Há algo lá fora. Já é a segunda vez que olho pela persiana e somente vejo a água que cai tranquilamente do céu. Não há trovões, só a necessidade do céu desabafar, como nós fazemos com nossos amigos. Mas já olhava lá fora pela quarta vez. Resolvi inventar algo para fazer e peguei meu notebook e comecei a escrever uma história de alguém que tinha medo da própria sombra. Era como se ela pudesse comê-lo e mostrar que o inexplicável fosse mais forte que a realidade. Sinceramente, todas as histórias que escrevi nunca foram salvas. Fazia isso pelo gosto de ver as letras aparecendo aos poucos pelo toque dos meus dedos no teclado macio do computador. Quando terminava uma história sempre as deletava. “Deseja salvar o documento?”, “Não”. Olhei mais uma vez para conferir, mas era para ver se ainda chovia, mas não custava nada olhar para lá e ver se ali estava ele. E não estava. É a voz do passado que ecoa e destoa. Já tinha olhado um zilhão de vezes por aquela janela. Todos que tocavam a minha campainha já estavam acostumados a olhar para aquela janela para conferir se eu realmente escutara o sonoro toque dos sinos. E de lá eu confirmava quem era o ser oblíquo que queria falar. Às vezes, já recusei a abrir a porta para pessoas não acostumadas a mirar a janela, geralmente os sempre incômodos importunos. Observei muitas vezes os relâmpagos caindo do seu, em direção dos prédios do centro da cidade. Como aqui caem raios! Descargas elétricas capazes de matar... por que um raio não caiu nele, naquela ocasião? É uma boa pergunta, pois chovia no dia, e era uma baita tempestade. Acredito que vi um raio partir o céu, mas era tão longe que muitos segundos depois percebi a janela tremer. Som que perturba, imagem que estremece, é a definição de vê-lo, é a definição de relembrá-lo. Há algo lá fora. E preciso manter o olho na janela para ver se ele não se aproxima demais da janela, pois, se da minha cama olhar para o vidro e vê-lo me olhando, posso surtar, só de pensar na proximidade do ato. Mas desde aquele dia cruel e chuvoso ele nunca mais apareceu. Mas desde de lá cuido dele ali. Ele foi impetuoso apareceu entre um raio e outro e me olhou profundamente nos olhos. Sentiu meu medo e piscou. Mostrou sinceramente que gozava com meu medo. Há prazer em tudo. Não sei do que fiquei com mais medo. Se foi do modo como ele apareceu entre as gotas iluminadas da chuva ou mesmo de reconhecê-lo entre tantos ignaros fatos. Medos a parte senti algo tão verdadeiro que aqui está minha narrativa repetindo a mesma fala a mais de quinhentas palavras. Apesar da chuva, minha campainha tocou. Sinceramente nem olhei pela janela, pois sabia quem era. Somente não acreditava que Ricardo teve a coragem de sair na chuva e vir me visitar. Havíamos combinado essa tarde juntos no shopping no dia anterior. Não sei o que me levou a ser amigo de Ricardo, não éramos nada parecidos. Ele chegou calado, me abraçou como sempre fazíamos. Subiu as escadas antes de mim, como se fosse o dono da casa e nem olhou para trás. Fui à cozinha e peguei uma coca-cola para nós. Quando entrei pela porta de meu quarto vi Ricardo sentado no balcão da minha janela como já fiz centenas de vezes e vi sua imagem refletida na janela. Ele me olhou e sorriu pelo reflexo. Não sei se foi por mim ou pela coca, mas nem se virou. Acho que ele também me via pelo reflexo. Aproximei-me e entreguei seu copo de coca. Nem assim ele me olhou. Sua mão pegou o copo, sem olhos, e levou a coca direto a sua boca. Sua garganta agradecia pelo líquido que por lá descia. Via sua garganta se mover pelo reflexo. Seu pomo de adão se movendo para cima para baixo, como numa propaganda de refrigerante. “Sua felicidade transforma”. Pena que minha vida só in-forma amorfa. Ricardo depois de tomar sua coca de um gole só, perguntou se eu conhecia aquela pessoa que estava parada na chuva lá embaixo. Gelei e saltei para a janela. Sim! Sim! Conhecia. Era o mendigo que morava ali e estava aproveitando a chuva. Ricardo se assustou com meu salto. E eu também... mas não era ele. Expliquei para ele que há muitos meses vi algo estranho pela janela que realmente me deixou com muito medo. Ricardo se interessou