Borboleta

a Robson 

a definição das cores só se dá em um único lugar
um lugar de poesia colorida asa
asa frágil de uma volta pelo ar sem destino
voo com um destino azul
pouco colorido no começo
mas vermelho no final
na rasante das cores misturadas
afinal uma cor arroxeada
é o voo libertador incerto
o sublime está no banal
como eu no ar
leve delicado

velha roupa nova

Ele sentou-se novamente no mesmo banco. Olhou para um lado e para o outro. Abriu o livro que trazia na bolsa jeans azul. Se o livro estivesse de cabeça para baixo ele não teria percebido. Passou os olhos pelas letras. Lembrou. Recalcou. Outros olhos nas letras e pegou um Trident de canela no bolso lateral da bolsa. Frescor com letras, mesmo que sem sentido, letras frescas. Os olhos não paravam, seguiam de um lado para outro. Até enganava bem! fingindo que estava lendo. Olha para o celular pretinho e pequeno que estava no seu bolso da calça e não da bolsa que pulou com certa destreza para fora e brilhou, olhou sem objetivo. Quando a luz se apagou, lembrou de ver as horas e apertou mais uma vez os botões e brilhou novamente, era cedo! O ato de esperar sempre incomoda. Olhou para dentro de si, num jogo novo que acabara de descobrir e viu, o esperado inesperado: uma roda-gigante! Tudo bem que a imagem já tá cansadinha de aparecer e reaparecer nestes escritos que se valhem de palavras e virtualidade insanas, mas é o que exprime o que esta personagem quase-insana sente! O mundo rodou mais uma vez. E a cada volta da roda-gigante, as coisas mudam, as pessoas aprendem. Às vezes, continuam a mesma, mas a grande mudança é a volta a mais. Ele permaneceu lá! Olhou de novo para fora de si! E tudo permaneu igual. Quase escrevi a palavra errado no lugar de igual. Mas qual seria a diferença? Ele pegou suas coisas, guardou o livro, cuspiu o chiclete, pegou um Halls preto, olhou o celular mais uma vez e se foi. Só o erro ficou, desculpe, a mesmidade!

A felicidade não é deste mundo

Ele olhou para traz mais uma vez. Só para ter certeza de que estava agora só. Sorriu, sinceramente, aquele sorriso que só se pode dar sozinho, em que não é possível flagrar o próprio rosto, pois nem o espelho pode vê-lo, sente-o de dentro e ele é a expressão da própria felicidade, exatamente aquela felicidade que é impossível para qualquer humano. É uma felicidade impossível, mas que existe na Terra por frágeis cinco segundos. Por mais que ele rememorasse o momento, o mesmo sentimento jamais voltaria, ele poderia mesmo pintar aquele momento eternizá-lo adornianamente, fazê-lo sonoro pela letra de uma música, mas não, nada neste mundo poderia trazer aquele cinco segundos de um sorriso inflagrável de volta, sente-se algo muito próximo daquela felicidade, mas ela é impura, inconsistente, inverossímil, às vezes. Poderia até ter outro momento como aquele, idêntico, mas a virtude da primeira vez, e o desuso do próprio sentimento, jamais traria aquela felicidade de volta. Infelizmente, ele já teve direito a toda a felicidade possível no mundo para uma única pessoa naquele instante do sorriso que não poderia ser visto a não ser pelo próprio coração de dentro para fora. Era o toque, o beijo, o desejo? Nunca ele saberá, porque nunca saberemos se é o conjunto, o instante ou mesmo uma ligação entre os neurônios que não deu certo que faz com que a felicidade seja possível por milésimos de segundos em alguns corpos da nossa fadada humanidade ao vale de lágrimas que se tornou nossas complexas e tecnológicas vidas. Sem pessimismos ou ceticismo, a felicidade existiu, por pouco tempo, mas existiu, ela não foi compartilhada, nem aceita como um momento único, pois é esta narrativa que a torna assim, pode ser mesmo que nem mesmo tenha realmente existido, posso, como narrador, estar criando esse momento de vivência-pela-linguagem. Nunca saberemos, somente ele, que pode ser eu, para falar: “Realmente fui feliz!” Aquela felicidade que do nada entra inunda a vida e esvai-se pela mesma porta. Só posso dizer que continuamos na busca, é algo que nunca ninguém saberá dizer se foi ou não! Até termos acesso completo a felicidade, aquela prometida pelas religiões, pela filosofia ou pela esperança boba e inocente, e lembrarmos: “Ah, sim, naquele momento, eu realmente fui feliz!” E sorriremos o mesmo sorriso! Será que alguém estará lá para observar e sorrir junto e compartilhar o invisível?

