ler, é só ver, eu sou símbolo sonante sinal, leia-me, olhe-me, mas faça-o com um prazer inenarrável. Ter os meus símbolos não é um ato passivo de pura lealdade fraternal, é um ato litigioso, quase religioso de portar uma parte de mim mesmo, já escrevi meu testamento é só ir lá e ver/ler/rir/lembrar/mentir, tudo fica para todos e nada fica com ninguém. Já revelei meu nome, minha idade, meus desejos, o segredo é símbolo, é mais profundo, é mais idílico, é mais sensível, é delicado. A entrega da metade do símbolo está feita, é um sacroofício, onde minha carne é reposta no altar da autodestruição. Mais uma metade que se vai. Mais um desejo que se re-parte, fique preparado, estou pronto para testar a sua metade e ver se você realmente porta o meu segredo. Posso abrir seu peito a qualquer momento, posso, com minhas unhas, arrancar seu coração e com as minhas mãos pulsá-lo com o frescor doce do calor da palma cheia de pecados inocentes. Se for a metade verdadeira de mim, ganhará outro segredo, se não for, aprenderá que eu também sou a mentira e ganhará uma parte verdadeira de mim, só por misericórdia. Um dia haverá tantas partes de meu segredo, de meus símbolos, de minhas cicatrizes, de minhas dores, de mim, enfim, que já não serei mais reconhecido, serei simplesmente, serei segredo-símbolo.

Soneto do sono

Aos alunos da Escola Municipal Etalívio Pereira Martins

(É por essas e outras que eu gosto de dar aula... primeiro esse soneto, depois as maravilhosas apresentações sobre os poetas brasileiros.)

E eu que achava que soninho é soneto
Mas não é não, é dois quartetos e dois tercetos
Quero sonhá-lo em cada vão momento
O pequeno som desse soneto.

Se sento e leio fico sonolento
Se sono sonho a cada vão momento
Se o sonho acaba fico rabugento
Quero sonhar o sono soneto.

Que infância boa àquela do soneto
De longos sonhos sem ressentimentos
De amor de colo e de acalento.

Mas agora sigo junto ao vento
De braços dados leio um cumprimento
Nesse sonho nos meus aposentos.

da aluna Thaynara. (Que orgulho!)

Um poema para desfazer a ilusão

Debaixo de terras vulcânicas
Aquelas que o vulcão secou
Ao devastar está ele
Ancião de si mesmo
Criador de sua própria tradição
Somente a ponta de seus dedos
Permanecem para fora da terra
Como a sentir o medo ecoar
Debaixo de terras vulcânicas
Daquelas que o vulcão devastou
Ao secar moldou ele
Virtude de si mesmo
Inventor de seus próprios dedos
Redirecionou a tradição
Com medo de sentir o eco

Das sereias, pés e novas-máquinas

Circurnavegando pela noite
As sereias vão sempre pela esquerda
E eu pelo meio
E horizonte verticalizado
Tendências pós-tudo
Sorri, mais uma vez e me olha
Tendências pós-carências noturnas
Eu ponho um pé no chão
E os sentidos riscados do dicionário
Essa palavra já não é mais
O outro pé na fumaça
Subindo em direção ao chão
Olho mais uma vez
As luzes estão apagadas
Meio peito se enche de desejo
Viro os olhos
Mexo os dedos
E assim eu desconstruo
Conexões ousadas
Gerasensação é a nova máquina de chilrear
Canta novas canções ao pé do ouvido
Mão na nuca e oito voltas
Do lado direito novas sensações
Eu no meio e as sereias rondando

Borboleta

a Robson 

a definição das cores só se dá em um único lugar
um lugar de poesia colorida asa
asa frágil de uma volta pelo ar sem destino
voo com um destino azul
pouco colorido no começo
mas vermelho no final
na rasante das cores misturadas
afinal uma cor arroxeada
é o voo libertador incerto
o sublime está no banal
como eu no ar
leve delicado

velha roupa nova

Ele sentou-se novamente no mesmo banco. Olhou para um lado e para o outro. Abriu o livro que trazia na bolsa jeans azul. Se o livro estivesse de cabeça para baixo ele não teria percebido. Passou os olhos pelas letras. Lembrou. Recalcou. Outros olhos nas letras e pegou um Trident de canela no bolso lateral da bolsa. Frescor com letras, mesmo que sem sentido, letras frescas. Os olhos não paravam, seguiam de um lado para outro. Até enganava bem! fingindo que estava lendo. Olha para o celular pretinho e pequeno que estava no seu bolso da calça e não da bolsa que pulou com certa destreza para fora e brilhou, olhou sem objetivo. Quando a luz se apagou, lembrou de ver as horas e apertou mais uma vez os botões e brilhou novamente, era cedo! O ato de esperar sempre incomoda. Olhou para dentro de si, num jogo novo que acabara de descobrir e viu, o esperado inesperado: uma roda-gigante! Tudo bem que a imagem já tá cansadinha de aparecer e reaparecer nestes escritos que se valhem de palavras e virtualidade insanas, mas é o que exprime o que esta personagem quase-insana sente! O mundo rodou mais uma vez. E a cada volta da roda-gigante, as coisas mudam, as pessoas aprendem. Às vezes, continuam a mesma, mas a grande mudança é a volta a mais. Ele permaneceu lá! Olhou de novo para fora de si! E tudo permaneu igual. Quase escrevi a palavra errado no lugar de igual. Mas qual seria a diferença? Ele pegou suas coisas, guardou o livro, cuspiu o chiclete, pegou um Halls preto, olhou o celular mais uma vez e se foi. Só o erro ficou, desculpe, a mesmidade!