pela história. Seus olhos verdes se dirigiam aos meus castanhos. Um raio havia caído longe dali e quando olhei para a rua vi alguém muito parecido comigo lá embaixo e quando realmente havia percebido que era eu lá embaixo, a janela tremeu devido ao estrondo do raio e caí no chão batendo minha cabeça. Quando levantei, ele já não estava mais lá. Ricardo riu, perguntou umas duas ou três vezes se eu tinha certeza se realmente tinha me visto pela janela. Riu novamente e perguntou se não tinha visto o mendigo e tinha confundido comigo mesmo, devido ao susto do raio. É claro que não confundi. Estou acostumado aos raios, vivia contando os segundos depois do clarão, para saber o quão longe eles estavam. E se eles caiam por perto, nem tremer, tremia, de tão acostumado. Ricardo riu. Porém, parou de rir levemente, como se lembrasse de algo. Soava estranhas as palavras de Vitor, mas sim, já havia acontecido o mesmo comigo. Ver a si mesmo é muito freak out, mas não tão surreal quanto eu poderia imaginar. Ao dormir sozinho, a gente imagina muitas coisas, sente muitos medos. Sabemos que a casa está vazia. Nossa mãe não está lá na caminha dela, roncando, às vezes, que nossa irmãzinha está já tendo sonho com os anjinhos. Mas eu estava lúcido, aquele dia, nenhuma sombra havia me procurado naquela noite. Ninguém havia me aterrorizado. Nada dentro do guarda-roupa, já havia verificado, é claro! Até que cochilei ao ler. Ao acordar estava abraçado comigo mesmo. Olhei-me nos olhos e senti a mim mesmo ao me afagar. Loucuras pessoais, privadas. Desejos, acredito! Ricardo riu novamente, perguntei o que ele tinha pensado e mudou de assunto, simplesmente, ignorando o fato contado e o acontecido. Porém, argumentei que tinha resolvido a questão, pois quando tinha entrado tinha visto a imagem dele refletida na janela e poderia ter sido meu próprio reflexo que teria visto de forma distorcida pelo raio e bater a cabeça poderia ter sido traumático. Realmente traumático, por meses que observava a janela em busca de mim mesmo! Resolvemos encerrar aquele assunto. Ricardo contou-me várias histórias. Enquanto a chuva parava. Mostrou me vários caminhos entre labirintos insondáveis. E até sentimos profundamente a falta do sol, apesar de sem chuva, o céu estava muito negro, para irmos até o cinema rever o magnífico filme do dia anterior. Por mais que estivesse tudo resolvido em minha mente, sempre olhava pela janela para me ver, nunca olhara na janela. Daquele ponto de vista de mim mesmo, já estava cansado. Tinha a esperança de sentir aquele medo novamente. Mas já não o sentia mais. Ricardo era um preenchedor de ambientes. E seus olhos preenchedores de mim. Acho que não suportaria mais uma sincera olhada e desci para fazer um lanche. Ricardo ficou olhando pela janela. Provavelmente querendo me encontrar... pensamentos meus! Quando voltei estava deitado em minha cama com meus mangás. Coloquei o lanche em minha mesa e lembrei-me de meu notebook ligado e o chamei para ler minha história ainda não apagada. Levantou levemente. Leu empolgado, mostrando-me frases e arrumando alguns erros de português. Sempre que havia tempo para ler minhas histórias, sempre me perguntava por que eu não colocava em um blog. Dizia que tinha vergonha. E recomeçávamos uma velha discussão sobre o valor da palavra. Sempre fechava essa história, deletando o escrito e mostrando uma nova música. Éramos especialistas em desviar assuntos. As horas passam muito rápido. E novamente estava sozinho na janela. A chuva retornou, desta vez mais forte. Raios, um clássico da minha janela. Agora conferia a janela pelo mesmo motivo de antes de mim mesmo por lá: ver o mendigo banhar-se. Mas desta vez ele não achava graça, estava em baixo de um papelão, procurando uma marquise. E a cada raio, me olhava na janela. Ria, era isso o tempo todo. A janela tremia e nem sequer me mexia. Tudo estava resolvido. Mais uma vez, os olhos de Ricardo mostraram a resolução. Enfrentava a mim mesmo em todos os raios. O tempo todo. Já até explorava outros aspectos de mim mesmo, de meu quarto e até daquele eu que aparecia atrás de mim, em certos raios. Sinceramente, há algo aqui dentro.
