Ele olhou para traz mais uma vez. Só para ter certeza de que estava agora só. Sorriu, sinceramente, aquele sorriso que só se pode dar sozinho, em que não é possível flagrar o próprio rosto, pois nem o espelho pode vê-lo, sente-o de dentro e ele é a expressão da própria felicidade, exatamente aquela felicidade que é impossível para qualquer humano. É uma felicidade impossível, mas que existe na Terra por frágeis cinco segundos. Por mais que ele rememorasse o momento, o mesmo sentimento jamais voltaria, ele poderia mesmo pintar aquele momento eternizá-lo adornianamente, fazê-lo sonoro pela letra de uma música, mas não, nada neste mundo poderia trazer aquele cinco segundos de um sorriso inflagrável de volta, sente-se algo muito próximo daquela felicidade, mas ela é impura, inconsistente, inverossímil, às vezes. Poderia até ter outro momento como aquele, idêntico, mas a virtude da primeira vez, e o desuso do próprio sentimento, jamais traria aquela felicidade de volta. Infelizmente, ele já teve direito a toda a felicidade possível no mundo para uma única pessoa naquele instante do sorriso que não poderia ser visto a não ser pelo próprio coração de dentro para fora. Era o toque, o beijo, o desejo? Nunca ele saberá, porque nunca saberemos se é o conjunto, o instante ou mesmo uma ligação entre os neurônios que não deu certo que faz com que a felicidade seja possível por milésimos de segundos em alguns corpos da nossa fadada humanidade ao vale de lágrimas que se tornou nossas complexas e tecnológicas vidas. Sem pessimismos ou ceticismo, a felicidade existiu, por pouco tempo, mas existiu, ela não foi compartilhada, nem aceita como um momento único, pois é esta narrativa que a torna assim, pode ser mesmo que nem mesmo tenha realmente existido, posso, como narrador, estar criando esse momento de vivência-pela-linguagem. Nunca saberemos, somente ele, que pode ser eu, para falar: “Realmente fui feliz!” Aquela felicidade que do nada entra inunda a vida e esvai-se pela mesma porta. Só posso dizer que continuamos na busca, é algo que nunca ninguém saberá dizer se foi ou não! Até termos acesso completo a felicidade, aquela prometida pelas religiões, pela filosofia ou pela esperança boba e inocente, e lembrarmos: “Ah, sim, naquele momento, eu realmente fui feliz!” E sorriremos o mesmo sorriso! Será que alguém estará lá para observar e sorrir junto e compartilhar o invisível?