tristeza

uma ponta de sinceridade
somente dentro do espelho
fadados à farça
do palco vulcano
a verdade esvai na definição
transparece na representação
cachimbos voando errando
a sinceridade verdade
como se ela fosse possível
essa é a tristeza da vida
vida vida seja narrativa!

Falcão de luzes

As cores tantas
tão poucos sonhos
no preto e no branco
matizes inconstantes
por vezes inconscientes
a ansiedade nos faz vento
e não luz perceptível
a necessidade irrisória
mortal total
importante desimportante
e fulminante

E quando fecho os olhos
não há mais cores
só o vazio
aquele mesmo irrisório
mortal total
importante e fulminante

Virtudes a parte
as luzes e as cores
alimento de falcão

Pelo mundo


- Nome?
- Marcus Vinicius Camargo e Souza
- Doador de órgãos e sangue?
- Não sei...
- Não diz nada no seu RG.
- Eu não sei...
- A opção é sua...

Se a opção é minha e não há alguma indicação em meu RG, leve todo o meu sangue. Leve tudo. Assim que eu morrer, tudo pode ser (re)partido. Estraçalhe minha carne. Pegue meus olhos e ponha num mundo diferente. Meu coração ainda pode bater muitas vezes em outro lugar... cuidei tanto dele para isso mesmo. Leve tudo, não deixe que nada chegue ao caixão. Meu sangue não mais me pertence. Pó ao pó? Vida por vida, que vire pó por outra vida. Leve tudo o que achar necessário. Trance meus cabelos num casaco macabro. Meus dentes, minhas orelhas... os meus ossos podem ser úteis em artesanatos para serem vendidos numa feirinha. Leve tudo. Da minha pele deverá ser feito um quadro onde se pintará as ilusões. Por que sempre fui tão egoísta? Leve um dos meus rins agora, e quando eu morrer pegue o outro. Leve todos os pares agora. Leve... leve... leve, eu agora quero ser somente asa, assim quero viver para todo o sempre. Leve leve leve. Saltar de um astro a outro somente asa e o eu inteiro que não pode ser levado (desculpe, essa parte não seria saudável (re)viver em ninguém). É aquela parte que só a mim pertence. Que muitas vezes pode ser até o eu de verdade (se é que ela existe... não o eu, mas a verdade). Leve tudo de mim e me deixe leve de verdade, só asa, só imag(em)(inação), imbrique a palavra como quiser. Só quero estar aqui, o inteiro, para ver o que acontece ao final.

Uma poesia para dormir

Todo sonho é impossível.
Dorme e tudo reverso.
Sentido sentido e sentido
O sentido
Sentido, guarda!
Sentido magoado
O sentido guarda a mágoa.
Relações improváveis,
Impossíveis?
Só no sonho reversas.

Diário de Sonhos nº 514 - Quando um quadro também mata

Quando um sonho é realmente um sonho de verdade pode ser tocado, evocado pelas palavras e escriturados em todas as escrituras, e na escritura. Já a felicidade é intocável, não nos pertence e é parte do sonho em sonho. E enquanto vivia o que significa felicidade saída do Houaiss:

felicidade{verbete}
Datação
sXV cf. FichIVPM

Acepções
■ substantivo feminino
1 qualidade ou estado de feliz; estado de uma consciência plenamente satisfeita; satisfação, contentamento, bem-estar
2 boa fortuna; sorte
Ex.: para sua f., o ônibus atrasou, e ele pôde viajar
3 bom êxito; acerto, sucesso
Ex.: f. na escolha de uma profissão
felicidades
■ substantivo feminino plural
4 votos de feliz êxito; congratulações


Locuções
f. eterna
bem-aventurança, salvação eterna


Etimologia
lat. félícìtás,tátis 'felicidade, prosperidade, dita, ventura'; ver feliz-; f.hist. sXV felicidade, sXV fellicidade


Antônimos
desdita, desgraça, infelicidade, infortúnio, mal-andança; ver tb. sinonímia de desdita


f. eterna... ah o gostinho de tê-la dentro da minha cabeça em REM. A felicidade. Mas a palavra é voraz, é significante, é significado, é diacrônica, sincronica, paradoxal e os antônimos sempre estão por perto. E lá estava: "o quadro" na minha cozinha comendo o que restou de cérebro do almoço. E quando percebeu que o percebi de meu quarto, correu furiosamente até mim, percorrendo veloz o hall, a sala cruzando com a mesa de jantar, meus livros, Derrida, Foucault, Deleuze e Freud, Baudelaire, Cruz e Souza, Poe, Ruffato, Abelaira, Santiago, Cortazar, Noll e todos os outros. Deu tempo para me esconder, enquanto ele navegava no espaço do tempo perdido da rebública das letras, mas não adiantou, ele puxou bruscamente (com que mãos?) a coberta e sorriu uma risada maléfica e medonha. Como disse, um sonho pode ser tocado, e tocado acordei e ri, ri muito, um quadro quase me matou... vou ler Derrida e matar um quadro.

Um céu de pipas

Aos alunos da Escola Municipal Nerone Maiolino

Dragões quadrados losangos
Todas as formas brigam insanas
O céu é todo azulzinho
Pintado de multicoloridos
Pingos e respingos
Nuvens? Formas!
Um céu de pipas brigando

Caco de vidro e cola
arma
Nessa disputa acirrada
Rabiola, bambu e papel
Tudo para longe
O losango hoje venceu
Amanhã o quadrado
Para depois finalmente
Vencer o dragão infância

eu fragmento

em total incompletude sou apenas fragmento
peças inacabadas de um quebra-cabeça imontável
procuro eu, e vejo tu, o outro é sempre inconfundivelmente eu
não posso ser personagem de minha própria narrativa
sou outro e eu fragmento
todos montados num espaço insincero
insensatez veloz
eu, tu e ele somos todos um mesmo texto
texto inexplanável d’Ele
é só a incompletude que me define
e me indefine, forma insólida insólita
esse sou suplentarmente eu fragmentos

Lágrima

Deixe cair somente uma lágrima
Pathos ensurdecedor
Cai lágrima
Ordem sumária
Sem apelação
Somente, por favor, caia

Vedas

todo tempo num só espaço
todo espaço num só tempo
artimanhas da narrativa védica
respira Brâma, respira

Supreendente


Surpreendente. Posso olhar um fato,um ato e com o tato ainda descubro novos horizontes. Botei os olhos no céu, negro e limpo, cadente a estrela é semente em todos os corações do Vizir de uma noite de verão descendo pelo Nilo até a África do Sul, é claro, pulando algumas parte de cima da Estátua da Liberdade para dentro do rio e para o fundo de um pote de tinta cheio de vinho a se tornar vinagre numa salada serena de palavras conceitos definições sinônimos de um mesmo ato surpreendente. Como as coisas ainda podem me surpreender?