Céu (poesia escrita em 10 de janeiro de 2007)
Amanheceu riscado
de nuvens esmaecendo-se
são como desejos noturnos
que não amanhecem.
de nuvens esmaecendo-se
são como desejos noturnos
que não amanhecem.
Dor
O som é algo difícil de ser explorado. É preciso muita atenção. Detalhes pequenos não são percebidos por nossas orelhas destreinadas de atenção. Somente o fone-de-ouvido pode resolver meu problema de surdez desconcentrada e mostrar para mim o mundo completo dos sons musicados. O novo cd é sempre melhor que o velho. Novas experiências, novas ousadias. Virtudes insanas daqueles que buscam no som eletrificado a única e última salvação para aquela dor que fica no peito reticente e latente. Vou até a sala escura, somente há o domínio da falta. A falta completa o ambiente, será o ambiente preenchido por ela? Mas uma luz começa a piscar mostrando que há várias pessoas reunidas. Pela falta? Pode ser. Ela se torna frenética, o som do novo cd embala todos. Malade et ballade. A sintonia não é complementar. Num piscar vejo a outra. Pernas perfeitas enredadas por um vestido de seda paranóico subindo e descendo, deixando o desejo transparecer vivo, quase é possível tocá-lo, embala-a junto com a música. Toca-lhe as pernas com as pontas dos dedos e desce sinceramente até o calcanhar e retorna até o embalo desfazê-lo e seguir até a próxima piscadela da luz. Outro: pura força em formas bélicas são agora hirtas pelo som inovador, movimentos secos mas leves e permitidos somente em situação especial de som escuro piscante. Outros também (não) estão lá: embalam-se embelezam-se desejam-se invejam-se cruzam-se desvirtuam-se. O que um novo som não faz aos meus ouvidos... Visto que a inocência não me permite ir até eles. Minha vontade os trazem. Todos estão aqui e vislumbram o meu desejo: o único real e presente. Como me toca. Como me evoca a insanidade de um arrastar de pele sobre pele. Meus pelos se arrepiam e torno-me uma única e só vontade: desejo. É uma pena que a música não dure para sempre. Como dez minutos poderiam ser a eternidade e assim esse momento único de felicidade solitária poderia ser o paraíso de anjos e bosques bucólicos barrocos. Mas entre um som e outro há um terceiro irritante, nunca deveria haver pausa para as trocas de faixas. Pois é entre as faixas que esse som irritante passa por cima jorrando toneladas de gás intoxicante aos ouvidos. A janela deveria manter o som fora fora e o som de dentro dentro... Melhor, não deveria haver janela... pois se ela contivesse não seria janela, seria uma outra parede. Deveriam ser todas paredes-janelas como para fantasmas que não são barrados por elas. Não se vão! A próxima música só está começando! Eu prometo ficar de olhos fechados. O som novamente se inicia e vislumbra