o abrir dos olhos

Acordar-te é meu único desejo. Ver a face do sono reposta sobre a tua e ter a primazia do primeiro sorriso do primeiro olhar do primeiro osculo. Que a repetição infinita do trauma se faça cicatriz em meu peito, assim volto sempre a rever o mesmo e único belo necessário fato. Os dedos percorrem avenidas de satisfação e a surpresa de uma curva perfeita se fez e desfez toda a ilusão de uma única punição. Não sinto mais culpa, ela se foi, sou outro, sou o Outro. Sou eu que tanto desejei que sempre esteve fora de mim, no espelho, nos relâmpagos de uma janela, na calçada a ser observado. Eu e ele-eu somos um único ser, posso ser tudo o que for, mas disso eu tenho certeza: sou um só! E a surpresa de também receber o que ofereço é a melhor notícia do vão pelo vão. Esta narrativa, ou borrão, rascunho e medo, é apenas uma lembrança, para a eterna repetição em minhas córneas que um dia se fecharão, eu sei, mas que enquanto não se feche, veja, o abrir dos olhos.

dois poemas

para Mário
dois poemas se fundem num
um que insiste em ser verdade
o outro flana realidade
trocas destratam as próprias palavras
verdade e realidade só na poesia podem ser profetizadas
e eu como poeta profetizo a mim na cena da própria sorte
escrever as próprias notas da vida
entre a verdade e a realidade só pode a ficção
de saber que tudo era mentira e agora em vão se transformou
mudanças camaleônicas que todas já previam
que tipo de mentira essa que inculca em si a verdade?
e que verdade é essa que se esconde da própria realidade?

Infância

Meros acasos

dentro de um quarto lacrado
asas cortadas
insano

voar e bater nas grades
implora
volta

serenidade encarnada
me olha
diz

a infância não volta
ocaso
acaso

Convulsão

É fusão dos sentidos
com a fusão de todos os tudos
persuasão insana
repercussão dos mundos
são são e não serão
confissão e um vulto

terminar com a ilusão

Tenho pouquíssimos segundos para contar o meu próprio fim porque ele já está muito próximo de mim que sinto seu fungar no pé do meu ouvido sinto um prazer deletério que pode me mostrar a fruição de um mundo novo que irá se desabrochar em desilusão ou mesmo em uma alegria sádica contemporânea desejos a parte tudo o que traz a morte até o meu percalço é a indecisão até mesmo a indecisão desde momento autodestruidor aniquilante e desinformante os sentidos tornam-se vagos insinceros e verdugos de minha própria desilusão virtudes a parte não tive nenhuma somente aquelas que me atribuíram e sorrateiramente me tiraram a única sobra é a morte desilusão porvir devir inconveniente e necessário o adeus é uma nova emboscada que faço a mim mesmo razão de uma própria infinitude esse texto se desfaz em sua própria tessitura porque seria necessário um microscópio para lê-lo pois seus sentidos não estão aqui ou ali mas sim dentro de cada letra desejosa de significado em si mesma e estuporada verdade está em forma de uma ilusão não queria ter terminado com ilusão.

Medo

Eu tenho medo de escrever mais uma linha.
Não me leia no intervalo.

Antropofagia

Eu comumito
um poemavelho
todo novo.

Eu e suas gares
Ele e meus desejos.