A felicidade não é deste mundo

Ele olhou para traz mais uma vez. Só para ter certeza de que estava agora só. Sorriu, sinceramente, aquele sorriso que só se pode dar sozinho, em que não é possível flagrar o próprio rosto, pois nem o espelho pode vê-lo, sente-o de dentro e ele é a expressão da própria felicidade, exatamente aquela felicidade que é impossível para qualquer humano. É uma felicidade impossível, mas que existe na Terra por frágeis cinco segundos. Por mais que ele rememorasse o momento, o mesmo sentimento jamais voltaria, ele poderia mesmo pintar aquele momento eternizá-lo adornianamente, fazê-lo sonoro pela letra de uma música, mas não, nada neste mundo poderia trazer aquele cinco segundos de um sorriso inflagrável de volta, sente-se algo muito próximo daquela felicidade, mas ela é impura, inconsistente, inverossímil, às vezes. Poderia até ter outro momento como aquele, idêntico, mas a virtude da primeira vez, e o desuso do próprio sentimento, jamais traria aquela felicidade de volta. Infelizmente, ele já teve direito a toda a felicidade possível no mundo para uma única pessoa naquele instante do sorriso que não poderia ser visto a não ser pelo próprio coração de dentro para fora. Era o toque, o beijo, o desejo? Nunca ele saberá, porque nunca saberemos se é o conjunto, o instante ou mesmo uma ligação entre os neurônios que não deu certo que faz com que a felicidade seja possível por milésimos de segundos em alguns corpos da nossa fadada humanidade ao vale de lágrimas que se tornou nossas complexas e tecnológicas vidas. Sem pessimismos ou ceticismo, a felicidade existiu, por pouco tempo, mas existiu, ela não foi compartilhada, nem aceita como um momento único, pois é esta narrativa que a torna assim, pode ser mesmo que nem mesmo tenha realmente existido, posso, como narrador, estar criando esse momento de vivência-pela-linguagem. Nunca saberemos, somente ele, que pode ser eu, para falar: “Realmente fui feliz!” Aquela felicidade que do nada entra inunda a vida e esvai-se pela mesma porta. Só posso dizer que continuamos na busca, é algo que nunca ninguém saberá dizer se foi ou não! Até termos acesso completo a felicidade, aquela prometida pelas religiões, pela filosofia ou pela esperança boba e inocente, e lembrarmos: “Ah, sim, naquele momento, eu realmente fui feliz!” E sorriremos o mesmo sorriso! Será que alguém estará lá para observar e sorrir junto e compartilhar o invisível?

o abrir dos olhos

Acordar-te é meu único desejo. Ver a face do sono reposta sobre a tua e ter a primazia do primeiro sorriso do primeiro olhar do primeiro osculo. Que a repetição infinita do trauma se faça cicatriz em meu peito, assim volto sempre a rever o mesmo e único belo necessário fato. Os dedos percorrem avenidas de satisfação e a surpresa de uma curva perfeita se fez e desfez toda a ilusão de uma única punição. Não sinto mais culpa, ela se foi, sou outro, sou o Outro. Sou eu que tanto desejei que sempre esteve fora de mim, no espelho, nos relâmpagos de uma janela, na calçada a ser observado. Eu e ele-eu somos um único ser, posso ser tudo o que for, mas disso eu tenho certeza: sou um só! E a surpresa de também receber o que ofereço é a melhor notícia do vão pelo vão. Esta narrativa, ou borrão, rascunho e medo, é apenas uma lembrança, para a eterna repetição em minhas córneas que um dia se fecharão, eu sei, mas que enquanto não se feche, veja, o abrir dos olhos.

dois poemas

para Mário
dois poemas se fundem num
um que insiste em ser verdade
o outro flana realidade
trocas destratam as próprias palavras
verdade e realidade só na poesia podem ser profetizadas
e eu como poeta profetizo a mim na cena da própria sorte
escrever as próprias notas da vida
entre a verdade e a realidade só pode a ficção
de saber que tudo era mentira e agora em vão se transformou
mudanças camaleônicas que todas já previam
que tipo de mentira essa que inculca em si a verdade?
e que verdade é essa que se esconde da própria realidade?