linhas verdes fluorescentes, todos reanimam-se e dançam, perfectíveis em sua razão e virtude bela somente. Fecho os olhos e sinceramente sinto. É quase como a pele sobre a pele. É sentimento sobre sentimento. Tocando-se, retribuindo-se. Abro os olhos e espio por milésimos de segundos e vejo o invisível. Estranho. Sigo de olhos fechados. Sinto o som e prossigo. Porém a vontade de entender o ocorrido me fez abrir os olhos novamente e lá vejo o indizível. Fecho os olhos de susto. Com tanta força que crio rugas onde os sons rebatem e criam uma batida diferente. O toque do improvável desfaz todo sentimento sobre qualquer sentimento e endureço meu corpo antes leve pelo embalo. Os olhos mais enrugados até tudo parar... momentos invencíveis. A mesma eternidade da felicidade só que desta vez realmente eterna, pois só o medo e a dor podem o ser. Ao abrir vagarosamente neste momento de eternidade os olhos, reconheço o tom da pele, os pelos longos do braço, os dedos longos, os dedos feridos, as unhas comidas pela ânsia do nada. Subo os olhos e vejo a voz invadir os meus ouvidos. (Onde estão meus fones?) É como escutar um gravador reproduzindo os mesmo timbres azucrinantes de somente escutar a minha voz por mais de um dia. E ver aquela pinta no pescoço e ver o sangue pululando pela jugular da mesma maneira que sempre o senti subir e descer. A barba por fazer irritantemente perturbadora, pois coça. A bochecha saltada de tanto sorrir da desgraça. E os olhos castanhos onde pude me aprofundar-me na imensidão hipnótica de mim mesmo. É a dor de reconhecer-me ali ao meu lado por falta de companhia melhor. Não é só porque minha história é sobre o desgosto de ser eu mesmo. Mas ter de me enfrentar, no momento em que apago meu ego, é doloso. É doloso entender que não sou. Reticências preenchíveis por toda a falta. É só escolher. Fecho os olhos... mas abro as mãos em concha e seguro as pálpebras para me manter sob aquele signo de dor que sou eu mesmo. Olhos novamente profundamente nos meus olhos e vejo o passado rebuscado de desesperança. Por que eu fui estudar tanto? Deveria ter aproveitado tudo e todos. As letras não me preenchem como o som. Só a poesia, eu confesso, aquela que é reconhecida depois da vigésima leitura e finalmente decifrada e devorada pelo decifrador. As letras não me preencheram, só os poucos sentidos perdidos entre as linhas. Ainda posso escutar o som. Resgata-me. Rex tremendae majestatis Salva me Salva me Salva me. É som é pedido. Por mais que eu não acredite nesse rei, um outro qualquer pode me salvar. Os dedos doem pelo esforço auto-dolorido. A pressão de ser eu mesmo verdadeiramente por poucos segundos é excludente que preciso sair de mim e viver. Voltem fantasmas-desejos outra música já já vai começar.
Cigarro
Caneta azul, folhas pautadas, mesa de estudos, dois livros e cadeira com rodinhas. O conjunto era perfeito. Mas algo estava errado. Revisou os instrumentos. Rolou a caneta sobre as folhas. Não, algo ainda está errado. Rodopiou com a cadeira. Aproximou-se mais da mesa. Não, não era isso ainda. Verificou o título dos livros: On the road e Rua dos Cataventos. Era isso! Não sabia se seria um poema ou um romance. Abriu a gaveta e de lá retirou um maço de cigarros. Colocou um no canto da boca e não acendeu. “Será um poema”, pensou sozinho bem baixinho dentro do silêncio do lado esquerdo do cérebro. Recostou na cadeira, coçou a orelha direita e pensou no tema, “a felicidade de se escrever”, há muito tempo vinha celebrando um único rito em prol da própria palavra, não tinha percebido, mas logo, logo seria visível e contundente a impureza dessas novas-velhas palavras. “O som das palavras”, com certeza seria um dos versos. Provavelmente o último, lembrou-se de Poe. Parou, rodou com a cadeira de novo e percebeu que nem tinha acendido o cigarro. Abriu a gaveta e procurou com as mãos sem os olhos o isqueiro. Achou uma folha de papel, retirou e leu: “Palavras sonoras”. Sim era o mesmo poema com o fim no começo e o fim dizendo: “Futuro pensamento harmônico”. “Esse é um bom começo. Pelo visto seria o poema invertido e sem fogo. Colocou o pé esquerdo sobre a cadeira, seu bolso se alargou e o isqueiro caiu no chão. O estalo nem incomodou o zanzar da caneta azul passeando pela folha pautada. Não sabia mais porque tinha comprado tantas folhas pautadas. Nunca seguia as linhas, escrevia com letras tão grandes que às vezes ocupava três linhas e meia. O cigarro pulou para o outro canto da boca e apontou para cima num movimento leve e grotesco. A caneta descansou. Leu o poema em voz alta, o suficiente para perceber que já tinha escutado algo parecido, há algum tempo. O cigarro baixou rispidamente, como que impotente, perante o poema reescutado. Olhou para o chão como que a acompanhar o movimento do cigarro e viu o isqueiro e o pegou, esboçou um sorriso e lembrou-se do poema da gaveta. “Ah, sim!” Resolveu unir os dois poemas numa obra-prima, e sem a ponta flamejante, o cigarro subiu novamente. A esperança se reuniu e vibrou. “Isso vai ser bom!”, ressoou como se fosse um complemento a última linha do poema. Rereleu e rereouviu... “Continua a soar tão familiar!” Largou a caneta e acendeu o isqueiro. O telefone tocou. Ajuda aos deficientes, um motoboy pode ir buscar o donativo, ou mesmo pode até ser depositado em uma conta, quer anotar? Já estou com a caneta em mãos, trololó e a caneta desenhou no ar a palavra, “de novo!” com a exclamação tão grande que chegou até o canto silencioso de seu cérebro. Obrigado, obrigada! Jesus te abençoe. A todos nós! “O próximo poema será bem melhor. Tema?”, jogou o cigarro para o primeiro-outro canto da boca e largou o isqueiro e pegou a caneta e bateu três vezes sobre as folhas pautadas. Rabiscou uma fumacinha saindo de uma das linhas quase apagada. Riu alto. “Será sobre como o som das palavras rimam”, sim eu sei. Sim, “o som das palavras”, “palavras sonoras”, um castelo de cartas e “Isso vai ser bom!”, eco final de toda reprodução. Leleleitura e reconhecimento. O mesmo e velho mote. Rasgou o poema e pegou novamente o isqueiro, levantou e foi para o quarto. Voltou para a mesa e pegou a Rua dos Cataventos, voltou para o quarto e folheou o livro. Viu um menino envelhecido de repente. Pensou em uma corda no pescoço, olhou a viga exposta e viu a corda dependurada, nó de forca, e silenciou. A velha idéia da morte. Era um enfeite da casa. Daquele quarto em que somente ele poderia apreciar. Saiu do quarto com pressa e pegou a chave no bolso e lá deixou o isqueiro. Fechou a porta e colocou a mão na boca: “Onde está o cigarro?” Deve ter caído no desespero. Voltou para a mesa, queria escrever sobre a morte. Viu um cigarro sobre a mesa, torto, com o filtro úmido. Piscou forte. “A morte da palavra”, o título seria o “Dissom”, a palavra seria desafinada, estanque. O recalque da reescuta não permitiu perceber a nova-oposta poesia. O cigarro voltou para o canto esquerdo da boca. As mãos inquietas dentro da gaveta a procura do isqueiro e de lá saiu outro papel. Desta vez não pautado e com a letra bonita. Amassou-o rapidamente sem terminá-lo de ler. Piscou duro. Rasgou todas as folhas usadas. Juntou as folhas em branco, colocou a caneta num canto. E voltou para sua página preferida de On the road, “em algum lugar, a pérola me seria ofertada.” Tocou o conteúdo do bolso da calça por fora, sentiu o isqueiro, a chave e lembrou dos livros no quarto, da corda no pescoço e foi para a sala de jantar.
tristeza
uma ponta de sinceridade
somente dentro do espelho
fadados à farça
do palco vulcano
a verdade esvai na definição
transparece na representação
cachimbos voando errando
a sinceridade verdade
como se ela fosse possível
essa é a tristeza da vida
vida vida seja narrativa!
somente dentro do espelho
fadados à farça
do palco vulcano
a verdade esvai na definição
transparece na representação
cachimbos voando errando
a sinceridade verdade
como se ela fosse possível
essa é a tristeza da vida
vida vida seja narrativa!
Falcão de luzes
As cores tantas
tão poucos sonhos
no preto e no branco
matizes inconstantes
por vezes inconscientes
a ansiedade nos faz vento
e não luz perceptível
a necessidade irrisória
mortal total
importante desimportante
e fulminante
E quando fecho os olhos
não há mais cores
só o vazio
aquele mesmo irrisório
mortal total
importante e fulminante
Virtudes a parte
as luzes e as cores
alimento de falcão
tão poucos sonhos
no preto e no branco
matizes inconstantes
por vezes inconscientes
a ansiedade nos faz vento
e não luz perceptível
a necessidade irrisória
mortal total
importante desimportante
e fulminante
E quando fecho os olhos
não há mais cores
só o vazio
aquele mesmo irrisório
mortal total
importante e fulminante
Virtudes a parte
as luzes e as cores
alimento de falcão
Pelo mundo
- Nome?
- Marcus Vinicius Camargo e Souza
- Doador de órgãos e sangue?
- Não sei...
- Não diz nada no seu RG.
- Eu não sei...
- A opção é sua...
Se a opção é minha e não há alguma indicação em meu RG, leve todo o meu sangue. Leve tudo. Assim que eu morrer, tudo pode ser (re)partido. Estraçalhe minha carne. Pegue meus olhos e ponha num mundo diferente. Meu coração ainda pode bater muitas vezes em outro lugar... cuidei tanto dele para isso mesmo. Leve tudo, não deixe que nada chegue ao caixão. Meu sangue não mais me pertence. Pó ao pó? Vida por vida, que vire pó por outra vida. Leve tudo o que achar necessário. Trance meus cabelos num casaco macabro. Meus dentes, minhas orelhas... os meus ossos podem ser úteis em artesanatos para serem vendidos numa feirinha. Leve tudo. Da minha pele deverá ser feito um quadro onde se pintará as ilusões. Por que sempre fui tão egoísta? Leve um dos meus rins agora, e quando eu morrer pegue o outro. Leve todos os pares agora. Leve... leve... leve, eu agora quero ser somente asa, assim quero viver para todo o sempre. Leve leve leve. Saltar de um astro a outro somente asa e o eu inteiro que não pode ser levado (desculpe, essa parte não seria saudável (re)viver em ninguém). É aquela parte que só a mim pertence. Que muitas vezes pode ser até o eu de verdade (se é que ela existe... não o eu, mas a verdade). Leve tudo de mim e me deixe leve de verdade, só asa, só imag(em)(inação), imbrique a palavra como quiser. Só quero estar aqui, o inteiro, para ver o que acontece ao final.
Uma poesia para dormir
Todo sonho é impossível.
Dorme e tudo reverso.
Sentido sentido e sentido
O sentido
Sentido, guarda!
Sentido magoado
O sentido guarda a mágoa.
Relações improváveis,
Impossíveis?
Só no sonho reversas.
Dorme e tudo reverso.
Sentido sentido e sentido
O sentido
Sentido, guarda!
Sentido magoado
O sentido guarda a mágoa.
Relações improváveis,
Impossíveis?
Só no sonho reversas.
Diário de Sonhos nº 514 - Quando um quadro também mata
Quando um sonho é realmente um sonho de verdade pode ser tocado, evocado pelas palavras e escriturados em todas as escrituras, e na escritura. Já a felicidade é intocável, não nos pertence e é parte do sonho em sonho. E enquanto vivia o que significa felicidade saída do Houaiss:
f. eterna... ah o gostinho de tê-la dentro da minha cabeça em REM. A felicidade. Mas a palavra é voraz, é significante, é significado, é diacrônica, sincronica, paradoxal e os antônimos sempre estão por perto. E lá estava: "o quadro" na minha cozinha comendo o que restou de cérebro do almoço. E quando percebeu que o percebi de meu quarto, correu furiosamente até mim, percorrendo veloz o hall, a sala cruzando com a mesa de jantar, meus livros, Derrida, Foucault, Deleuze e Freud, Baudelaire, Cruz e Souza, Poe, Ruffato, Abelaira, Santiago, Cortazar, Noll e todos os outros. Deu tempo para me esconder, enquanto ele navegava no espaço do tempo perdido da rebública das letras, mas não adiantou, ele puxou bruscamente (com que mãos?) a coberta e sorriu uma risada maléfica e medonha. Como disse, um sonho pode ser tocado, e tocado acordei e ri, ri muito, um quadro quase me matou... vou ler Derrida e matar um quadro.
felicidade{verbete}
Datação
sXV cf. FichIVPM
Acepções
■ substantivo feminino
1 qualidade ou estado de feliz; estado de uma consciência plenamente satisfeita; satisfação, contentamento, bem-estar
2 boa fortuna; sorte
Ex.: para sua f., o ônibus atrasou, e ele pôde viajar
3 bom êxito; acerto, sucesso
Ex.: f. na escolha de uma profissão
felicidades
■ substantivo feminino plural
4 votos de feliz êxito; congratulações
Locuções
f. eterna
bem-aventurança, salvação eterna
Etimologia
lat. félícìtás,tátis 'felicidade, prosperidade, dita, ventura'; ver feliz-; f.hist. sXV felicidade, sXV fellicidade
Antônimos
desdita, desgraça, infelicidade, infortúnio, mal-andança; ver tb. sinonímia de desdita
f. eterna... ah o gostinho de tê-la dentro da minha cabeça em REM. A felicidade. Mas a palavra é voraz, é significante, é significado, é diacrônica, sincronica, paradoxal e os antônimos sempre estão por perto. E lá estava: "o quadro" na minha cozinha comendo o que restou de cérebro do almoço. E quando percebeu que o percebi de meu quarto, correu furiosamente até mim, percorrendo veloz o hall, a sala cruzando com a mesa de jantar, meus livros, Derrida, Foucault, Deleuze e Freud, Baudelaire, Cruz e Souza, Poe, Ruffato, Abelaira, Santiago, Cortazar, Noll e todos os outros. Deu tempo para me esconder, enquanto ele navegava no espaço do tempo perdido da rebública das letras, mas não adiantou, ele puxou bruscamente (com que mãos?) a coberta e sorriu uma risada maléfica e medonha. Como disse, um sonho pode ser tocado, e tocado acordei e ri, ri muito, um quadro quase me matou... vou ler Derrida e matar um quadro.
Um céu de pipas
Aos alunos da Escola Municipal Nerone Maiolino
Dragões quadrados losangos
Todas as formas brigam insanas
O céu é todo azulzinho
Pintado de multicoloridos
Pingos e respingos
Nuvens? Formas!
Um céu de pipas brigando
Caco de vidro e cola
arma
Nessa disputa acirrada
Rabiola, bambu e papel
Tudo para longe
O losango hoje venceu
Amanhã o quadrado
Para depois finalmente
Vencer o dragão infância
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